Começar de novo - O livro "1984" de George Orwell tem de passar a ser de leitura obrigatória nas escolas
O livro “1984” poderá apenas fazer-nos compreender os mecanismos usados pelos totalitários para conquistar o poder e continuar a dominá-lo sem serem derrubados.
O inglês Eric Arthur Blair, que, curiosamente, nasceu na cidade indiana de Motihari, que nessa altura (25 de junho de 1903) ainda fazia parte do Império Britânico, e que é internacionalmente conhecido pelo seu pseudónimo literário George Orwell, não escreveu apenas o livro “1984”, sendo que essa sua obra não é a única que tem como tema o combate ao totalitarismo.
Essas questões, isto é, as relacionadas com esse combate, são abordadas igualmente na sua novela alegórica “Animal Farm” (título que, nas várias edições portuguesas, foi traduzida umas vezes por “A Quinta dos Animais” e em outras por “O Triunfo dos Porcos”), no texto da qual se encontra a célebre frase “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.
Blair, que sempre foi defensor do socialismo democrático, durante a Guerra Civil em Espanha, combateu nas fileiras das Brigadas Internacionais, apoiantes do governo republicano, aí mantendo uma estreita ligação com o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), organização política cujas origens estavam ligadas aos movimentos trotskistas.
Como muitas vezes acontece na vida, o POUM foi muito criticado por Leon Trotsky, por, segundo este, não ser suficientemente revolucionário e, em vez disso, ter capitulado perante a Frente Popular e adoptado uma linha política reformista, mas, ao mesmo tempo, era classificado como trotskista pelo Partido Comunista de Espanha, chegando até a afirmar que o POUM colaborava com os fascistas.
Ora, sendo sabido que Stalin não gostava mesmo nada de Trotsky e que o Partido Comunista de Espanha era mesmo muito stalinista, não pode constituir surpresa que o POUM e os seus militantes tenham sido vítimas de violentas e sangrentas perseguições por parte dos membros do Partido Comunista, tendo os seus principais dirigentes sido mesmo fuzilados.
O julgamento dos dirigentes do POUM, sendo que Blair/Orwell foi julgado à revelia, ocorreu em Barcelona em outubro e novembro de 1938. A partir do Marrocos Francês, onde então se encontrava, Blair/Orwell escreveu, reportando-se a essa farsa judiciária, que eles eram "apenas um subproduto dos julgamentos dos trotskistas russos, tendo, desde o início, a propósito do mesmo, circulado na imprensa comunista toda a espécie de mentira, inclusive absurdos flagrantes".
Dessa experiência pessoal resultou o livro “Homenagem à Catalunha”, publicado pela primeira vez em 1938. E resultaram também, não tenho qualquer dúvida, aqueles dois livros inicialmente referidos (“1984” e “O Triunfo dos Porcos”).
Isto apesar de o primeiro deles ter sido publicado pela primeira vez em 8 de junho de 1949 e o segundo antes dessa data (17 de agosto de 1945).
Efectivamente, não é muito difícil, bem pelo contrário, encontrar a raiz do “duplipensar” descrito em “1984” no pensamento dialéctico que, apesar de ter sido concebido na Grécia Antiga, é considerado apanágio dos marxistas.
Com grandes distorções, obviamente, até porque, em termos filosóficos, Stalin era muito, mas mesmo muito primário.
Mas, enfim, sempre entendi essas passagens desse livro de Blair/Orwell como mais uma crítica ao stalinismo e não como um ataque ao pensamento dialético que reputo de absolutamente indispensável para compreender o Mundo que nos rodeia e, muito particularmente a realidade social em que estamos imersos (e que uma e una, sendo que o que varia são as percepções que dela temos).
Só que, como o próprio bem compreendeu, as críticas que constam dessas obras literárias aplicam-se a todas as formas de totalitarismo.
