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Como a IA pode alterar definitivamente a relação entre consumidores e empresas

Diogo Barreto 29 de março de 2026 às 08:00

O papel da IA na personalização do marketing vai influenciar as escolhas dos clientes diretamente. É um admirável mundo novo com tantas oportunidades como risco.

A Inteligência Artificial (IA) entrou pela nossa vida adentro a uma velocidade estonteante. Encontramo-la um pouco em todo o lado e claro que se tornou um aliado importante das empresas. Através da IA é possível ajustar a gestão de stocks, calcular impactos de promoções, prever tendências e até direcionar campanhas e produtos personalizados a clientes. Teresa Bianchi de Aguiar, partner na LTPlabs e especialista em retalho, explica à SÁBADO como o mundo do marketing foi altamente influenciado pela IA.

Homem usa IA para lidar com desgosto amoroso após traição Getty Imagens

Uma das formas que as marcas vão poder beneficiar da IA é a facilidade com que conseguirão criar em segundos marketing personalizado para os clientes, tornando a campanha mais apetecível consoante a informação que tem sobre determinado consumidor. "Quando falamos de marketing personalizado, referimo-nos à capacidade de um retalhista identificar afinidades entre clientes e produtos e maximizar essa correspondência. Inclui também a personalização da comunicação — adaptar discurso, canal e momento ao perfil de cada cliente" e conseguir assim criar um sistema de "valor partilhado entre clientes, retalhistas e produtores" que beneficia todos. 

Teresa Bianchi de Aguiar destaca que os clientes recebem menos campanhas que não lhes interessam e mais direcionadas, encontrando mais facilmente produtos alinhados com as suas necessidades e vontades "reais". Para o retalhista, significa maior engagement, fidelização, aumento de vendas e utilização mais eficiente do investimento promocional. E se o cliente tiver promoções personalizadas, aumenta ainda mais a sua perceção de que está a beneficiar. 

O aumento do consumo...

Com marketing mais eficaz claro que as marcas esperam aumentar as vendas e até influenciar a compulsão do possível cliente. E os estudos apontam que um aumento do consumo está estruturalmente ligado ao aumento da poluição.

Teresa Bianchi de Aguiar reconhece que "um dos objetivos do marketing é promover a venda — isso é estrutural". Mas acrescenta que o risco de compulsão na compra não nasce da tecnologia em si, mas da forma como a mesma é utilizada. "Um modelo bem desenhado procura relevância e eficiência, não pressão excessiva. Aliás, uma comunicação mais personalizada pode até reduzir a sensação de bombardeamento publicitário, porque substitui volume por pertinência. A linha é ténue — e é aqui que entram ética, regulação e cultura organizacional", diz a especialista em retalho. 

...e a sustentabilidade

Teresa Bianchi de Aguiar defende que a utilização de IA permite ajudar a reduzir o desperdício ao longo de toda a cadeia de valor, quer seja através de uma melhor previsão de procura, melhor gestão de stocks e abastecimento das lojas ou através do desenvolvimento de uma estratégia de baixa de preço inteligente para produtos em risco de fim de vida.

Os produtores e retalhistas podem ainda usar ferramentas de IA para promoverem os seus produtos em fim de vida com desconto junto de clientes com maior propensão de compra de produtos em risco e com um preço reduzido.

A especialista em retalho dá um exemplo do que foi feito nas lojas Continente para combater o desperdício alimentar: "O desafio não era apenas descontar produto próximo do fim de validade — isso já acontecia — mas fazê-lo de forma mais inteligente: definir quando aplicar desconto, qual o nível ideal de desconto por loja e por produto, maximizando a probabilidade de venda e minimizando a perda de margem. Com recurso a modelos de IA, foi possível apoiar essa decisão de forma estruturada e baseada em dados, reduzindo desperdício e tornando o processo mais sustentável".

A proteção do consumidor

Há ainda o papel que o cliente consumidor pode assumir, defendendo-se da IA. "A IA é baseada em dados — e hoje esse poder também está do lado do consumidor. Temos acesso a comparadores de preço, histórico de compras, alertas de orçamento e aplicações que ajudam a tomar decisões mais informadas", começa por referir a partner da LTPlabs, lembrando a necessidade de aumentar a literacia do consumidor de forma a fazer escolhas mais informadas. 

É também importante lembrar que com o tratamento de dados pessoais através de IA surge o risco de aumento do nível de vigilância digital baseado nos hábitos dos consumidores. A especialista reconhece o risco e aponta que é aí que a regulação e a ética devem entrar. 

"Quanto maior a transparência e o conhecimento, maior o equilíbrio na relação", conclui.

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