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Bárbara Ramos Dias e a importância de dizer 'não' às crianças: "Regras devem ser claras"

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No seu mais recente livro, Bárbara Ramos Dias explica aos pais como "dizer não é um ato de amor". A psicóloga falou com a SÁBADO e deixou algumas dicas de como pode estabelcer limites na educação dos seus filhos, começando já por estas férias de verão.

A psicóloga clínica Bárbara Ramos Dias focou toda a sua carreira nas questões relacionadas com os adolescentes e, neste últimos anos, tem feito também muitas consultas de coaching parental. É no seguimento desta experiência que o seu terceiro livro, que chegou este ano às bancas, "Dizer Não é um Ato de Amor", desafia os pais a criarem regras através das quais as suas famílias se mantenham unidas e felizes, sem ter medo de colocar limites. 

A psicóloga Bárbara Ramos
Bárbara Ramos Dias apresenta os seus livros sobre parentalidade e relações
A psicóloga Bárbara Ramos
Bárbara Ramos Dias apresenta os seus livros sobre parentalidade e relações

Devido a terem tido uma infância mais punitiva, os pais têm hoje medo de dizer que não aos filhos?  

Sim, exatamente, há muitos pais que tiveram uma infância muito mais punitiva e agora não querem fazer o mesmo aos seus filhos, não querem que os filhos sofram o mesmo. 

Por isso dizem que sim é tudo e fazem-no por vários motivos. Por culpa: “Se Eu vou estar a dizer que não, ele só ouve não”. Por falta de tempo: “Eu estou tão pouco tempo com os meus filhos, e quando digo que não ele fica tão triste que eu não consigo manter o não. Não consigo vê-lo chorar, não consigo vê-lo sofrer”. E por fim o cansaço, já estão tão cansados, tão cansados, que o que me dizem é: “Bárbara, só para não me chatearem, eu digo que sim, eu sei que é horrível, mas digo que sim”. 

O excesso de informação sobre parentalidade, seja através de livros, podcats ou redes sociais, também pode ajudar a criar pais mais inseguros? 

Muitos pais relatam exatamente isso, há tanta coisa, há tanto livro, o que é que devem seguir? Eu digo sempre: não há receitas mágicas, todos nós somos diferentes. As nossas famílias são todas diferentes, o que é mais importante são os valores da família.

Aqueles valores que não prescindem, por exemplo, para mim são paz, não há discussões, não tenho paciência para discussões; amor, porque para mim, sem amor não fazemos nada; e respeito. Se estes valores estiverem bem, está tudo certo dentro da minha da minha família. Mas se calhar outra pessoa, tem outros valores completamente diferentes. 

Não existem manuais de instrução, nem podem existir, porque nós somos todos pessoas, temos todos pontos de vista diferentes, perceções diferentes, regras, limites, personalidades. No meu segundo livro, onde falo dos diferentes tipos de personalidades, falo também de como é que os pais podem lidar com  os filhos. 

É mais fácil para as crianças começarem a lidar com o não logo desde pequenas, do que depois querer introduzir regras na adolescência? 

É claro que se desde pequenos dissermos que não, toca-se no sítio certo. Em vez de tirarmos os objetos todos da sala e fazer com que a criança não toque neles, é explicar porquê, eles percebem melhor. Outra coisa importante, não estou a defender dizer que não sem explicar o porquê, não é só porque sim. Muitas vezes os miúdos partilham comigo que os pais dizem tantos nãos e eles não fazem ideia do porquê. Quando explico, muitas vezes entendem. 

Por exemplo, voltar à noite da casa de uma amiga a pé, há um 'não' porque é perigoso e podem acontecer uma série de coisas. Se explicarmos essas coisas que podem acontecer eles entendem. Às vezes também temos que ter um bocadinho de tempo, e paciência, para nos dedicarmos a explicar aos miúdos o porquê. 

A disponibilidade dos pais é algo fundamental para esse processo. 

Sim e as regras devem ser muito claras. Temos que saber regular as nossas emoções, isso muitas vezes é o que falta a nós, adultos, para então depois sabermos lidar melhor com os nossos filhos. Se eu estiver frustrada porque o meu filho se portou mal e responder, sem regular as minhas emoções, a gritar com ele, o que ele vai fazer é exatamente o mesmo. Vai gritar ainda mais alto. 

Agora, se eu conseguir controlar-me e regular-me, impondo limites e regras, então eles vão aceitar essas regras e esses limites. O mais importante é ter regras com amor. 

Há muitas pessoas que podem achar que as regras e o amor batem de frente uma com a outra, não são aplicáveis ao mesmo tempo. 

Sim, muitos pais agem como se fossem opostas, mas não. Esta é a forma que lhes temos de ensinar a lidar com a frustração, a regular a raiva, a ansiedade. 

E eles precisam, quanto mais regras firmes têm, mais seguros eles crescem, melhor a sua autoestima e mais são capazes de ser resilientes. Desta forma aprendem desde pequeninos a tentar ultrapassar os desafios. 

Se não colocamos qualquer tipo de regra em casa eles chegam à escola e querem fazer as mesmas coisas, agir da mesma forma, acham que mandam nos amigos e depois o que é que acontece? São colocados de parte.  Depois, quando são mais velhos não sabem lidar com a frustração, temos miúdos no secundário que não sabem lidar com  a frustração, que são os pais que vão ver as cotações dos exames, que são os pais que fazem as inscrições na faculdade.

E depois sentem-se insuficientes perante os outros colegas que sabem fazer as coisas. 

Para ajudar os pais com estas questões criou também o Grupo dos Pais Chats com prazer, qual é que é o objetivo? 

No WhatsApp o grupo existe desde a pandemia, porque eu tinha muitos pais com muitas dúvidas, que não sabiam como lidar com os miúdos. Então criei o grupo, uma forma de ajudar os pais e os professores a lidarem com os miúdos, a terem algumas dicas, agora já somos mais de mil pessoas e não estou a conseguir deixar entrar mais, mas o grupo continua a crescer no Telegram. 

O intuito é a partilha de experiências dos pais – porque nós acabamos por ter todos as mesmas dificuldades e os mesmos desafios - mas também dou alguns workshops gratuitos e acesso a todos os meus artigos. 

Esta altura das férias é ainda mais desafiante? 

Muitas vezes os pais dizem-me 'chego das férias pior do que vou, estava capaz de ir de férias'. O que é que nós podemos fazer para que as férias corram bem? Primeiro que tudo, termos consciência do que cada miúdo precisa. Então, se conseguirmos conhecer bem os nossos filhos, conseguirmos impôr as regras e limites básicos as férias vão correr bem. 

É também muito importante pedir opinião deles porque se planearmos as férias apenas à nossa imagem eles não vão gostar. É adaptar as férias às necessidades de cada um para estarmos em paz e harmonia. Claro que não existe a perfeição. 

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