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Quem está verdadeiramente a ganhar com a guerra do Irão?

Débora Calheiros Lourenço 16 de março de 2026 às 07:00

Donald Trump afirma ser o grande vencedor, mas a Rússia e a China podem até tirar mais partido do conflito.

“Os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, por isso, quando os preços do petróleo sobem, ganhamos muito dinheiro”, escreveu Donald Trump na Truth Social. No entanto a gasolina, que estava a ser vendida no país por cerca de 46 cêntimos por litro antes do início da guerra, já teve um aumento de cerca de 56 cêntimos. 

Multidão em manifestação no Irão levanta bandeiras iranianas Stringer/picture-alliance/dpa/AP Images

No discurso do Estado da União, feito por Trump no final do mês passado, o presidente dos Estados Unidos referiu ter herdado “a pior inflação da história dos Estados Unidos”, vinda da gestão de Joe Biden. A gasolina tinha chegado aos seis dólares por galão, equivalente a cerca de 1,36 euros por litro. Este é um tema importante porque em novembro deste ano se realizam eleições intercalares e o custo de vida é um dos temas que mais preocupa os norte-americanos. A possível vitória dos democratas é uma ameaça para Trump, que se perder a maioria em ambas as câmaras do Congresso, pode enfrentar um processo de impeachment – o equivalente a uma moção de desconfiança. 

Uma sondagem da Universidade de Quinnipac concluiu que 53% dos eleitores norte-americanos são contra a ação militar dos Estados Unidos no Irão, enquanto 40% são a favor. Sondagem apurou ainda que 74% dos inquiridos estão “muito preocupados” com o aumento dos preços e 25% “algo preocupados”. Durante a sua campanha eleitoral a redução dos preços de bens e a não ingerência em política estrangeira foram duas das principais bandeiras da campanha Trump. 

O Irão tem mantido ataques aos navios que tentam passar pelo estreito de Ormuz, que controla, e o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, já garantiu que enquanto os ataques norte-americanos e israelitas ao país continuarem o estreito vai permanecer bloqueado.  O estreito de Ormuz  é ponto de passagem de cerca de , o que tem levado ao aumento generalizado do custo dos combustéiveis. 

As declarações de Trump sobre o estado em que a guerra se encontra têm diferido bastante, enquanto na segunda-feira referiu, na CBS, que a guerra estava “praticamente concluída”, afirmou também: “Já ganhámos de muitas maneiras, mas não o suficiente”. E já no final desta semana deu a entender que o conflito está mesmo para durar: “Não queremos ir embora cedo de mais, pois não? Temos de terminar o nosso trabalho”.  

A incerteza sobre o futuro tem sido cada vez maior e enquanto Trump parece não estar a conseguir retirar grandes benefícios de toda a situação, alguns dos seus rivais internacionais podem ser os grandes beneficiários.  

Rússia

Até agora Putin perdeu muito pouco com a guerra no Irão. Se por um lado é verdade que o líder supremo Ali Khamenei era um era um importante aliado – e Putin considerou o seu assassinato como uma “violação cínica de todas as normas da moralidade humana e do Direito Internacional” -, por outro, o seu sucessor não parece ter ideias de se afastar dos parceiros tradicionais. O único risco aqui é se existe uma mudança de regime no Irão que leve Putin a perder por completo um antigo aliado, como aconteceu na Síria.  

Por outro lado, as exportações do petróleo parecem estar a aumentar e até os próprios Estados Unidos autorizaram temporariamente a compra de petróleo russo, levantando algumas das sanções impostas àquele país de forma a “baixar os preços”. O Departamento do Tesouro norte-americano emitiu uma licença que autoriza a venda, até dia 11 de abril, de petróleo bruto e derivados russos carregados em navios antes das 00h01 do dia 12 de março.  

