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Coroação de Paul Thomas Anderson e política à porta: foi assim a grande noite dos Óscares

Timidez nos comentários sobre a atualidade da América e do mundo, "Batalha Atrás de Batalha" a superiorizar-se a "Pecadores" e noite agridoce para "O Agente Secreto" e "Marty Supreme": o filme da noite.

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Coroação de Paul Thomas Anderson e política à porta: foi assim a grande noite dos Óscares
Gonçalo Correia 16 de março de 2026 às 03:29
"Batalha Atrás de Batalha" foi o grande vencedor da noite dos Óscares, este domingo, 15 de março
"Batalha Atrás de Batalha" foi o grande vencedor da noite dos Óscares, este domingo, 15 de março Kevin Winter/Getty Images

Pouca política, um deserto de alusões à atualidade americana ou global, discursos redondos q.b. - mas rápidos e comovidos - de agradecimento, velhos heróis desaparecidos (como Diane Keaton) recordados com emoção e alguns vencedores a destacarem-se. Foi assim a 98.ª cerimónia dos Óscares, que decorreu na noite deste domingo, 15 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles.

Batalha Atrás de Batalha, filme de Paul Thomas Anderson, venceu o Óscar mais desejado - o de Melhor Filme - e Anderson, que ganhou Melhor Realizador, e Michael B. Jordan (Pecadores), Jessie Buckley (Hamnet), Sean Penn (Batalha Atrás de Batalha) e Amy Madigan (Hora do Desaparecimento), enquanto atores, saíram a sorrir de uma noite em que Hollywood celebrou o cinema e se celebrou a si mesma. Ao contrário de Agente Secreto, que saiu de mãos a abanar na cerimónia, dada a vitória de Valor Sentimental, do cineasta norueguês Joachim Trier, como Melhor Filme Internacional e de Michael B. Jordan na categoria Melhor Ator, para a qual estava nomeado Wagner Moura.

As poucas incursões políticas nos discursos

Foi uma edição sem grandes percalços ou surpresas retumbantes. A maior das polémicas talvez tenha surgido de uma falta de comparência: aparentemente sem grande disponibilidade para participar em eventos festivos e celebratórios, Sean Penn não se dignou a deslocar-se ao Dolby Theatre, para subir ao palco e receber o Óscar de Melhor Ator Secundário.

Os momentos mais diretamente políticos surgiram na sequências das vitórias de filmes documentais. Em palco a receber o Óscar de Melhor Curta Documental, atribuído a All The Empty Rooms, filme duro sobre os quartos intocados de crianças que morreram devido à utilização de armas em escolas dos EUA, Joshua Seftel e Conall Jones, os produtores (Seftel é também o realizador), deram a palavra à mãe de uma criança de 9 anos que foi morta num tiroteio escolar em Uvalde, no estado do Texas. “A minha filha Jackie tinha 9 anos quando foi morta em Uvalde. A Jackie é mais do que uma manchete de jornal. É uma luz e é a nossa vida”, ouviu-se.

Já o Óscar de Melhor Documentário, entregue a Mr. Nobody Against Putin, filme sobre a propaganda e o controlo de informação na Rússia de Vladimir Putin durante estes anos de guerra com a Ucrânia, originou apelos pacifistas. David Borenstein, um dos realizadores, apontou: "Quando um Governo assassina pessoas nas ruas das nossas maiores cidades, quando não dizemos nada, quando os oligarcas tomam controlo dos media e de como produzimos e consumimos informação, enfrentamos uma escolha moral." Pavel Talankin, o outro cineasta responsável pelo filme, complementou: "Em nome do nosso futuro, em nome de todas as nossas crianças, parem imediatamente com estas guerras." 

Também o apresentador e humorista Jimmy Kimmel aproveitou os poucos segundos em que esteve em palco a entregar os Óscares de melhores filmes documentais. Numa referência ao condicionamento político recente do programa The Late Show with Stephen Colbert, exibido pela estação CBS, apontou: “Ouvimos muito sobre coragem em eventos como este mas contar uma história que pode fazer com que sejas morto por contá-la é que é verdadeira coragem. Como sabem, há países cujos líderes não apoiam a liberdade de expressão. Não posso dizer quais. Deixemos isso para a Coreia do Norte ou para a CBS.”

Depois, numa alusão ao documentário recente sobre a primeira-dama americana Melania Trump, Kimmel apontou: “Felizmente para nós há uma comunidade internacional de cineastas dedicados a contar a verdade, muitas vezes correndo grandes riscos para fazerem filmes que nos ensinam, denunciam a injustiça, que nos inspiram a agir… e também há documentários sobre passear pela Casa Branca a experimentar sapatos.” Foram pequenos lampejos de comentários interventivos, numa noite pouca dada à espuma destes dias.

