Para essas coisas não me convidem
A Porteira
31 de outubro de 2016

Para essas coisas não me convidem

"E lembrei-me logo do outro Senhor Barroso, não o defunto, mas lá o outro, o da política, que era presidente da Europa e que depois também foi convidado para ir trabalhar para um banco"

Olhem, para acabar mal a semana passada, não é que morreu o marido da Dona Olinda, do terceiro esquerdo? Deus o tenha e, já agora, muitos anos sem mim. Foi uma coisinha má que lhe deu de repente. Vai fazer muita falta, mais para mais porque era o administrador cá do condomínio, que é quem trata assim das coisas mais importantes, como por exemplos, as horas a que se põem os caixotes na rua e de quantas velas é que é a lâmpada que dá para aquela casinha de arrumos, para onde vão as vassouras e os baldes quando já não os tenho a uso, que isto cá na escada não se deita nada fora, que o Senhor Barroso, que era o nome dele, devia de ser arraçado de judeu, Deus me perdoe e mal comparado.

Até aproveitava os envelopes da conta da luz para meter as actas das reuniões na caixa de correio de cada condómino. Bom, assim é que se faz fortuna, não é a gastar dinheiro, que eles são donos do terceiro esquerdo e ainda têm o quarto direito alugado a uma rapariga que anda a estudar para médica, filha não sei de quem, com muito bom ar, e que namora diz que com um que ainda é primo daquele que no ano passado deu cabo de um banco, Deus lhe perdoe.

Agora, o que eu não estava à espera era desta: a Dona Olinda veio bater-me à porta, toda de luto carregado, muito chorosa, a dizer que não está com cabeça para tratar de nada e se eu podia fazer a parte de administradora do condómio durante assim, vá, uns meses. Ia-me caindo tudo.

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