Curiosidades dos Mundiais de futebol (5): Os "não-golos" de Pelé e a mala cheia de notas
O Mundial 1970 teve o génio de Pelé, as primeiras substituições, a estreia dos cartões e os golos de Jairzinho. Já 1974 trouxe a Laranja Mecânica e a classe de Cruijff, as peripécias do Zaire, a façanha do Haiti e dólares suspeitos.
O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 1970 e 1974.
Mundial 1970
País organizador: México
Vencedor: Brasil
1. O Brasil foi campeão pela terceira vez (depois de 1958 e 1962), o que lhe permitiu ficar permanentemente com a Taça Jules Rimet. Curiosamente, em 1983 ela seria roubada da sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro, e nunca mais foi recuperada.
2. Este Mundial ficou marcado pelos famosos “não-golos” de Pelé, lances geniais que acabaram por não terminar em golo. Foi o caso da cabeçada defendida pelo guarda-redes inglês Gordon Banks, que ficou conhecida como a “Defesa do Século”. Ou ainda da tentativa de chapéu, desde o meio-campo, ao guardião da Checoslováquia, com a bola a passar muito perto da trave – e que os brasileiros chamam “O Gol que Pelé Não Fez”.
3. Havia seis países candidatos a organizar o Mundial 1970 (Argentina, Austrália, Colômbia, Japão, México e Peru). O México foi escolhido seis anos antes (durante os Jogos Olímpicos de Tóquio), tendo pesado na decisão o facto de os Jogos Olímpicos de 1968 se disputarem na Cidade do México – ou seja, já teria infra-estruturas criadas.
4. Foi a primeira vez que os jogos deram na televisão a cores. Mas nem tudo foi consensual: para que os jogos passassem na Europa a horas “decentes” – isto é, sem ser de madrugada –, muitos começaram ao meio-dia, o que gerou a revolta de jogadores e treinadores, devido ao grande calor que se fazia sentir no México.
5. Pela primeira vez, foi possível fazer substituições num Mundial – duas por jogo. O primeiro jogador a ser substituído foi Viktor Serebryanikov (URSS), que deu o seu lugar a Anatoly Puzach ao intervalo. Essa troca aconteceu no jogo de abertura, entre México e União Soviética.
6. Foi também a primeira vez que se usaram os cartões amarelos e vermelhos em Mundiais. Logo nesse jogo de abertura o árbitro admoestou cinco jogadores com o amarelo – em todo o torneio, foram 44 amarelos. No entanto, nenhum jogador viu o cartão vermelho no Mundial do México.
7. A meia-final entre Itália e Alemanha Ocidental ficou conhecida como “Jogo do Século”. Os italianos estiveram a vencer (1-0) mesmo até ao fim, mas aos 90 minutos Schnellinger empatou e levou o jogo para prolongamento. E aí houve uma constante alternância no marcador, tendo terminado com 4-3 para a Itália. Com 5 golos nesses 30 minutos adicionais, este foi o prolongamento da história dos Mundiais com mais golos.
8. Nesse Itália-Alemanha Ocidental, Franz Beckenbauer jogou a parte final do jogo com uma clavícula partida. Como o treinador, Helmut Schon, já tinha feito as duas substituições permitidas, ele aguentou até ao fim com o braço ligado.
9. O brasileiro Mário Zagallo foi o primeiro futebolista da história a tornar-se campeão mundial como jogador (em 1958 e 1962) e treinador. E Pelé despediu-se de Mundiais como o único (até agora) a vencer por três vezes.
10. Jairzinho não foi o melhor marcador (o título foi para o alemão Gerd Muller, com 10), mas os seus sete golos permitiram-lhe ficar na história dos Mundiais como o único, até hoje, que marcou pela sua seleção em todos os jogos de um Mundial – foram seis os jogos do Brasil (ele fez dois golos contra a Checoslováquia, e nas outras cinco partidas marcou um em cada).
Mundial 1974
País organizador: RFA
Vencedor: RFA
1. A seleção da Alemanha Ocidental venceu o Mundial, mas a grande sensação da prova foi a Holanda, treinada por Rinus Michels – com o seu sistema de carrossel (com um sistema tático onde os jogadores não tinham posição fixa) revolucionou o futebol, ficando conhecida como “Laranja Mecânica”.
