Enquanto o resto da Europa discute inteligência artificial, competitividade económica e defesa comum, Portugal continua preso entre Berlim de 1938 e Moscovo de 1972.
Portugal tem otalento raro de conseguir tropeçar simultaneamente nos fantasmas do século XX à direita e à esquerda, tudo no espaço de poucos dias e sem precisar sequer de mudar de canal.
Primeiro, tivemos o primeiro-ministro em solo alemão a utilizar a palavra “Führer” num contexto infeliz, produzindo aquele segundo de silêncio diplomático em que metade da sala pensa “ele não disse isto” e a outra metade já está a imaginar os títulos do dia seguinte. Depois, quase sem tempo para o constrangimento assentar, surge uma deputada do PCP a confessar, sem grande pudor emocional, que sente saudades da União Soviética.
É bonito, no fundo. Enquanto o resto da Europa discute inteligência artificial, competitividade económica e defesa comum, Portugal continua preso entre Berlim de 1938 e Moscovo de 1972.
Há países que exportam tecnologia. Nós exportamos lapsos históricos.
O episódio do primeiro-ministro teve aquele sabor muito português do “queria dizer uma coisa e acabou a invocar outra”. Em política internacional, há palavras que são minas antipessoais semânticas. “Führer” é uma delas. Na Alemanha, não é apenas uma palavra histórica. É praticamente material radioativo linguístico. É o equivalente político a entrar num jantar formal e começar a brincar com fósforos junto às cortinas.
Claro que ninguém acredita seriamente que o primeiro-ministro tenha qualquer nostalgia hitleriana. O problema das gaffes não é a intenção mas sim o simbolismo. E a política moderna vive de simbolismos instantâneos, transformados em memes antes de o tradutor oficial acabar a frase. Os alemães devem ter pensado: “Os portugueses são simpáticos, têm bom bacalhau e boas praias… mas porque é que o chefe do governo deles está a usar palavras proibidas da nossa História?”
Mas Portugal não gosta de deixar ninguém sozinho no desconforto. E eis que entra em cena a deputada comunista com a nostalgia soviética. Aquela nostalgia vintage, quase artesanal, por um regime conhecido apenas por pequenos detalhes secundários como polícia política, censura, gulags, perseguições e décadas de opressão sobre metade da Europa.
É curioso como certas nostalgias políticas têm tratamentos mediáticos diferentes. Imagine-se um deputado a dizer que tem saudades de alguns aspetos do Terceiro Reich. A carreira terminava antes do intervalo para café. Teríamos comunicados, indignação internacional, debates especiais, psicólogos em horário nobre e provavelmente uma petição online.
Mas quando alguém manifesta saudades da União Soviética, há frequentemente um estranho reflexo romântico do género “Ah… está a falar dos ideais.” Dos ideais. Claro. Também houve quem apreciasse a arquitetura dos gulags.
A verdade é que parte da esquerda europeia continua a tratar o comunismo soviético como um ex tóxico Admitem que houve alguns problemas, admitem que “às vezes era complicado”, mas insiste em recordar “os momentos bonitos”. Como se Estaline fosse apenas um erro de casting.
O mais fascinante é o sincronismo involuntário destes episódios. Num lado do espectro político, uma gaffe linguística com ecos do nazismo. No outro, saudades assumidas do império soviético. Fica a sensação de que o debate político português entrou numa máquina do tempo defeituosa.
Talvez seja o efeito inflação. O futuro está tão caro que parte da classe política decidiu refugiar-se no passado. Entretanto, o cidadão comum olha para isto enquanto tenta pagar a prestação da casa, abastecer o carro e perceber porque é que o tomate custa quase o mesmo que um pequeno investimento bolsista.
Há qualquer coisa de tragicomicamente portuguesa nisto tudo. Somos um país moderado, pacífico, europeu, mas politicamente temos uma estranha atração por fantasmas ideológicos. Uns tropeçam em vocabulário alemão tóxico. Outros fazem turismo sentimental pela URSS.
E tudo isto acontece numa geração que nunca viveu nem o nazismo nem o estalinismo. É uma espécie de radicalismo vintage de segunda mão, praticado à distância confortável da democracia liberal, precisamente o sistema que permite dizer disparates sem consequências penais.
O paradoxo é delicioso. Enquanto muitos dos que suspiram pela União Soviética fazem-no usando smartphones produzidos pelo capitalismo asiático, publicando indignações em plataformas americanas, enquanto recebem salários pagos por democracias ocidentais que existiram precisamente para derrotar o modelo soviético.
Já a direita liberal portuguesa descobriu, da pior maneira, que há palavras que na Alemanha não admitem improviso semântico. A diplomacia é uma arte delicada pois um deslize verbal pode transformar uma conferência internacional numa aula acelerada de memória histórica.
No fundo, estes episódios revelam que a Europa pode ter derrotado militarmente os extremismos do século XX, mas ainda não conseguiu derrotar completamente as suas nostalgias emocionais.
Uns romantizam a ordem autoritária enquanto outros romantizam a igualdade imposta. Uns esquecem Auschwitz. Outros relativizam o Gulag.
E pelo meio está o eleitor comum, cada vez mais convencido de que o bom senso se tornou a ideologia mais subversiva do continente.
Talvez Portugal devesse criar o Ministério da Gestão de Gaffes Históricas. Teria muito trabalho. Conferia discursos antes das viagens oficiais, distribuía manuais sobre palavras proibidas e talvez oferecesse uma formação básica intitulada:
“Totalitarismos do século XX, porque não convém ter saudades de nenhum.”
Entre o “Führer” e as saudades da URSS: Portugal perdido no túnel do tempo
Enquanto o resto da Europa discute inteligência artificial, competitividade económica e defesa comum, Portugal continua preso entre Berlim de 1938 e Moscovo de 1972.
Em vez de uma verdade encapsulada e distante, temos uma verdade participada, comunitária, quase convivial. Se várias mãos tocaram, várias consciências atestam. É a prova em regime de condomínio.
Do ponto de vista jurídico, a questão central não é a existência da ferramenta NewsWhip, mas o seu uso. A Constituição da República Portuguesa consagra, de forma inequívoca, a liberdade de imprensa e a proibição de ingerência do Estado nos meios de comunicação social.
A decisão judicial que determinou a remoção de conteúdos jornalísticos relativos a uma reportagem sobre alegada burla imobiliária envolvendo uma agência do universo Remax, exibida no Repórter Sábado no NOW, parece saída de um tempo em que o contraditório era um luxo dispensável.
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