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Fim da USAID: “Os cancelamentos estão a interromper programas que salvam vidas"

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A SÁBADO falou com Lou Cormack, dos Médicos Sem Fronteiras, e com Mónica Ferro, do Fundo das Nações Unidas para a População, sobre os impactos dos cortes no financiamento, que além de dificultarem o apoio imediato às populações têm impacto na economia dos países afetados.

Quando Donald Trump regressou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o republicano decidiu cortar a maior parte do financiamento dos Estados Unidos à ajuda humanitária internacional através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), promessa que fez durante a campanha eleitoral. Estes cortes reduziram o financiamento disponível para ajuda humanitária em muitos países em desenvolvimento e afetados por guerras.

Entrega de ajuda humanitária da ACNUR no Líbano
Entrega de ajuda humanitária da ACNUR no Líbano AP Photo/Hassan Ammar, File

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, avançou, na altura, que mais de 80% dos programas da USAID foram cancelados por alegadas fraudes e mau uso dos recursos pela agência. Até então os Estados Unidos eram, de longe, o maior fornecedor de ajuda humanitária do mundo e é estimado que milhares de contratos - mais de cinco mil dos cerca de seis mil existentes até 2025 - foram suspensos ou terminados. Assim sendo, em apenas um ano o financiamento humanitário total caiu de cerca de 23,97 mil milhões de euros para aproximadamente 7,34 mil milhões de euros. 

Mónica Ferro, diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) e cronista da SÁBADO, partilhou que “os Estados Unidos eram responsáveis por aproximadamente 22% do orçamento regular da ONU e cerca de 26% do orçamento de manutenção da paz, com um financiamento global para a saúde de cerca de 12,3 mil milhões de dólares em 2024” e os cortes “reduzem os recursos disponíveis para agências como a OMS, ACNUR, UNFPA e outras operações humanitárias multilaterais”.

Apenas na UNFPA “os cortes foram de mais de 330 milhões de dólares”, equivalentes a “48 projetos, quase todos em contextos humanitários frágeis, conflitos ou desastres naturais” e Mónica Ferro partilha que a sua “preocupação é que a interrupção dos programas de saúde, incluindo a vacinação e luta contra a HIV/SIDA e outras doenças, possa reverter progressos de décadas em saúde pública”:  “Os cancelamentos súbitos estão a interromper programas que salvam vidas e a forçar o encerramento ou a redução de serviços críticos em muitos contextos afetos por crises”, garante. 

Lou Cormack, diretora-geral da Médicos Sem Fronteiras no Líbano, partilha com a SÁBADO que a organização “não aceita financiamento do governo dos Estados Unidos e depende de doações privadas”. Ainda assim, concorda que “os cortes da USAID tiveram um impacto global severo na assistência médica e programas humanitários”.  

Efeitos em cadeia

A falta de financiamento cria “efeitos em cadeia em programas humanitários, de saúde, direitos sexuais e reprodutivos, de desenvolvimento e de direitos humanos” e Mónica Ferro reforça que “sempre que se corta na cooperação para o desenvolvimento quem sofre primeiro são as mulheres e raparigas”. A diretora do escritório de Londres do  UNFPA refere que, por exemplo, no Sudão “o UNFPA fornece mais de 80% dos serviços de combate à violência baseada no género e mais de 90% dos serviços de saúde sexual e reprodutiva na resposta aos refugiados, tornando o impacto particularmente grave”. 

Prova disso é um estudo da revista científica que avançou que estes cortes poderiam resultar em mais de 14 milhões de mortes até 2030. Alguns países estão a enfrentar um choque “comparável, em escala, a uma pandemia global ou a um grande conflito armado”, referiu na altura Davide Rasella, coautor do estudo. Os cortes “representam o risco de interromper abruptamente – e até reverter – duas décadas de avanços em saúde entre populações vulneráveis”. Ao analisarem dados de 133 países, os autores estimaram que o financiamento da USAID evitou 91 milhões de mortes entre 2001 e 2021. 

Além das consequências mais óbvias dos cortes no financiamento, Mónica Ferro recorda que “se um grande programa de cooperação num país em desenvolvimento for fechado, os serviços deixam de ser necessários, as pessoas ficam desempregadas e isso tem impactos nas suas famílias e economias nacionais”.  

Também Lou Cormack reforça os impactos dos cortes na “capacidade de dar uma resposta imediata, especialmente devido a cortes no staff que experienciou e guiou a resposta em 2024”.  

