Quatro dos sete candidatos são mulheres. A primeira votação informal do Conselho de Segurança da ONU indicou como favoritos Rebeca Grynspan, Carolyn Rodrigues-Birkett e Rafael Grossi.
O mandato de António Guterres à frente da Organização das Nações Unidas (ONU) está a chegar ao fim, com data de saída a 31 de dezembro. O processo de eleição do sucessor arrancou esta quinta-feira, mas pode demorar meses até que se apure o vencedor da corrida. Há sete diplomatas a concorrer ao cargo: Rebeca Grynspan, Carolyn Rodrigues-Birkett, Rafael Grossi, Michelle Bachelet, María Fernanda Espinosa, Olara Otunnu e Macky Sall. A primeira votação deu vantagem a Rebeca Grynspan, que reuniu o maior número de apoiantes. O vencedor entrará em funções a 1 de janeiro de 2027.
António Guterres termina o mandato à frente da ONU a 31 de dezembroAP Photo/Jason DeCrow
Segundo avançaram fontes diplomáticas à agência France-Presse, Rebeca Grynspan é a candidata favorita, atualmente, para os membros do Conselho de Segurança. Reuniu dez votos favoráveis, mas o segundo lugar está muito próximo: Carolyn Rodrigues-Birkett alcançou nove apoios e ambas registam quatro “sem opinião”. Rafael Grossi é o terceiro favorito.
Quem são os candidatos?
Há sete candidatos à sucessão de António Guterres, todos com longas carreiras políticas e diplomáticas. Cinco deles são da América Latina e do Sul e dois de África. Ainda é possível que mais figuras se juntem à corrida.
Quatro dos candidadatos são mulheres. Ao longo de 80 anos de história da organização, o cargo nunca foi ocupado por uma mulher. Em abril, a presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, avançou à Lusa que chegou o “momento certo” da organização multilateral ser chefiada no feminino.
1Rebeca Grynspan
A candidata costa-riquenha, de 70 anos, é defensora do multilateralismo reformista e do compromisso da ONU com a paz, o desenvolvimento e os direitos humanos. Na declaração de visão para a ONU, reconheceu que a confiança na organização está a diminuir e quer restaurar essa esperança. Defende também uma maior representatividade de países no Conselho de Segurança, sobretudo africanos e americo-latinos.
Rebeca Grynspan foi vice-presidente da Costa Rica entre 1994 e 1998 e é atualmente secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), desde 2021, sendo a primeira mulher no cargo. Quando se candidatou à sucessão de António Guterres, suspendeu o mandato na UNCTAD para evitar conflitos de interesses.
O seu trabalho versa sobre a defesa dos interesses dos países em desenvolvimento nas negociações comerciais. Em 2024, recebeu o Prémio de Negociadora do Ano de Doha por liderar os esforços da ONU para restaurar as rotas comerciais do Mar Negro depois da invasão russa à Ucrânia.
Afirma ter enfrentado barreiras de género ao longo da carreira e que isso moldou o seu estilo de liderança: “Não espero um tratamento especial. Quero um tratamento igual”, adiantou à Reuters. Economista de formação, descreve-se como uma “líder experiente”.
Rebeca Grynspan é natural da Costa RicaAP Photo/Oliver de Ros, File
2Carolyn Rodrigues-Birkett
Com 52 anos, é a candidata mais nova dos sete. Durante a carreira, dedicou-se ao trabalho junto de comunidades indígenas. Promete tornara ONU mais eficaz, fortalecer a prevenção de conflitos e promover ações climáticas.
É atualmente representante permanente da Guiana junto das Nações Unidas, desde 2020, e não é único cargo que já desempenhou na ONU. De 2015 a 2020, foi coordenadora de Alianças Parlamentares e diretora do escritório de representação da ONU no setor da Alimentação e Agricultura.
No seu país, foi membro do parlamento durante 14 anos, entre os quais ocupou o cargo de ministra dos Assuntos Ameríndios, de 2001 a 2008. Depois, tornou-se na primeira mulher e pessoa indígena a assumir a pasta dos Negócios Estrangeiros, de 2008 a 2015.
Tem formação superior em Serviço Social e mestrado em Assuntos Internacionais e Diplomacia.