António Costa, presidente do Conselho Europeu, considerou mesmo que “até agora, só há um vencedor nesta guerra: a Rússia” e explicou: “O país obtém novos recursos para financiar a sua guerra contra a Ucrânia à medida que os preços de energia aumentam. Lucra com o desvio de capacidades militares que poderiam ter sido enviadas para apoiar a Ucrânia e beneficia da menor atenção dada à frente ucraniana, enquanto o conflito no Médio Oriente ganha destaque”. Antes destas declarações Putin já tinha afirmado que se encontra disponível para voltar a cooperar com os europeus se estes assim quisessem.  

Desde o início da invasão à Ucrânia, em fevereiro de 2022, que a União Europeia tem tentado acabar com a sua dependência ao petróleo e gás natural russo. Ainda assim, e apesar de os europeus não parecerem muito inclinados a restabelecer a relações com a Rússia, Moscovo estabeleceu uma importante “frota fantasma” de petroleiros que tentam escapar às sanções ocidentais, e com o alívio das sanções norte-americanas o cenário fica ainda mais favorável. As exportações russas para países como a China, Índia ou Turquia mantiveram-se durante toda a guerra na Ucrânia e podem agora aumentar ainda mais uma vez que as exportações iranianas estão limitadas.  

think tank Centro de Investigação em Energia e Ar Limpo avança mesmo que desde o início da guerra no Irão a Rússia ganhou seis mil milhões de euros com as exportações de combustíveis fósseis, um aumento de 672 milhões de euros face às previsões para o período homólogo. A venda de combustíveis fósseis é uma das principais fontes de receita russas, exemplo disso é que em 2024 – quando muitos Estados europeus já tinham diminuído drasticamente as suas importações - cerca de 30% das receitas orçamentais vieram do petróleo e do gás natural.  

Na segunda-feira, Vladimir Putin declarou que numa altura em que a “competição se está a intensificar” no setor petrolífero, a “estabilidade é precisamente o que sempre caracterizou as empresas de energia russa”.  

Além dos ganhos económicos, Putin está também a tentar retirar ganhos diplomáticos desta guerra, ao apresentar-se como potencial mediador no conflito. O líder russo tem falado com os países do Golfo que se viram envolvidos na guerra. 

China

A China era a principal compradora de petróleo iraniano, comprando cerca de 80% das exportações, no entanto essas compras representam menos de 15% do total das importações chinesas.  

Além disso, para além de não ter problemas em importar petróleo da Rússia, a China preparou-se durante os últimos anos para uma crise energética global o que deixou a sua economia numa posição capaz de suportar mais facilmente um aumento prolongado do custo do petróleo e do gás.  

O país é pioneiro na utilização de carros elétricos, tem grandes reservas de petróleo bruto – nos últimos anos os seus líderes aproveitaram os preços baixos para fazerem um elevado número de compras e reforçarem os seus abastecimentos - e investe bastante em carvão, energias renováveis e armazenamento de baterias.  

Além disso a China é também um dos principais produtores mundiais de petróleo, ocupando o quinto lugar, e pode também aproveitar para expandir as suas exportações.  

Um fator importante é que com as atenções viradas para o Médio Oriente, a China está agora mais livre para pressionar Taiwan, no entanto desde 27 de fevereiro que a ilha registou 13 dias consecutivos sem aviões de guerra chineses a sobrevoar a ilha, sem se saber muito bem porquê. Resta agora saber se a República Popular da China está a redirecionar as suas atenções, ou se pretende iniciar uma intervenção militar mais musculada.

Nem tudo são rosas

Apesar de a Rússia e a China parecerem as principais beneficiadas desta situação, a realidade é que nos últimos tempos têm perdido importantes aleados, e demonstrado que têm pouca disponibilidade para os proteger militarmente evitando um confronto direto com Washington.  

Em dezembro de 2024 caiu o regime liderado por Bashar al-Assad na Síria, mas recentemente seguiu-se a Venezuela e o regime iraniano e cubano parecem ser os próximos dos regimes a cair.  

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