Cortes repentinos não permitiram adaptação

Mónica Ferro explica que a falta de financiamento por parte dos Estados Unidos criou “lacunas que são difíceis de preencher apenas com financiamento de outros países ou com financiamento privado”, até porque foram feitos de forma muito repentina. No entanto quando é questionada sobre se foi um erro da comunidade internacional depender tanto dos Estados Unidos para os programas de desenvolvimento e cooperação recorda que “em 1945, quando se começou a desenvolver os planos finais para a carta das Nações Unidas, o calculo que se fez seguiu a lógica que quem pode mais paga mais e como os Estados Unidos não ficaram destruídos pela guerra, nem tiveram guerra no seu território, aceitaram pagar mais”. Desde então “a comunidade internacional confiou sempre que os grandes investidores assumiriam a sua responsabilidade pelo bem-estar de todos”, até porque “a maior parte dos países que recebem estas ajudas não têm condições para investir mais”. Além disso considera que “o investimento na cooperação para o desenvolvimento é um investimento na segurança”. 

Além dos cortes de financiamento vindos dos Estados Unidos “outros países, como é o caso do Reino Unido, anunciaram que iam diminuir as doações para alocar essas verbas à Defesa”.  

Esta semana foi divulgado pela OCDE que a Ajuda Pública ao Desenvolvimento de Portugal caiu 21,3% em 2025, para 570 milhões de dólares, num contexto em que "a ajuda internacional dos países membros e associados do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento diminuiu 23,1% em termos reais no ano passado, em comparação com 2024, o maior declínio anual na história da APD", refere um relatório preliminar. 

Esta quebra a nível global coloca a ajuda dos países doadores ao nível de 2015, quando foi adotada a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. 

Na lista dos maiores doadores, a Alemanha encontra-se, pela primeira vez, em primeiro lugar com 24,9 mil milhões de euros enquanto os Estados Unidos, apesar dos cortes no financiamento, continuam a ser um dos principais dadores 24,8 mil milhões de euros, o terceiro lugar é ocupado pelo Reino Unido, com 14,7 mil milhões de euros. 

Desde que há registos, a OCDE refere que "este foi o primeiro ano em que todos os cinco principais doadores reduziram a sua APD. 

Dificuldades em zonas de guerra

Lou Cormack refere à SÁBADO que “desde a escalada do conflito em março de 2026, a Médicos Sem Fronteiras lançou uma resposta de emergência a nível nacional para apoiar as áreas mais afetadas como Baalbek-Hermel e Nabatiyeh”. Os bombardeamentos “já deslocaram mais de um milhão de pessoas, equivalente a um quinto da população do Líbano”. O aumento dos pacientes nas clínicas dos Médicos Sem Fronteiras, “reflete a escalada da guerra e a suspensão do programa da Organização Mundial para as Migrações em janeiro” por isso Lou Cormack partilha que “enquanto os Médicos Sem Fronteiras está a tentar tapar alguns buracos, a resposta humanitária no Líbano está marcada por crises que se sobrepõem”.  

Depois de “a insegurança causar breves interrupções, as clínicas em Beirut, Hermel e Arsal reabriram rapidamente”, garante Lou Cormack, para “continuar a providenciar cuidados de saúde básica, saúde sexual e reprodutiva, apoio à saúde mental e distribuição kits de higiene, colchões, água e saneamento básico”. O contexto atual é ainda marcado pela “escalada de 15 meses de um cessar-fogo que nunca foi capaz de trazer segurança real para os civis, com ataques israelitas e incursões que persistiram”, lamenta a diretora-geral.  

Além da falta de financiamento o aumento das crises mundiais, especialmente com as guerras no Médio Oriente, dificulta também bastante o trabalho das organizações internacionais, alerta Mónica Ferro: “Vivemos uma tempestade perfeita, há mais necessidades, mais guerras e menos dinheiro. As pessoas que já estavam desprotegidas ficam ainda mais”. Prova disso é que desde o dia 28 de fevereiro, data em que os ataques dos Estados Unidos e Israel começaram, a Unicef relatou que pelo menos 1100 crianças morreram ou ficaram feridas em bombardeamentos.  

“As Nações Unidas estão prontas para trabalhar mais no Líbano e no irão, mas precisamos de acesso. Não podemos operar em contextos onde os nossos colaboradores corram risco de vida, não conseguimos entrar nestas zonas para distribuir os produtos que temos”, refere Mónica Ferro.  

Mónica Ferro exemplifica que apenas em 2025 a UNFPA teve de fechar 40 espaços seguros para mulheres e raparigas enquanto medicamentos deixaram de ser fornecidos a 80 unidades de saúde, enquanto no Líbano 267 mil pessoas correm o risco de perder serviços em 2026. No Paquistão foram cancelados programas de saúde sexual em 62 unidades de saúde em aldeias de refugiados, afetando 1,7 milhões de refugiados afegãos. Na República Centro-Africana cerca de 70 mil mulheres e raparigas em campos de refugiados e comunidades de acolhimento deixaram e receber serviços vitais de saúde sexual.  

Os impactos não são apenas em países com conflitos ativos, uma vez que na Turquia mais e metade dos programas do UNFPA para refugiados está em risco ameaçando 2,5 milhões de refugiados enquanto na Líbia cerca de 37 mil pessoas perderam acesso a cuidados.  

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