Carolyn Rodrigues-Birkett é natural da GuianaAP Photo/Fernando Vergara
3Rafael Grossi
O argentino de 65 anos dedicou grande parte da carreira às áreas da energia nuclear e atómica e acredita, por isso, ter vantagem na capacidade de lidar com crises internacionais. Propõe uma reforma administrativa para tornar a ONU mais eficiente.
Rafael Grossi desempenha há seis anos o cargo de diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), uma organização autónoma vinculada à ONU. Ao contrário do que foi solicitado pela Assembleia Geral da ONU, não suspendeu o mandato durante a candidatura a secretário geral.
Também trabalhou em setores como paz e segurança, não proliferação e desarmamento, e desenvolvimento internacional. O maior sucesso da carreira foi a instalação de uma pequena equipa da AIEA na central nuclear de Zaporijia, na Ucrânia, que estava ocupada pela Rússia. Também liderou as negociações que visavam preservar parte do acordo nuclear de 2015 entre o Irão e as grandes potências.
É licenciado em Ciência Política, mestre em Relações Internacionais e doutorado em História e Política Internacional.
Rafael Grossi é natural da Argentina AP Photo/Richard Drew
4Michelle Bachelet
Com 74 anos, a chilena tem um longo percurso de intervenção em defesa dos direitos humanos, tanto no Chile como internacionalmente. Michelle Bachelet tem sido criticada por figuras conservadoras pela posição pró-aborto.
Foi a primeira mulher a exercer o cargo de Presidente da República do Chile, posição que ocupou de 2006 a 2010 e novamente de 2014 a 2018. Foi também a primeira mulher a ser ministra da Defesa do Chile, de 2002 a 2004, e a primeira diretora-executiva da ONU Mulheres, de 2010 a 2013. Entre 2018 e 2022, foi Alta Comissionária da ONU para os Direitos Humanos.
É formada em Medicina com especialização em Cirurgia, Pediatria e Saúde Pública. Também estudou Estratégia Militar na Academia Nacional de Estratégia e Política do Chile e no Colégio Interamericano de Defesa, nos Estados Unidos.
Michelle Bachelet entrou na corrida através da nomeação conjunta do Chile, do México e do Brasil. O seu país acabou por retirar o apoio à sua candidatura depois do governo de José Antonio Kast, de extrema-direita, ter tomado posse.
No Conselho de Segurança, poderá ter a vida dificultada. A China protestou fortemente contra um relatório independente assinado pela chilena sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur, apresentado em 2022 durante a sua despedida do Alto Comissariado para os Direitos Humanos. Já os Estados Unidos demonstraram-se contra várias críticas que a chilena endereçou a Israel e a Washington. Ambos os países têm poder de veto.
Michelle Bachelet é natural do ChileCyril Zingaro/Keystone via AP
5María Fernanda Espinosa
Com 61 anos, María Fernanda Espinosa valoriza a prevenção de conflitos e promete uma maior presença no terreno. Nascida em Espanha, fez vida no Equador.
É especialista em Desenvolvimento Sustentável e Alterações Climáticas, particularmente na região da Amazónia, onde trabalhou com comunidades indígenas no início da carreira. Cooperou também com várias organizações não governamentais em matérias de biodiversidade.
Foi ministra dos Negócios Estrangeiros, de 2017 a 2018, e ministra da Defesa do Equador, de 2012 a 2014. Junto da ONU, foi também conselheira, embaixadora do Equador e presidente da Assembleia Geral. A candidatura a secretária-geral da ONU foi indicada pela Antígua e Barbuda.
Tem formação superior nas áreas de Ciências Sociais, Estudos Amazónicos, Antropologia, Ciência Política, Linguística Aplicada e Geografia. Além disso, é também poetisa.
María Fernanda Espinosa nasceu em Espanha, mas cresceu no EquadorCyril Zingaro/Keystone via AP
6Olara Otunnu
É o candidato mais velho entre os sete, com 75 anos, e foi também o último a juntar-se à corrida, a 24 de julho, indicado pelo Uganda. Na declaração de visão da ONU, sublinhou a necessidade de dar continuidade às reformas institucionais e pôr fim aos conflitos internacionais. Defende também a criação de um órgão que supervisione o trabalho da ONU na área da inteligência artificial.
