Quanto vale o céu de Lisboa?

Quanto vale o céu de Lisboa?
Raquel Lito 09 de dezembro de 2019

Os contrutores das Torres das Picoas - para terem a altura pretendida - pagaram 2,7 milhões de euros à câmara. A SÁBADO explica-lhe como são negociados os pisos mais altos na capital.

Subindo ao topo do edifício em reabilitação na Rua Castilho, número 203, há um andaime que desafia as alturas num dos prédios mais altos da colina (40 metros). Vertigens não combinam com a nova Lisboa do imobiliário de luxo, onde o preço por metro quadrado dispara à elevação dos andares e bate o recorde de €25.000. Muitos degraus e 13 pisos depois (os elevadores ainda não estão instalados) chega-se àquela estrutura metálica, que delimita o rooftop do apartamento mais caro da capital: 7 milhões e 350 mil euros. É quanto vale a penthouse T3 de 288 m2, que entrou para o mercado em junho passado e foi vendida no mês seguinte. A fração mais barata cai para um quinto daquele valor (1 milhão e 360 mil euros, também já vendida), porque não tem a panorâmica de 360º. Só a partir do oitavo piso ganha tal escala.

Historicamente, os últimos andares "não eram preferência dos portugueses porque não havia prédios muito altos", recorda à SÁBADO Francisco Quintela, sócio e fundador da imobiliária com o mesmo apelido. No Estado Novo, houve tentativas de tocar o céu (recorde-se em 1955 as torres do Areeiro de 51 metros); até ao boom dos anos 70 com o Hotel Sheraton (1972, 91 metros) e as Amoreiras (1987, 75 metros). Na viragem do milénio, reforçou-se a lógica com as torres de São Rafael e São Gabriel (110 metros, à noite iluminadas nos pináculos para sinalizarem os aviões no corredor aéreo).

A partir de 2013, para aumentar a construção em altura em zonas estratégicas da capital, foi aprovado um novo regulamento do Plano Diretor Municipal de Lisboa. Esse sistema prevê a criação de um mecanismo de atribuição de metros quadrados de construção em troca de operações de reabilitação urbana nas áreas circundantes, como a criação de espaços verdes, eficiência energética da iluminação pública, etc. Caso as empresas os cumpram, esses créditos podem refletir-se em mais metros de altura.

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