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Tudo o que se sabe sobre o Grupo 1143, célula nazi alvo da PJ

Foram detidas 37 pessoas na operação que visava membros de grupos extremistas, a maior parte deles são membros do Grupo 1143.

Esta terça-feira foi noticiado que a Polícia Judiciária cumpriu mais de 50  contra membros do grupo ultranacionalista 1143, liderado por Mário Machado, o neonazi a cumprir pena de prisão.  

Mário Machado
Mário Machado Medilivre

Segundo o comunicado da PJ, a operação tinha “a finalidade de desmantelar uma organização criminosa responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaças e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas” e que desta operação resulta 37 detidos “com vastos antecedentes criminais e com ligações a grupos de ódio internacionais”. 

"Os detidos, com idades compreendidas entre os 30 e os 54 anos, adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes", diz a PJ que explica que “"os visados são suspeitos de terem fundado uma organização criminosa com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à descriminação, ao ódio e à violência racial, tudo isto no seio de uma estrutura hierárquica e fortemente estabelecida, com distribuição de funções”. 

O inquérito investiga crimes como a associação criminosa, ofensas à integridade física e de incitamento ao ódio e à violência, enquadrados no artigo 240 do Código de Processo Penal que determina pena de prisão a quem incite à violência, difame, injurie ou ameace pessoas ou grupos por motivos de raça, cor, origem étnica, nacionalidade, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência.  

1O que é o Grupo 1143?

O Grupo 1143 é uma organização ultranacionalista que defende e divulga propaganda nazi. Desde 2020, sob a liderança de Mário Machado, o grupo promoveu várias ações de cariz discriminatório e de incitamento ao ódio contra imigrantes. Exemplo disso foi a manifestação marcada para o 25 de Abril do ano passado, durante a qual Mário Machado e alguns dos outros presentes se envolveram em confrontos com manifestantes, que acabou com várias identificações e detenções. 

O grupo surgiu no final da década 1990 associado às claques do Sporting Clube de Portugal, em particular a setores da Juventude Leonina, mas só começa a ser mais popular na década de 2010, crescendo especialmente no espaça digital. 

O grande crescimento começou em 2020, quando começaram a utilizar as redes sociais para divulgar conteúdos políticos sobre temas como imigração, identidade nacional e oposição a partidos de esquerda. Ao mesmo tempo os seus membros começaram a organizar-se para participarem de forma mais regular em ações de rua, concentrações e manifestações.  

Entre 2023 e 2024 foi noticiada a existência de uma organização informal através de núcleos regionais, coordenada nas plataformas digitais.   

2O grupo tem ligações partidárias?

Apesar de não existir uma ligação clara do Grupo 1143 com nenhum do partido já foram várias vezes noticiadas aproximações ao Chega ou até publicações dos próprios membros do grupo em apoio ao partido ou ao próprio André Ventura. 

Em setembro de 2024 a noticiou que Mário Machado e outros membros do grupo estiveram à paisana numa manifestação contra a “imigração descontrolada” organizada pelo Chega. Nessa altura os membros organizaram-se de forma a estarem presentes e foram partilhados conselhos como “não levar roupa alusiva ao grupo, inscrever-se no Portal do Chega como militantes ou simpatizantes para ir num dos autocarros do partido, ou arranjar um ponto de encontro para todos os membros do grupo irem juntos”.  

3Quem é Mário Machado?

Mário Machado já foi condenado por crimes violentos e encontra-se, desde maio de 2024, a cumprir uma pena de prisão efetiva por incitamento ao ódio e à violência.  

O líder do Grupo 1143 fez publicações nas redes sociais nas quais apelava à “prostituição forçada” das mulheres dos partidos de esquerda, visando em particular a professora e dirigente do Movimento Alternativa Socialista (MAS), Renata Cambra.  

Antes de ser líder do Grupo 1143, Mário Machado pertencia aos hammerskins, a fação mais violenta dos skinheads, e chegou mesmo a liderar a fação em Portugal. 

O cadastro de Mário Machado tem um historial com mais de três décadas por crimes de violência, discriminação ou posse de armas. A sua condenação mais relevante ocorreu na sequência da violenta noite de 10 de junho de 1995, que acabou com a morte de Alcindo Monteiro. Nessa noite um grupo de homens ligados aos skinheads agrediu várias pessoas negras em Lisboa e Alcindo Monteiro, português de origem cabo-verdiana, morreu dois dias depois devido ao espancamento. No seguimento, Machado foi condenado a quatro anos e três meses por ofensas à integridade física agravada praticadas contra as várias vítimas daquela noite.  

Em 2007 foi condenado por detenção de arma proibida, com pena suspensa, em 2009 foi condenado a sete anos e dois meses de prisão por crimes de sequestro, roubo e coação e em 2010 foi condenado a pena de prisão efetiva por difamação agravada, num processo relacionado com declarações que dirigiu a uma magistrada do Ministério Público. Já em 2012, o Tribunal Criminal de Loures procedeu a um cúmulo jurídico das penas aplicadas em diferentes processos, fixando uma pena única de dez anos de prisão. 

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