Isto nunca foi sobre ajudar Seguro. O medo real é que Jorge Pinto acabe atrás dos outros candidatos da extrema-esquerda. O que seria embaraçoso. O cenário torna-se ainda mais cruel quando se olha para as sondagens. Algumas colocam Jorge Pinto empatado com Manuel João Vieira.
Vamos então pôr ordem no ziguezague, porque a coreografia já é complexa o suficiente sem o nevoeiro adicional.
Na terça-feira, em horário nobre e com a solenidade de quem anuncia uma decisão histórica, Jorge Pinto foi ao debate a onze garantir que “no que de mim [dele] depender, não será por mim [ele] que António José Seguro não será Presidente da República de Portugal”. Uma frase histórica: pela primeira vez, um candidato ao mais alto cargo da Nação vai a um debate dizer o equivalente ao seguinte: “por mim, ganha aquele senhor”. O que leva à pergunta óbvia: então, para que é que Jorge Pinto se candidatou?
Mas, claro, havia condições. Isto não é assim. Jorge Pinto é esperto: primeiro, desbarata todo o seu eleitorado assinalando em quem é que ele votaria se não estivesse metido nesta alhada. Depois, explica como. Em boa verdade, já o tinha explicado há muito. Jorge Pinto só estaria disponível para este gesto magnânimo se houvesse “convergência à esquerda”. Traduzindo: se Catarina Martins e António Filipe também abandonassem a corrida. Um apelo comovente à unidade, desde que todos desistam ao mesmo tempo e ninguém fique para contar a história. Um apelo ao colectivismo dos colectivistas. Jorge Pinto fala-lhes ao coração. Eles, contudo, não ouviram o apelo e dilaceraram quaisquer expectativas de saída da corrida.
O problema é que isto não é (nunca foi!) sobre ajudar Seguro. Jorge Pinto está-se perfeitamente a borrifar para o destino político de Seguro. O pânico é outro. O medo real é que, ficando até ao fim, Jorge Pinto acabe atrás dos outros candidatos da extrema-esquerda. O que, convenhamos, seria embaraçoso para o partido que passou os últimos tempos a proclamar que ultrapassou PCP e BE e que inaugurou uma nova era progressista.
Rui Tavares sempre quis um candidato que unisse a esquerda (estilo Sampaio da Nóvoa), que pudesse permitir ao Livre evitar ser confrontado com a verdade: que o seu partido é Rui Tavares. Tão unipessoal quanto o Chega. Se Jorge Pinto ficar até ao fim e perder para BE e PCP, quem fica em maus lençóis não é ele — é o Livre, ou seja, Rui Tavares. E isso, no Livre, é o verdadeiro pecado capital. Logo, a solução ideal para o Livre é simples: saem todos, ninguém mede forças, ninguém perde, e o Jorge não envergonha o chefe. A política como exercício coletivo de proteção do ego.
O cenário torna-se ainda mais cruel (para mim, cómico) quando se olha para as sondagens. Algumas colocam Jorge Pinto empatado com Manuel João Vieira. Outras já o colocaram atrás. É difícil sustentar uma narrativa de crescimento histórico quando se disputa eleitorado com um candidato cuja campanha parece saída de um sketch humorístico permanente.
Assim, convém sublinhar: Jorge Pinto não está a ajudar Seguro a chegar à segunda volta. Está a tentar impedir Rui Tavares de passar vergonhas. Tudo o resto é linguagem decorativa, feita de “responsabilidade”, “convergência” e “sentido de Estado”, palavras grandes usadas para esconder um receio maior.
E então chegamos ao grande volte-face. No dia seguinte ao debate, depois de ensaiar a desistência com a gravidade de quem prepara um sacrifício nobre, Jorge Pinto anuncia que, afinal, fica até ao fim. Jorge Pinto já era o primeiro candidato de sempre a ir para um debate dizer que, por ele, perdia para alguém. Agora, é também o primeiro a dizer que, afinal, não era bem assim.
O resultado é este: um candidato que entra num debate a explicar porque pode sair, sai do debate a explicar porque é que, afinal, fica, e deixa o eleitor com a certeza de que a única coisa firme nesta candidatura é uma: a de que não faz a mínima ideia do que está a fazer. Mas uma coisa é certa: neste momento é-lhe impossível desistir. Por mais vontade que tenha.
Seria interessantíssimo saber o que Rui Tavares tem a dizer sobre isto. Até porque todos sabemos que Jorge Pinto só foi candidato com o seu aval. Infelizmente, o único Rui Tavares que vai semanalmente à SIC Notícias é o Rui Tavares “Comentador SIC”, que, tal como o cognome indica, comenta política internacional. É estranhamente parecido com o Rui Tavares do Livre, mas de certeza que não é o mesmo. Que outro líder partidário tem um espaço de comentário assim? Este Rui Tavares provavelmente nem tem nada a ver com o partido.
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