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Arqueólogos iranianos criam mapa online que identifica património cultural em risco no país

Renata Lima Lobo 30 de março de 2026 às 13:31

Lançado com foco no Irão, o novo mapa do património atingido pelos recentes ataques pretende expandir-se para acompanhar impactos semelhantes em conflitos noutros países do Médio Oriente.

Estádio Azadi, em Teerão: destruído a 3 de Maio de 2026. O complexo desportivo nacional do Irão, localizado em Teerão, ostenta a etiqueta "destruído" no novo mapa “”. Uma iniciativa da Sociedade Iraniana de Arqueologia (SIA), em colaboração com o Centro das Paisagens Históricas do Médio Oriente (CAMEL).

Praça de Naqsh-e Jahan (Meidan Emam) Thomas Schulze/picture-alliance/dpa/AP Images

Já se contam destruídos ou danificados na sequência do ataque ao Irão levado a cabo por Israel e pelos Estados Unidos da América. Entre os quais edifícios classificados como Património Mundial, Património Nacional, avançou o Ministério do Património Cultural e do Turismo do Irão. No novo mapa encontram-se “apenas” 87 referências, num trabalho em progresso que se pode estender a outros países do Médio Oriente.

Trata-se de uma base de dados georreferenciada de estruturas históricas ou com valor patrimonial que foram danificadas durante conflitos armados recentes e que “permanecem em risco de maior destruição e pilhagem” lê-se na descrição do projeto. Cada um dos registos inclui imagens e dados como a localização, o nível de danos e a data em ocorreram, além da relevância cultural de cada estrutura, tendo por base informação disponível na Wikipédia. Todos os sítios registados serão também integrados na base de dados da Arqueologia em Perigo no Médio Oriente e Norte de África (EAMENA) para efeitos de documentação a longo prazo.

Mapa "Património Cultural do Médio Oriente em Risco em Conflito Armado" DR

Embora o lançamento da plataforma esta focado no património cultural em risco do Irão, o objetivo a longo prazo passa por “identificar e proteger os sítios de património cultural em toda a região”, sensibilizando para “os riscos e o impacto irreversível que os conflitos armados têm no nosso património global partilhado”.

Só em Teerão, capital do Irão, contam-se 41 entradas no mapa. Além do estádio, foi também completamente destruído o Palácio do Senado, construído nos anos 50 do século XX. Símbolo da arquitetura moderna e património nacional, foi destruído no passado dia 3 de março. Na capital há ainda 12 estruturas com danos considerados graves, com destaque para o Palácio do Golestão, Património Mundial da UNESCO. Outro património mundial atingido pelos ataques, mas com “danos menores”, foi a Praça de Naqsh-e Jahan (ou Meidan Emam), no centro da cidade de Isfahan, uma das maiores praças do mundo, com quase nove hectares e rodeada de edifícios monumentais.

Danos no Palácio do Golestão ASSOCIATED PRESS

Em defesa dos “pilares de sociedades estáveis e resilientes”

A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - alertou recentemente para a privação no acesso à educação de milhões de crianças das regiões afetadas pela guerra no Médio Oriente, com escolas, universidades e também professores debaixo de fogo. E enviou equipas para o terreno.

Além de espaços de aprendizagem temporários, a UNESCO ativou um programa de emergência para apoiar profissionais da cultura e proteger património nos países afetados. O programa inclui, por exemplo, formação de combate ao tráfico ilícito de bens culturais, com "exercícios de simulação ajudarão os museus e as instituições culturais a antecipar riscos e a preparar-se para emergências", lê-se num comunicado. No Líbano, onde se têm intensificado os ataques de Israel, a organização está já a apoiar a deslocalização e armazenamento seguro de artefactos de escavações arqueológicas.

"O Médio Oriente alberga tesouros culturais inestimáveis, incluindo cerca de 125 sítios considerados Património Mundial pela UNESCO em 18 países, representando quase 10% de todos os bens considerados Património Mundial”, destaca a UNESCO. A organização apela à “máxima contenção” de todas as partes envolvidas no conflito para que tomem “todas as medidas possíveis para preservar a educação, a cultura, os meios de comunicação, a ciência e o ambiente - pilares de sociedades estáveis e resilientes”.

Numa altura em que o direito internacional volta a ser ignorado, a UNESCO não deixa de sublinhar as obrigações definidas na Convenção de Haia, na Convenção do Património Mundial e em várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU que determinam a proteção de escolas, alunos, profissionais de educação, jornalistas e património cultural.

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