Desvio de navios para África reacende pirataria na costa da Somália
A instabilidade no Médio Oriente está a reconfigurar o comércio marítimo. Com o aumento dos riscos, muitos navios optam por rotas mais longas, o tem levado ao aumento da pirataria ao largo da Somália.
São tempos conturbados para o comércio marítimo de mercadorias. Já antes do ataque ao Irão - pelos Estados Unidos e Israel - ter condicionado a passagem de navios comerciais no Estreito de Ormuz, os houthis do Iémen levavam a cabo ofensivas no Mar Vermelho, como retaliação a Israel pela guerra em Gaza. Agora, são os piratas da Somália que parecem ter renascido, aproveitando o aumento de circulação nas águas mais próximas, na sequência dos impasses no Estreito de Ormuz.
E também noutro estreito onde a passagem é arriscada, por outros motivos: o Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e depois ao Mar Arábico. Por isso mesmo, as grandes companhias de transporte marítimo optam por ir dar uma grande volta, contornando todo o continente africano, fazendo a rota que atravessa o Cabo da Boa Esperança. Mas essa rota leva-os direitinhos à costa da Somália.
A pirataria ao largo da costa da Somália já foi uma das mais perigosas do mundo, mas na última década significativamente devido às patrulhas navais internacionais instaladas na região que resultaram numa melhoria da segurança marítima. Mas recentes ataques de piratas nestas águas levantam preocupações sobre um possível ressurgimento.
Na mais recente sessão do Comité de Segurança Marítima da Organização Marítima Internacional (OMI), que decorreu em Londres na semana passada, o secretário-geral Arsenio Dominguez apelou para que a liberdade de navegação fosse respeitada, assim como assegurada a segurança dos funcionários marítimos. Para Dominguez, os navios “jamais se devem tornar vítimas colaterais de tensões geopolíticas". Os temas em destaque passaram pela situação em torno do Estreito de Ormuz e os relatos de pirataria e assaltos armados na costa da Somália.
Os ataques dos piratas ao largo estão assinalados num mapa partilhado pela ICC Commercial Crime Services (CCS), o braço anti-criminalidade da Câmara de Comércio Internacional, que tem por objetivo combater todos os tipos de crimes comerciais. E inclui alguns registos recentes junto à Somália.
Cronologia dos ataques recentes
O mais recente tem data de 26 de abril, a 20 milhas náuticas de Garacad. “Enquanto seguia em viagem, um navio de carga foi abordado e sequestrado por indivíduos armados. O incidente está em curso e está a ser monitorizado pelas autoridades”, lê-se no mapa da ICC. Três dias antes, também perto de Garacad, registou-se outro incidente, menos grave: os membros da equipa de segurança armada a bordo de um navio de carga geral avistaram uma pequena embarcação a aproximar-se rapidamente e - após colocarem a tripulação em segurança - a equipa armada acabou por trocar tiros com quatro piratas, que acabaram por abandonar.
Também a 21 de abril, aproximadamente a seis milhas náuticas de Durdura, Somalia, um navio-tanque foi abordado e sequestrado por 30 pessoas armadas. Um incidente em curso que “está a ser monitorizado pelas autoridades". Mais a sul, encontra-se ainda um registo de um ataque que ocorreu a 26 de fevereiro, a 15 milhas náuticas de Garmaal, quando duas pequenas embarcações tentaram abordar um navio em movimento: "A embarcação aplicou medidas defensivas, levando as embarcações a desistirem da tentativa de abordagem. Foi reportado que um dos suspeitos foi morto e outros dois ficaram feridos durante o incidente. Não há mais informações disponíveis".
Alguns destes incidentes foram também divulgados pela Força Naval da União Europeia - Operação Atalanta (EUNAVFOR), uma missão militar criada em 2008 no âmbito da Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD), com o objetivo "contribuir para a dissuasão, prevenção e repressão de atos de pirataria e assalto à mão armada ao largo da costa da Somália", descreve o site oficial. Uma missão que ao longo dos anos foi sendo ajustada, passando também a assegurar a segurança marítima no Noroeste do Oceano Índico.
O mapa do ICC regista ainda um ataque no Golfo de Áden, junto ao Iémen, perto do Terminal Portuário de Qana, em Shabwa. O que o que pode indicar uma expansão geográfica da atividade dos piratas da Somália. A 2 de maio, nove indivíduos armados “abordaram, sequestraram e fizeram refém a tripulação de um navio-tanque fundeado”. Segundo o registo no mapa “há indicações de que o navio estará a dirigir-se para a costa da Somália. As autoridades locais e internacionais estão a investigar”.