E, como bem comprova a “Revolução” conservadora iniciada sob o apanágio dos mandatos presidenciais de Ronald Reagan, e de que o trumpismo MAGA e todos os outros movimentos semelhantes que, há décadas, pululam nos EUA, são uma mera consequência, o leninismo, que é uma forma organizada de conquista do poder e de perpetuação no domínio do mesmo, pode ser usado e tem-no sido abundantemente, por quem perfilha ideologias de direita e de extrema-direita.
Numa leitura mais superficial, o livro “1984” poderá apenas fazer-nos compreender os mecanismos usados pelos totalitários para conquistar o poder e continuar a dominá-lo sem serem derrubados.
O que já não seria pouco.
Todavia, em minha opinião, ao percebermos esses mecanismos (de mentira e de manipulação da realidade continuamente propagandeadas, de embrutecimento das mentes e de coerente e persistente destruição da inteligência) de que os totalitários de todos os matizes se servem para alcançar o poder, poderemos combatê-los, para usar uma expressão tornada conhecida por um famoso filme realizado por Ingmar Bergman, enquanto a serpente está ainda no ovo.
E é por isso que sustento firmemente que o livro “1984” se torne de leitura obrigatória nas escolas portuguesas logo no terceiro ciclo e não apenas no secundário.
E bom seria que o mesmo acontecesse em todos os países do Mundo em que ainda se preza a Democracia. Ou, mais exactamente, a Democracia, o Estado de Direito, e o pleno exercício dos Direitos Humanos.
Vale a pena lutar por isso. Porque está em jogo o nosso futuro.
Ainda assim, isso não vai ser suficiente.
No passado Domingo, dia 6 de setembro, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu as eleições realizadas no estado alemão da Saxónia-Anhalt, tendo alcançado o resultado recorde de 44,2% dos votos.
E o AfD não tem qualquer problema em assumir propostas e posturas políticas iguais – repito, iguais e não apenas semelhantes – às dos nazis que tomaram o poder na Alemanha em 1933 e o ocuparam até ser militarmente derrotados em 1945.
E vamos ver o que acontecerá neste Domingo, 13 de setembro, nas eleições para o Parlamento da Suécia, quando os partidos do bloco de direita (no qual se inclui o Partido Liberal sueco) já admitiram publicamente que, se vencerem esse escrutínio, irão integrar no governo o partido irmão do Chega lá do sítio (o Partido dos Democratas Suecos).
Repare-se no nome “Partido dos Democratas Suecos”, que, no mínimo implicitamente, significa que só eles são os únicos e verdadeiros “democratas suecos”.
Como cá em Portugal, em que, de acordo com a profusa e ostensiva propaganda desse partido, paga não se sabe por quem, só o Chega poderá salvar Portugal.
Vê-se como esse “salvamento” está a ser feito em Albufeira e também nos concelhos e nas freguesias em que o partido do il capo André Ventura elegeu representantes.
Muito provavelmente os dirigentes dos partidos suecos que compõem o bloco de direita julgam que ao proclamar essa sua intenção de integrar a extrema-direita no governo (o Partido dos Democratas Suecos até agora apenas apoiava no parlamento a coligação de direita que estava no governo) irão evitar um crescimento na votação nessa organização, por contágio com o que aconteceu no estado alemão da Saxónia-Anhalt.
No final do dia em que este texto está a ser publicado saberemos qual é (foi) o resultado desta aposta perversa.
Só uns apontamentos finais.
Quando a antiga RDA (República Democrática Alemã) foi anexada ou engolida pela RFA (República Federal Alemã), foi iniciado um violento e muito eficaz e bem-sucedido processo de destruição das instituições e da organização económica da “Alemanha de Leste”.
País esse que era considerado nos tempos anteriores à queda do Muro de Berlim como uma espécie de joia da coroa do império soviético.
As humilhações dos Essies (os de Leste) às mãos dos Ossies (os do Ocidente) foram contínuas, sistemáticas e persistentes e, para além da perda do orgulho, a generalidade dos Essies viram o seu nível de vida baixar significativamente. Muito significativamente mesmo.