Dois favoritos, um grande derrotado a correr por fora

Alguns previam, antes do início da cerimónia que a luta seria a dois, outros arriscavam que seria a três. À partida, Pecadores, filme de terror (e objeto híbrido, que mistura vários géneros) muito particular de Ryan Coogler parecia estar na pole position: filme com coisas a dizer sobre a América, e a história da América, com coisas a dizer sobre o racismo num momento tão particular da história (do mundo, com o crescimento da polarização e da direita radical, e dos EUA, com Trump de volta à Presidência), com críticas positivas e receitas de bilheteira que impressionam, não era só o filme mais nomeado desta edição, passou a ser o filme mais nomeado da história dos prémios.

Batalha Atrás de Batalha, com um elenco sonante liderado por Leonardo DiCaprio, era o rival mais evidente: oportunidade para a Academia coroar finalmente nos Óscares Paul Thomas Anderson, que aos 55 anos é de forma relativamente consensual considerado um dos grandes cineastas da sua geração? Mas também Hamnet não podia ser excluído inteiramente das contas: apesar de ser apenas o sexto filme mais nomeado (atrás de Frankenstein, Marty Supreme e Valor Sentimental), os ingredientes estavam todos lá para surpreender: tema denso, filme emotivo, realizadora mulher (numa altura em que Hollywood tenta redimir-se das suas desigualdades históricas de género) e conceituada que venceu em 2021 Melhor Filme e Melhor Realizador com Nomadland, elenco afamado...

Nos últimos anos, quem vence o Óscar de Melhor Realizador tende a ser o cineasta da película coroada com a estatueta de Melhor Filme. Este ano, voltou a acontecer: Paul Thomas Anderson, que já fora nomeado por 14 vezes aos Óscares sem nunca vencer - com filmes como Boogie Nights - Jogos de Prazer, Magnólia, Haverá Sangue, Vício Intrínseco, Linha Fantasma e Licorice Pizza -  esteve em palco a agradecer o prémio para melhor cineasta, em que concorria com Ryan Coogler (Pecadores), Josh Safdie (Marty Supreme), Joachim Trier (Valor Sentimental) e Chloé Zhao (Hamnet), regressando mais tarde para erguer o prémio cimeiro no final da noite.

Uma noite em cheio para Paul Thomas Anderson e para Batalha Atrás de Batalha, em contraponto com as noites amargas de Hamnet (apenas uma estatueta conquistada) e sobretudo Marty Supreme: nove nomeações, nenhum prémio. 

Um domínio que foi crescendo ao longo da noite

O domínio de Batalha Atrás de Batalha foi-se acentuando, gradualmente, como sinal do que poderia estar para vir ao longo da cerimónia. Só na primeira hora e meia da cerimónia (que durou 2h30), Sean Penn venceu Melhor Ator Secundário, Paul Thomas Anderson ganhou Melhor Argumento Adaptado (o filme parte, de forma muito livre, de um romance de Thomas Pynchon) e a nova categoria de Melhor Casting também caiu no colo da diretora de casting deste thriller político distópico, Cassandra Kulukundis.

Pecadores, por outro lado, começou a noite a ver cinco estatuetas escaparem, antes de ser distinguido com o Óscar de Melhor Argumento Original - que levou um nervoso Ryan Coogler a apresentar-se em palco advertindo que cresceu “em Oakland, na Califórnia, e nós conseguimos falar muito…”. A luta, que já se percebera que não iria ser a três, levava um favorito claro e não era o filme de Ryan Coogler, protagonizado por Michael B. Jordan.

Em palco a agradecer o Óscar de Melhor Argumento Adaptado, Paul Thomas Anderson agradeceu à família e falou sobre a narrativa do filme, uma caricatura distópica que opõe revolucionários desvairados e uma extrema-direita infiltrada no Governo e nas forças de segurança. “Escrevi este filme para os meus filhos, para lhes pedir desculpa pela confusão em que deixámos este mundo”, disse Anderson.

Pecadores viria a ganhar algumas estatuetas  - além de Argumento Original, também Banda Sonora Original, Fotografia e Melhor Ator - mas não tantas como Batalha Atrás de Batalha, seis. 

