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Netflix compra empresa de IA ligada a Ben Affleck e acelera mudança em Hollywood

Aquisição da InterPositive, anunciada no início de março, reforça aposta na Inteligência Artificial como ferramenta criativa e não apenas ameaça à indústria.

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Edição de 17 a 23 de março
Netflix compra empresa de IA ligada a Ben Affleck e acelera mudança em Hollywood
Tiago Neto 24 de março de 2026 às 12:44
O ator e realizador fundou a InterPositive em 2022
O ator e realizador fundou a InterPositive em 2022 D.R.

A Netflix anunciou, este mês, a aquisição da InterPositive, empresa de tecnologia ligada à inteligência artificial fundada pelo ator Ben Affleck. Mais do que uma aposta experimental, trata-se de uma integração direta de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no ecossistema de produção de um dos maiores estúdios do mundo.

Fundada em 2022, discretamente e longe do escrutínio mediático, a InterPositive é uma empresa de produção ligada ao desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial aplicadas ao cinema. Mais do que gerar imagens ou substituir criadores, a empresa focou-se sobretudo na pós-produção e otimização técnica, criando software capaz de trabalhar sobre imagens já filmadas: corrigir iluminação, reconstruir planos incompletos, ajustar enquadramentos ou remover elementos indesejados são algumas das funções.

A ambição, segundo o próprio Affleck, era “retirar os obstáculos logísticos e técnicos” do processo de filmagem, mantendo intacta a intenção artística, uma abordagem que distingue a InterPositive dos modelos generativos mais controversos e que acabou por tornar a empresa apelativa para a Netflix, que agora integra a equipa de 16 pessoas – incluindo engenheiros, investigadores e criativos –  e a tecnologia no seu ecossistema de produção.

A aquisição, cujo valor não foi divulgado, surge num momento em que os grandes estúdios procuram reduzir custos e aumentar eficiência, num contexto pós-greves marcado por maior escrutínio sobre orçamentos e tempos de produção. Ao incorporar este tipo de tecnologia, a Netflix posiciona-se como distribuidora e como agente ativo na redefinição dos métodos de criação audiovisual.

Se, durante os últimos anos, a inteligência artificial foi discutida sobretudo como ameaça – nomeadamente no que toca à substituição de profissionais criativos –, o discurso dominante começa agora a deslocar-se. A operação liderada pela Netflix sugere uma normalização da IA como ferramenta integrada no processo criativo, à semelhança do que aconteceu, noutras décadas, com o CGI (efeitos especiais computadorizados) ou a edição digital. A diferença está na escala e na velocidade; nunca uma tecnologia com este potencial de automação foi adotada de forma tão rápida por um grande estúdio.

A ligação de Ben Affleck ao projeto – ele próprio realizador e produtor – reforça a ideia de que esta transição não está a acontecer apenas ao nível corporativo, mas também com o envolvimento de criadores estabelecidos. Não se trata apenas de tecnologia imposta de cima para baixo, mas de um movimento que procura legitimação dentro da própria comunidade artística, ainda que essa aceitação esteja longe de ser consensual. Para já, o impacto concreto desta aquisição nos conteúdos produzidos pela Netflix permanece em aberto. 

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