Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Universitário
11 de junho de 2026 às 10:33

O fim da promessa do diploma universitário

O mundo mudou mais depressa do que muitas instituições de ensino superior quiseram admitir.

Durante décadas, a universidade foi apresentada como uma espécie de seguro de vida social. Quem estudasse mais, teria melhores empregos. Quem obtivesse um diploma, subiria na escala social. Quem entrasse no ensino superior, sairia com um futuro mais protegido. Esta promessa, embora nunca tenha sido igualmente verdadeira para todos, estruturou a ambição de milhões de famílias.

Hoje, essa promessa está em crise.

Não porque a universidade tenha deixado de importar. Importa, e muito. Mas porque já não basta dizer aos jovens que devem ir para a universidade como se o diploma, por si só, garantisse emprego, rendimento, prestígio e segurança. O mundo mudou mais depressa do que muitas instituições de ensino superior quiseram admitir.

O recente artigo do Financial Times “Why bother with university?” coloca o dedo numa ferida que também existe em Portugal: porque deve um jovem investir anos da sua vida, suportar custos crescentes, adiar rendimentos e entrar num mercado de trabalho incerto, se o retorno da universidade deixou de ser evidente em tantas áreas?

A resposta fácil seria dizer que estudar compensa sempre. Mas essa resposta já não chega. Há cursos que continuam a abrir portas. Há instituições que oferecem redes, reputação e oportunidades. Há áreas científicas e técnicas com procura real. Mas também há percursos que prometem muito e entregam pouco. Há diplomas que já não diferenciam. Há formações demasiado desligadas das necessidades do mercado, da inovação tecnológica e das novas formas de trabalho.

A universidade não pode continuar a vender a mesma promessa a todos, como se todos os cursos tivessem igual valor, todos os estudantes tivessem igual contexto e todos os diplomas produzissem igual futuro.

Em Portugal, esta discussão é particularmente importante. Durante anos, celebrámos justamente a democratização do acesso ao ensino superior. Mais jovens na universidade significou mais qualificação, mais mobilidade social e mais abertura cultural. Seria um erro enorme desvalorizar essa conquista. Mas seria igualmente errado ignorar que a massificação do ensino superior mudou o valor relativo do diploma.

Quando poucos tinham licenciatura, a licenciatura distinguia. Quando muitos têm licenciatura, o que distingue passa a ser a qualidade da formação, a exigência do curso, a reputação da instituição, as competências adquiridas, a capacidade de adaptação, a experiência internacional, os projetos realizados e, cada vez mais, a capacidade de aprender continuamente.

A inteligência artificial acentua esta pressão. Muitas tarefas antes associadas a empregos qualificados estão a ser automatizadas ou profundamente transformadas. Escrever relatórios, programar, analisar dados, traduzir, preparar apresentações ou produzir conteúdos já não são competências raras. São capacidades crescentemente assistidas por máquinas. O valor humano desloca-se para a criatividade, o pensamento crítico, a ética, a liderança, a comunicação, a resolução de problemas complexos e a capacidade de formular boas perguntas.

Ora, é precisamente aqui que a universidade deveria ser insubstituível. Não como fábrica de diplomas, mas como espaço de formação intelectual, científica, humana e cívica. A universidade tem de ensinar mais do que conteúdos. Tem de ensinar a pensar. Tem de expor os estudantes à dúvida, ao confronto de ideias, ao rigor, à disciplina, à cooperação e à responsabilidade.

O problema é que nem sempre o faz. Muitas vezes, limita-se a reproduzir programas envelhecidos, métodos pedagógicos passivos e avaliações pouco exigentes. Noutros casos, aproxima-se tanto da lógica comercial que trata estudantes como clientes e diplomas como produtos. Quando isso acontece, a universidade fragiliza a sua própria legitimidade.

A pergunta, portanto, não deve ser apenas “vale a pena ir para a universidade?”. Deve ser outra: que universidade vale a pena frequentar? Para quê? Em que área? Com que exigência? Com que ligação ao mundo real? Com que capacidade de preparar os jovens para uma vida profissional que já não será linear?

Também é tempo de deixar de tratar alternativas profissionais como percursos de segunda categoria. O ensino técnico, os cursos profissionais avançados, as formações curtas, as certificações especializadas e a aprendizagem ao longo da vida serão cada vez mais importantes. Um país moderno não precisa apenas de licenciados. Precisa de bons engenheiros, bons técnicos, bons programadores, bons enfermeiros, bons gestores, bons artesãos digitais, bons investigadores e bons empreendedores.

A universidade continua a ser uma das grandes invenções da civilização. Mas para preservar essa grandeza tem de aceitar uma verdade desconfortável: já não pode viver da autoridade herdada. Tem de merecer, todos os dias, a confiança dos estudantes, das famílias e da sociedade.

O diploma ainda conta. Mas conta menos quando vem sozinho. O que contará cada vez mais será a combinação entre conhecimento sólido, competências práticas, maturidade pessoal, capacidade crítica e aprendizagem permanente.

A universidade não acabou. Mas acabou a universidade como promessa automática de futuro.

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