“Socialista pró-negócios” e “rei do Norte”: quem é Andy Burnham, o candidato à sucessão de Keir Starmer?
Andy Burnham deixou a Câmara de Manchester para exercer o cargo de deputado no Parlamento britânico. Menos de uma semana depois, é candidato a primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista.
Situado na ala progressista do Partido Trabalhista, Andy Burnham é militante desde os 14 anos. Com 56 é, por agora, o único candidato à sucessão de Keir Starmer, após a demissão do primeiro-ministro e líder do partido, segunda-feira, dia 22. Foi presidente da Câmara de Manchester e eleito deputado do parlamento britânico na semana passada. Defensor de um “socialismo pró-negócios” e conhecido como “rei do Norte”, quem é Andy Burnham?
Se agora Burnham parece ser a figura mais provável para assumir a liderança do partido, nem sempre foi assim. O trabalhista já camdidatou duas vezes, mas perdeu em ambas: em 2010, foi ultrapassado por Ed Miliband, atual ministro da Segurança Energética, e, em 2015, por Jeremy Corbyn, agora líder do partido Your Party, à esquerda do Partido Trabalhista.
Ainda assim manteve-se ativo dentro do partido e em 2017 tornou-se presidente da Câmara de Manchester - com reeleições em 2021 e em 2024 - cargo que manteve até à eleição para o Parlamento nacional na semana passada. Tratando-se de cargos incompatíveis, a câmara ficou sem líder e foi convocada uma eleição local para 30 de junho.
No currículo, Burnham acumula cargos como assessor do Governo de Tony Blair e, mais tarde, deputado do parlamento, eleito pelo círculo eleitoral de Leigh, de 2001 a 2017. Durante esse período, foi subsecretário de Estado da Saúde (2006 – 2007), secretário-chefe do Tesouro (2007-2008), ministro da Cultura (2008-2009) e ministro da Saúde (2009-2010).
O que defende para o país?
Burnham tem vindo a afirmar-se como alternativa interna há vários anos, mas foi durante a pandemia que ganhou visibilidade nacional. Ficou conhecido como o “rei do Norte” por defender mais apoios para empresas e trabalhadores da região, marcada pela tradição industrial e mineira.
Já durante o Governo de Starmer, opôs-se ao líder trabalhista relativamente aos cortes nos apoios sociais e defendeu uma abordagem intervencionista mais à esquerda. Recentemente, criticou os “últimos 40 anos de neoliberalismo”, de “desindustrialização e de desregulação”, as “privatizações da década de 1990 e a austeridade da década de 2010”.
Outra das suas bandeiras diz respeito à reforma dos transportes públicos, ambicionando a integração do sistema de autocarros numa rede articulada com elétricos e comboios a preços acessíveis. Foi uma das políticas mais bem-sucedidas enquanto presidente de Manchester.
Relativamente a impostos, Burnham defende que o Partido Trabalhista deve cumprir a promessa de não aumentar os impostos sobre o rendimento e o valor acrescentado nem sobre as contribuições para a Segurança Social.
Na economia, é crítico da teoria “trickle down economics”, que sugere que a redução dos impostos dos mais ricos leva ao aumento do emprego e da riqueza dos mais pobres. Em vez disso, defende o aumento do IMI em casas de alto valor, particularmente em Londres e no Sudeste de Inglaterra.
Tem como prioridade o combate ao aumento do custo de vida e intensificação das desigualdades económicas. Para tornar a vida dos cidadãos mais acessível, quer reduzir as faturas da luz, da água e dos transportes. Nesse sentido, apoia um maior controlo público de empresas que prestam serviços essenciais, como é o caso da Thames Water, fornecedora de água. Propõe um plano a dez anos de renacionalização de certas empresas que passaram para o domínio privado.
Na habitação, Burnham defendeu um investimento de 40 mil milhões de libras para a construção de habitações sociais, embora tenha recuado nessa intenção e sugerido que o montante fosse alocado a um programa de habitação já existente. Sublinha, no entanto, que as autarquias deveriam ter mais autonomia para decidir sobre o investimento e construção de infraestruturas.
Embora seja crítico do Brexit e acredite que a saída da União Europeia (UE) tenha sido prejudicial para o Reino Unido, pretende manter a posição do Governo. Considera que é necessário apostar na aproximação aos 27, mas um regresso à UE não está em cima da mesa, neste momento.
Quanto à imigração, Burnham deixou de apoiar algumas posições consideradas favoráveis, como o fim do mecanismo que impede que os imigrantes tenham acesso a subsídios ou habitação pública antes de lhes ser concedido estatuto de residência. Ainda que já tenha afirmado que o atual sistema de imigração é “injusto”, apoiou medidas restritivas da ministra do Interior e defendeu a necessidade de uma posição mais dura e de rotas seguras de entrada no Reino Unido.
Ainda como presidente da Câmara de Manchester, defendeu uma reforma eleitoral para substituir o sistema first-past-the-post por acreditar que este beneficia os grandes partidos e fragiliza os pequenos.
De Liverpool até aos trabalhistas
Filho de um técnico de telecomunicações e de uma rececionista num centro de saúde, Burnham nasceu em 1970, em Liverpool, e cresceu entre essa cidade e Manchester. Foi aos 14 anos que se juntou ao Partido Trabalhista, influenciado pela greve dos mineiros de 1984 e 1985. Estudou inglês em Cambridge e casou-se em 2000 com Marie-France van Heel, empresária neerlandesa, com quem veio a ter três filhos.
Os próximos tempos em Downing Street
As candidaturas à sucessão de Starmer devem ser formalizadas até 16 de julho. Se Burnham não tiver oposição, a nomeação do próximo primeiro-ministro poderá acontecer no mesmo mês. Caso contrário, o processo poderá estender-se até agosto, mas tudo indica que esteja terminado antes de setembro.
A oposição, no entanto, já veio defender a realização de eleições antecipadas. Esta segunda-feira, o líder do Partido Reformista, Nigel Farage, escreveu no X: "O Reform exige eleições e estamos prontos para promover uma mudança radical. Se o Partido Trabalhista pensa que pode enfiar mais um político profissional no número 10 [de Downing Street], está enganado."
Com Débora Calheiros Lourenço