A noite de Sean Penn (um ausente presente), Michael B. Jordan e Jessie Buckley

Nas categorias de interpretação, a primeira semi-surpresa da noite chegou com a atribuição do Óscar de Melhor Atriz Secundária a Amy Madigan, pelo desempenho no filme de mistério e terror Hora do Desaparecimento, em que interpretou a personagem Gladys. A atriz americana de 75 anos já tinha sido distinguida nesta temporada de prémios, em eventos como o Critics’ Choice Awards e os Actor Awards. Se existia favorita, era ela. Mas com Teyana Taylor (Batalha Atrás de Batalha), Elle Fanning (Valor Sentimental), Wunmi Mosaku (Pecadores) e Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental) como concorrentes, era difícil fazer previsões confiantes.

Seguiu-se, nas distinções de representação, o Óscar de Melhor Ator Secundário. Sean Penn, pela interpretação de Steven J. Lockjaw em Batalha Atrás de Batalha, e Stellan Skarsgaard, o Gustav Borg de Valor Sentimental, eram apontados como os favoritos - com Benicio Del Toro (Batalha Atrás de Batalha), Jacob Elordi (Frankenstein) e Delroy Lindo (Pecadores) a correr por fora. O Óscar viria a ser atribuído a Sean Penn, que já vencera estatuetas por papéis (então como protagonista) em Mystic River e Milk. Mas o ator de 65 anos não esteve no Dolby Theatre, este domingo, e não subiu a palco para receber o galardão.

Quem esteve foi Michael B. Jordan, que venceu a renhida categoria de Melhor Ator - para a qual estavam nomeados Leonardo DiCaprio (Batalha Atrás de Batalha), Wagner Moura (O Agente Secreto), Timothée Chalamet (Marty Supreme) e Ethan Hakwe (Blue Moon). Todos seriam dignos vencedores mas o prémio distinguiu o papel duplo (interpreta dois irmãos gémeos) de Jordan em Pecadores, ele que nunca tinha sido sequer nomeado aos Óscares - mas já tinha protagonizado a trilogia Creed e feito filmes como Black Panther, num percurso de colaboração estreita, ao longo da carreira, com o realizador Ryan Coogler.

Num discurso emocionado, Jordan deixou o seu rol de agradecimentos, desde logo ao realizador e amigo: “Obrigado por me teres dado uma oportunidade e um espaço para me verem. Também te amo, irmão.” Depois, citou os atores negros a quem chamou os seus “antepassados”: Forest Whitaker, Denzel Washington, Sidney Poitier, Will Smith e Jamie Foxx. Numa Academia ainda há poucos anos acossada por movimentos críticos como o #Oscarssowhite (Óscares tão brancos), a vitória de Michael B. Jordan estava pejada de simbolismo. A efusividade na reação da plateia, pelo menos, assim o sugeriu.

Mais expectável era a vitória de Jessie Buckley como Melhor Atriz, pelo desempenho enquanto Agnes Shakespeare - mulher de William Shakespeare - em Hamnet. Favoritíssima ao prémio, Buckley surgiu ainda assim emocionada em palco, a agradecer a estatueta conseguida à sua segunda nomeação (foi indicada ao Óscar de Melhor Atriz Secundária em 2022, com A Filha Perdida). Primeira atriz irlandesa a vencer esta categoria, Buckley agradeceu "a todas as mulheres incríveis que estão ao meu lado", referindo-se às restantes nomeadas: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé), Kate Hudson (Song Sung Blue), Renata Reinsve (Valor Sentimental) e Emma Stone (Bugonia). 

A atriz, que foi mãe há oito meses, dirigiu-se à filha: "Amo-te e adoro ser a tua mãe. Mal posso esperar por descobrir a vida contigo." Acrescentou: "Hoje é Dia da Mãe no Reino Unido. Portanto, gostaria de dedicar isto ao caos extremamente belo que é o coração de uma mãe. Vimos todos de uma linhagem de mulheres que continuaram a criar contra todas as probabilidades. Obrigado por reconhecerem o meu desempenho neste papel. É a honra suprema. Nem consigo acreditar."

Na categoria de Melhor Filme de Animação, não houve também surpresas. Arco, Elio, Little Amelie or the Character of Rain e Zootrópolis 2 estavam nomeados, mas a escolha da Academia recaiu no filme (de longe) mais popular, As Guerreiras do K-Pop, um dos maiores fenómenos da cultura pop em 2025 e que se tornou rapidamente o filme mais visto de sempre da Netflix.

A realizadora da produção da Netflix, Maggie Kang, visivelmente emocionada, sublinhou a importância daquele momento: “Para todas aquelas que se parecem comigo, lamento muito que tenha sido preciso tanto tempo para nos podermos ver em filmes como este. Isto é para a Coreia e para os coreanos em todo o mundo.” O filme conseguiria o bis nos prémios, vencendo o Óscar de Melhor Canção Original com Golden.

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