Vladimir Netto: "A Lava Jato é um thriller da vida real"

Vladimir Netto: 'A Lava Jato é um thriller da vida real'
Sara Capelo 17 de abril de 2018

Vladimir Netto escreveu Lava Jato, o livro de não ficção mais vendido no Brasil em 2016 e que agora é publicado em Portugal. É nele que se baseia a série O Mecanismo.

Luís Inácio Lula da Silva abriu a porta de fato-de-treino. Eram apenas 6h, mas não se manifestou particularmente surpreendido com os três delegados, dois escrivães e 10 agentes da polícia Federal que estavam no corredor do apartamento 122, num bloco residencial de São Bernardo do Campo naquela manhã de sexta-feira, 4 de Março de 2016. "Bom dia", disse aos polícias. Em casa, além do ex-Presidente brasileiro, estavam a mulher, Maria Letícia, e dois polícias do seu corpo pessoal, escreve o jornalista Vladimir Netto em Lava Jato, o livro de não ficção mais vendido no Brasil em 2016 e que agora é publicado em Portugal.

O comissário Luciano Flores, que chefiava a equipa, explicou-lhe que tinha um mandado para fazer buscas. E mais: queria interrogá-lo num lugar neutro. "Só saio daqui algemado", respondeu o antigo chefe de Estado, irritado. A essa mesma hora, outros 44 mandados judiciais estavam a ser cumpridos noutras localidades dos estados de São Paulo, Baía e Rio de Janeiro. Faziam parte da 24ª fase da operação Lava Jato, iniciada dois anos antes e que já levara à prisão de empresários e políticos. Mas que, ao entrar na casa do mais popular dos antigos Presidentes, tocava também pela primeira vez na cúpula do poder brasileiro - e derrubaria a Presidente Dilma Rousseff. Os investigadores procuravam provas de que o apartamento 164-A, um tríplex no Guarujá (São Paulo) teria servido como pagamento a Lula por este ter beneficiado a construtora OAS. Só isso, supunham, justificaria que a empresa tivesse pago obras no valor de 770 mil reais (à época, cerca de 183 mil euros) e que incluíam um elevador privativo num apartamento sem comprador.

No total, apartamento e obras trouxeram um rendimento extra a Lula de 2 milhões de reais (cerca de 500 mil euros), concluiu o juiz Sérgio Moro. E foi esse o caso - conjugado com a cedência de um terreno para a construção do Instituto Lula pela outrora maior empreiteira brasileira, a Odebrecht -, que levou à condenação de Lula, que desde dia 7 de Abril cumpre a pena de 12 anos e um mês.

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