Olara Otunnu é ex-subsecretário-geral da ONU e trabalhou como representante especial das crianças e para os conflitos armados, entre 1997 e 2005. Foi ainda embaixador do Uganda junto da ONU, entre 1980 e 1985, período em que também presidiu ao Conselho de Segurança.
No seu país, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e, em 2011, concorreu às eleições presidenciais, mas não venceu. É formado em Direito.
Pela fase tardia em que a candidatura foi apresentada, Olara Otannu já não pôde participar na apresentação de visões que os restantes candidatos fizeram. Por isso, a Assembleia geral sugeriu um diálogo interativo com os países-membros do Conselho a 29 de julho, mas o ugandense não teve disponibilidade.
Olara Otunnu é natural do Uganda AP Photo/Frank Franklin II
7Macky Sall
O candidato senegalês, de 64 anos, defende um maior apoio aos países em desenvolvimento sobrecarregados com dívidas. Pretende reformular o Conselho de Segurança para que os países em desenvolvimento também ocupem lugares no órgão mais poderoso da ONU.
Macky Sall foi presidente do Senegal entre 2012 e 2024, cargo que ocupou depois de ser primeiro-ministro entre 2004 e 2007. De 2007 a 2008 foi presidente da Assembleia Nacional do país.
A sua candidatura começou logo fragilizada porque não reunia o apoio do próprio país, tendo sido apresentada pelo Burundi. Entretanto o Senegal já mudou de posição, mas a verdade é que Macky Sall não é uma figura consensual entre a população senegalesa devido aos protestos violentos que ocorreram durante a sua presidência.
Além disso, Macky Sall é alvo de suspeitas de ter ocultados dados económicos importantes relacionados com a dívida pública. Entre os 55 países da União Africana, 20 rejeitaram a candidatura.
Tem formação em Geofísica e Engenharia geológica.
Macky Sall é natural do SenegalAP Photo/Rafiq Maqbool, File
8Como funciona a eleição do secretário geral da ONU?
A sucessão do secretário geral obedece a um processo com várias fases. A primeira foi uma votação informal, esta quinta-feira, em Nova Iorque, nos Estados Unidos (EUA), onde o Conselho de Segurança fez uma avaliação inicial do apoio dos Estados-membros aos candidatos.
O que aconteceu foi uma consulta informal e não vinculativa somente entre os 15 membros do Conselho de Segurança. Nesse primeiro escrutínio, cada membro tinha de indicar se “encorajava”, “desencorajava” ou “não tinha opinião” sobre cada candidatura. As escolhas não têm impacto formal, portanto, não excluem nenhum dos candidatos e servem para medir o apoio que cada um reúne.
Fazem parte do Conselho de Segurança da ONU os EUA, a Rússia, a França, o Reino Unido, a República Popular da China – estes cinco primeiros são membros permanentes, com poder de veto –, Dinamarca, Grécia, Paquistão, Panamá, Somália, Barém, Colombia, República Democrática do Congo, Letónia e Libéria.
Depois desta primeira fase, segue-se um número indeterminado de novas votações, que podem estender-se durante meses. Os boletins de voto, por agora, não são identificáveis, mas numa fase mais avançada do processo os cinco membros do Conselho de Segurança passarão a ter boletins coloridos. Desse modo, será possível perceber se algum candidato não reúne o apoio de um membro com poder de veto.
9Que condições são necessárias para ser eleito?
Para ser eleito, um candidato tem de conseguir pelo menos nove votos favoráveis entre os 15 membros do Conselho de Segurança e nenhum veto dos membros permanentes. Reunindo essas condições, o Conselho de Segurança aprovará uma resolução a recomendar formalmente o candidato à Assembleia Geral das Nações Unidas.
Será esse órgão a concluir o processo de eleição. Os 193 Estados-membros que compõem a Assembleia Geral tem a decisão final, ainda que se trate, tradicionalmente, de uma formalidade, já que historicamente tem acolhido a recomendação do Conselho de Segurança.
O mandato do novo secretário-geral terá início a 1 de janeiro de 2027, um dia depois do de António Guterres terminar. O político português dirige a ONU desde 2017 e está a terminar o segundo mandato consecutivo de cinco anos.
Além do português, a ONU já teve oito secretários-gerais, todos homens. Três eram da Europa, dois de África, dois da Ásia e um da América do Sul.
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