Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Universitário
28 de maio de 2026 às 10:40

A inovação científica está a envelhecer

O problema é que a ciência contemporânea diz valorizar a novidade, mas muitas vezes castiga quem a pratica. Projetos arriscados têm menos probabilidade de financiamento. Ideias fora da corrente dominante encontram mais resistência nos painéis de avaliação.

Nunca houve tanta ciência como hoje. Nunca se publicaram tantos artigos, nunca existiram tantos investigadores, nunca circularam tantos dados, nunca houve tantos laboratórios, conferências, revistas e rankings. À primeira vista, vivemos numa idade de ouro do conhecimento. Mas há uma pergunta incómoda que começa a impor-se: se há mais ciência do que nunca, porque parece haver menos descobertas verdadeiramente transformadoras?

A resposta talvez esteja menos na falta de talento e mais na forma como organizámos a própria ciência. O sistema científico tornou-se gigantesco, competitivo, burocrático e profundamente dependente de métricas. Publica-se muito, cita-se muito, avalia-se muito. Mas inovar não é o mesmo que produzir. E uma ciência obcecada com produtividade pode acabar por premiar mais a quantidade do que a ousadia.

Muitos estudos sugerem que a investigação científica se tornou mais incremental. Avança, mas raramente rompe. Melhora, mas poucas vezes reinventa. Acrescenta páginas ao conhecimento existente, mas com menos frequência muda o livro inteiro. Em vez de descobertas que abrem caminhos inesperados, multiplicam-se trabalhos que refinam, prolongam ou confirmam linhas já consolidadas.

Há também uma dimensão geracional. Investigadores mais jovens tendem a arriscar mais, a desafiar convenções e a entrar em temas sem o peso de décadas de reputação acumulada. Os mais experientes são indispensáveis: orientam, integram, consolidam, dão profundidade e evitam ilusões de novidade. Mas quando os sistemas científicos ficam demasiado hierárquicos e envelhecidos, o risco diminui. E sem risco não há verdadeira inovação.

O problema é que a ciência contemporânea diz valorizar a novidade, mas muitas vezes castiga quem a pratica. Projetos arriscados têm menos probabilidade de financiamento. Ideias fora da corrente dominante encontram mais resistência nos painéis de avaliação. Jovens investigadores vivem sob pressão para publicar rapidamente, garantir contratos, acumular métricas e não falhar. Ora, quem não pode falhar dificilmente se atreve a descobrir.

A ciência foi construída por pessoas que ousaram contrariar o consenso. Mas hoje pedimos aos cientistas que sejam originais dentro de formulários, disruptivos dentro de critérios burocráticos e visionários dentro de calendários de financiamento de três anos. É uma contradição perigosa. A grande descoberta raramente nasce onde tudo é previsível, mensurável e administrativamente confortável.

Este problema não é apenas académico. É estratégico. A capacidade de produzir ciência disruptiva determina a liderança em áreas como inteligência artificial, biotecnologia, energia, saúde, defesa ou computação quântica. Países que dão mais espaço aos jovens investigadores, aceitam melhor o risco e toleram o erro podem ganhar vantagem sobre sistemas mais ricos, mas também mais pesados, defensivos e envelhecidos.

A Europa deveria prestar especial atenção a este aviso. Temos excelentes universidades, bons investigadores e tradição científica. Mas também temos burocracia excessiva, carreiras lentas, concursos fechados, precariedade prolongada e uma cultura institucional que muitas vezes prefere a segurança do currículo previsível à audácia da ideia inesperada. Queremos inovação, mas frequentemente construímos máquinas administrativas para a domesticar.

A solução não passa por substituir experiência por juventude, nem por romantizar a rutura permanente. A boa ciência precisa de memória e irreverência, método e imaginação, prudência e ambição. Precisa de investigadores seniores capazes de abrir portas, não apenas de as guardar. E precisa de jovens cientistas com autonomia real, financiamento próprio e liberdade para errar sem serem expulsos do sistema à primeira tentativa.

A ciência não está a morrer. Está, em muitos casos, a envelhecer mal. Continua produtiva, sofisticada e global. Mas corre o risco de se tornar demasiado cautelosa para transformar o mundo. E uma ciência que já não se atreve a errar pode acabar por perder aquilo que a tornou indispensável: a coragem de descobrir.

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