Sem autorização de residência não conseguia abrir uma conta bancária para receber o prémio.
Um nigeriano que ganhou meio milhão de euros numa raspadinha em Itália precisou de mais de seis meses para finalmente receber o dinheiro. Tudo porque o facto de se encontrar numa situação ilegal no país envolveu-o numa teia burocrática, que o impediu de recolher logo o prémio.
Raspadinha também é muito popular em PortugalSérgio Lemos/Cofina Media
Imagbe Ehizomwengie, de 36 anos, contou ao The Guardian que chegou a Itália em 2016 depois de atravessar o Mediterrâneo, proveniente da Líbia, onde esteve em cativeiro durante dois anos, tendo sido libertado após pagar um resgate.
Quando chegou a Itália fez um pedido de "proteção especial" - que concedia residência a requerentes de asilo que corriam risco de vida se fossem deportados - que lhe foi negado. Sem conseguir trabalhar, passou a viver na rua, sobrevivia como vendedor ambulante de lenços e a pedir esmola em frente a um supermercado em Turim. Esporadicamente comprava uma raspadinha, a ver se a sua sorte mudava. Até que em outubro do ano passado, depois de gastar 5 euros, mudou mesmo.
“Quando vivia na Nigéria, rezava por oportunidades, mas elas nunca chegavam. Mas também é preciso correr riscos na vida e eu continuei a acreditar que um dia poderia ter sorte, até tornar-me milionário", contou. "Parei de comprar raspadinhas durante anos, mas no dia em que ganhei... acredito sinceramente que Deus estava a proteger-me."
Só que a alegria rapidamente deu lugar à desilusão. Sem autorização de residência, Ehizomwengie não podia abrir uma conta bancária para receber o dinheiro. E sem o dinheiro não conseguia demonstrar a independência financeira necessária para pedir a autorização de residência.
Confiou o dinheiro a um amigo nigeriano, que transferiu metade a um primo, que por sua vez comprou uma loja que vende produtos alimentares africanos. Depois de demonstrar que Ehizomwengie trabalhava na loja, um advogado avançou com o pedido de residência, que esta semana foi finalmente deferiu.
"Tenho rezado por este momento desde que cheguei a Itália. É um enorme alívio. Pode parecer inacreditável, mas receber a autorização de residência significa mais para mim do que ganhar o dinheiro. Quero trabalhar e contribuir para a sociedade", garantiu o nigeriano.
O advogado, por sua vez, asseurou que Imagbe não obteve a autorização de residência por ganhar o dinheiro da raspadinha, mas sim porque "provou ser um bom candidato".
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