E até hoje não existe uma completa integração entre os Ossies e os Essies.
Em suma, os Essies que cresceram num regime que considerava o Estado de Direito uma mera farsa para esconder a “ditadura da burguesia” e perpetuar a exploração capitalista mais desenfreada, não sentiram que a mudança política consumada com a reunificação da Alemanha lhes trouxe a “terra de leite e de mel” que lhes foi prometida, anos a fio, pela propaganda ocidental.
Pelo contrário, o que eles sofreram foram os efeitos de um capitalismo irregulado e não controlado.
E, embora tenham tentado opor-se a tudo isso votando no Linke, partido de esquerda formado por dissidentes do SPD – Partido Social Democrata – e pelo que restava do antigo Partido Socialista Unificado da Alemanha que dirigiu os destinos da RDA desde a sua formação como país independente, acabaram por virar-se para este partido nazi, esperando que aconteça algo que exactamente eu não sei o quê.
O que sei é que, usando os truques que em Portugal são usados pelo Chega, o dirigente da AfD fez toda a campanha conduzindo uma motorizada azul que era aquela que os cidadãos e cidadãs da RDA recebiam para se fazerem transportar enquanto esperavam pela entrega dos horríveis Trabant produzidos nesse país.
Espera que podia durar anos e anos, porque, realmente, o sistema produtivo e as restantes partes do sistema económico da RDA, para ser muito brando com as palavras, deixavam muito a desejar.
Só que a destruição desse sistema não tinha de ser tão brutal e desrespeitosa como o foi.
E, por isso, não fiquei muito surpreendido com a votação obtida pelo AfD.
Nível de votação esse que o Linke nunca obteve, acrescento.
Mas, para usar o conceito expresso por Kissinger após o início, em 11 de março de 1975, do PREC em Portugal, talvez os europeus precisem desta “vacina” (a vitória do AfD nas eleições realizadas no estado alemão da Saxónia-Anhalt) para se libertarem dos nazis e fascistas (e fascizantes) nos seus respectivos países.
Até ver, a vacina que Albufeira constitui, não está a produzir efeitos.
Mas, e disso não tenho dúvidas, tal também se fica a dever - e muito - à cobertura mediática que não é feita dessa obscena situação.
Naturalmente, o profundamente anormal funcionamento das instituições que há décadas ocorre em Portugal é, de igual modo, como acontece nos estados da Alemanha que eram a antiga RDA, um contributo muito forte para o crescimento desses partidos que odeiam a Democracia, o Estado de Direito e o pleno e real exercício, na vida quotidiana de todos e de todas nós, dos Direitos Humanos universalmente reconhecidos.
Eurico Reis
Juiz Desembargador Jubilado
Presidente da Direcção da Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM)
Ex-presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA)
Começar de novo - O livro "1984" de George Orwell tem de passar a ser de leitura obrigatória nas escolas
O livro “1984” poderá apenas fazer-nos compreender os mecanismos usados pelos totalitários para conquistar o poder e continuar a dominá-lo sem serem derrubados.
A 8 de setembro será debatida uma moção de censura ao governo apresentada pelo Chega. Efectivamente, o que André Ventura e os seus fiéis seguidores pretendem é continuar a ser o centro das atenções do mundo mediático.
Em vez de procurar combater os reais problemas, tanto este governo como o anterior, ambos liderados por Luís Montenegro, apenas criam, de forma continuada e avassaladora, novos problemas e escândalos.
Ao deixar arrastar todo este processo em que se procura descobrir que "esqueletos" tem no seu armário o ex-diretor nacional da PJ, o actual ministro da Administração Interna, está a prejudicar enormemente e de forma devastadora o prestígio, a credibilidade e até a eficiência e a eficácia da PJ no combate à criminalidade.
Enfim, se calhar temos todos de começar a pensar seriamente na resposta que tem de ser dada à seguinte pergunta: estamos hoje melhor do que estávamos no tempo do governo da Geringonça?
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