2. O holandês Cruijff foi eleito o melhor jogador do torneio, uma decisão alicerçada nos dados da Opta Sports, que avançam que ele foi o jogador com mais dribles conseguidos (34), com mais oportunidades criadas (36) e com mais passes certos no último terço do campo (136). E Cruijff também criou 5.1 oportunidades de golo por jogo, o recorde dos Mundiais (pelo menos desde 1966, quando começaram a ser coletados estes dados).
3. A Alemanha Ocidental venceu o Mundial, ao bater na final a Holanda, o que permitiu a cinco jogadores alemães tornarem-se os primeiros a conseguirem em Mundiais as medalhas de ouro, prata e bronze, depois do 2º lugar em 1966 e o 3º em 1970. Foram eles Beckenbauer, Sepp Maier, Wolfgang Overtah, Jurgen Graboeski e Horst-Dieter Hottges.
4. O Zaire (atual República Democrática do Congo, que vai defrontar Portugal no Mundial 2026), tornou-se a primeira equipa da África subsariana a participar num Mundial. Por essa façanha, os jogadores receberam do governo uma casa e um carro. No entanto, devido à péssima campanha no Mundial (três derrotas, sendo 9-0 com a Jugoslávia), os prémios foram-lhes confiscados.
5. No jogo entre o Zaire e a Jugoslávia, o guarda-redes africano Kazadi Mwamba pediu para ser substituído logo aos 20 minutos, por ainda nunca ter tocado na bola (o jogo estava em 2-0 para os jugoslavos). Entrou Tubilandi Ndimbi, que logo de seguida agarrou a bola – mas para a ir buscar ao fundo da baliza. A seleção africana perdeu 9-0, um dos resultados mais desnivelados em Mundiais.
6. Ainda em relação à seleção do Zaire, há um episódio caricato na partida contra o Brasil. Rivelino estava a preparar-se para marcar um livre quando o defesa Ilunga Mwepu saiu da barreira e atirou a bola para longe. Na altura falou-se que o jogador desconhecia a regra, mas ele revelou que queria ser expulso pelo árbitro (levou apenas amarelo) como forma de protestar contra o governo, que ainda não tinha pago aos jogadores.
7. O Haiti, apesar de ter perdido os três jogos na fase de grupos, cometeu uma façanha, pois quebrou a invencibilidade da defesa da Itália, que não sofria golos há quase dois anos, num recorde que ia em 1142 minutos. O autor da proeza foi Emmanuel Sanon, na derrota por 3-1 frente aos transalpinos.
8. Foi a única vez que as duas Alemanhas (Ocidental e Oriental) se defrontaram num Mundial. A Alemanha Ocidental perdeu por 1-0, num resultado que muitos viram como conveniente para a seleção germânica ocidental, pois assim evitava ficar no grupo de Brasil e Holanda na segunda fase.
9. Foi a primeira vez que o cartão vermelho foi exibido num Mundial. A primeira vítima foi o chileno Carlos Caszely, expulso aos 77 minutos do jogo com a Alemanha Ocidental (derrota por 1-0). Caszely, que era opositor assumido do ditador chileno Augusto Pinochet, foi depois proibido de jogar no seu país, usando-se a expulsão como argumento – jogaria em vários clubes em Espanha.
10. A Itália não se conseguiu apurar para a fase seguinte, ao perder o jogo decisivo frente à Polónia, por 2-1. O empate bastava a polacos e a italianos (ficariam à frente da Argentina), mas ao intervalo a Polónia já ganhava 2-0 e, segundo afirmou mais tarde o polaco Wladyslaw Zmuda, quando a equipa entrou no túnel de acesso ao balneário apareceu-lhes um indivíduo engravatado com uma mala cheia de dinheiro, “maços de notas de dólares”, afirmando que o receberiam se permitissem o empate. “Eu não queria acreditar naquilo. Um dos nossos funcionários começou a discutir com ele e mandaram os jogadores entrar no balneário”, contou.
11. Este foi um Mundial onde o vice-campeão teve um prémio maior do que o campeão. Com efeito, cada jogador da RFA recebeu, como recompensa por se ter sagrado campeão do mundo, 50 mil dólares e um carro novo (um Wolkswagen carocha). Já cada jogador da Holanda foi presenteado com 100 mil dólares.