Quentin Deranque, de 23 anos, sofreu um grave traumatismo craniano depois de ser atacado à margem de um protesto de extrema-direita contra um evento que contava com a presença da eurodeputada Rima Hassan, em Lyon.
As autoridades francesas detiveram onze suspeitos pelo assassinato de um ativista de extrema-direita, avançou o procurador de Lyon na terça-feira. Thierry Dran recusou-se a confirmar qualquer envolvimento de partidos e movimentos de esquerda no ataque.
Quentin Deranque foi agredido numa rua em Lyon e acabou por não resistirX
Em causa está o assassinato, na passada quinta-feira, de Quentin Deranque, de 23 anos. O ativista morreu após sofrer um grave traumatismo craniano depois de ser atacado por pelo menos seis pessoas à margem de um protesto de extrema-direita contra um evento sobre a Palestina, no qual a eurodeputada de esquerda radical Rima Hassan se encontrava a discursar.
O que se sabe?
Segundo o grupo Némésis, responsável por organizar o protesto, “cerca de quinze outros”, além de Deranque, estavam a garantir a segurança da manifestação organizada no exterior da conferência quando começaram a ser perseguidos por uma multidão de “militantes antifascistas”.
No seguimento, segundo a procuradoria de Lyon, Quentin e outras duas pessoas “foram atiradas para o chão e espancadas repetidamente. Um vídeo exibido pela emissora TF1 mostra uma dúzia de pessoas a agredir outras três que se encontravam caídas no chão. Duas destas três conseguiram escapar, a outra era Quentin Deranque.
Quentim Deranque tinha 23 anos, era originário de Saint-Cyrsur-le-Rhônes e encontrava-se a estudar Ciência de Dados na Universidade Lyon-II. Frequentava regularmente a igreja de Saint-Georges em Lyon, onde a comunidade é bastante tradicional e a missa é celebrada em latim. Antes de se mudar para a cidade era um membro bastante ativo da paróquia de Notre-Dame-de-l'Isle, na cidade vizinha de Vienne.
O Le Monde cita fontes próximas da vitima que o caracterizam como “paroquiano apaixonado por filosofia e ética com uma convicção de um missionário”. Deranque participou em conferências organizadas pela 'Academia Christiana' em Lyon, que se apresenta como uma escola de fé, mas defende a deportação forçada de migrantes e treino para o combate físico. A lista de leituras recomendadas pela organização inclui vários autores antissemitas. Em 2023, Gérald Darmanin, então ministro da Administração Interna, prometeu dissolver a academia, mas o plano não se concretizou e desde então a 'Academia Christiana' espalhou-se por diversas comunidades em todo o país.
Foi também descrito como um estudante empenhado, calmo e trabalhador, comprometido em ajudar os mais pobres. As pessoas de quem era mais próximo referiram que não suspeitavam que se tratasse de um radical. No entanto, vários grupos de extrema-direita têm prestado homenagem a Deranque, considerando-o um “camarada”.
Na Rádio Courtoisie, ligada aos grupos de extrema-direita, o seu amigo Vincent elogiou-lhe as “virtudes morais e espirituais”: “Era um jovem normal que se tinha reconectado com as suas raízes. Amava o seu país, povo, civilização e religião. Quentin é um herói e um mártir”.
Deranque era membro do Némésis, mas também ativista do movimento nacionalista revolucionário, fação que neste momento domina o cenário da ultradireita em Lyon – fontes oficiais acreditam que o grupo possui entre 400 e 500 membros. O movimento nacionalista revolucionário concentra-se na defesa da “civilização europeia” contra o Islão e em reverter a “grande substituição”.
O site de jornalismo de investigação Mediapart avançou que Deranque era também membro do Allobroges, grupo informal de extrema-direita que marcou presença na marcha anual neofascista do ano passado. O jornal Le Figaro refere que Deranque marcou presença nessa marcha com o rosto coberto por uma gola alta e óculos escuros, como a grande maioria dos presentes.
Existiram ainda vários outros grupos que referiram que Quentin Deranque também esteve nas suas fileiras, é o caso da organização monárquica Action Français ou o Audace Lyon.
Quem está entre os detidos?
A identidade das onze pessoas detidas ainda não é conhecida, apesar de se saber que se identificavam como manifestantes antifascismo. Ainda assim, sabe-se que um assessor de Raphaël Arnault, deputado La France Insoumise – França Insubmissa, em português -, se encontra entre os detidos. Arnault já garantiu que Jacques-Elie Favrot foi demitido: “Ontem, antes de tomarmos conhecimento da sua prisão, iniciámos os procedimentos junto dos serviços da assembleia para rescindir o seu contrato. Agora cabe à investigação apurar as responsabilidades”, escreveu no X.
Comme indiqué par un communiqué de son avocat, mon collaborateur Jacques-Elie Favrot a cessé toutes ses activités parlementaires.
Dès hier avant d’apprendre son interpellation ce soir, nous avons engagé auprès des services de l’Assemblée les procédures pour mettre fin à son ??
Na segunda-feira a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, afirmou que o assessor tinha sido banido depois de o seu nome ter sido mencionado por testemunhas.
Quem são os grupos envolvidos?
O coletivo anti-imigração Némésis, que afirma combater a violência contra mulheres ocidentais, avançou que Deranque estava no protesto em Lyon para proteger os membros da organização e atribuiu o assassinato à Jeune Garde, um grupo juvenil antifascista cofundado por Arnault, em 2018, antes de ser eleito para o parlamento.
O coletivo, que foi dissolvido em junho do ano passado, negou qualquer ligação com os “eventos trágicos”, enquanto Arnault classificou o assassinato como "horrível".
Jean-Luc Mélenchon, líder do França Insubmissa, considerou que os responsáveis pelo ataque “desonraram” a luta contra o fascismo pela intenção letal e negou qualquer envolvimento do partido: “Quando se trata de violência, seja defensiva ou ofensiva... nem todos os golpes são aceitáveis”.
Já Marine Le Pen, candidata presidencial apoiada pela extrema-direita condenou os “bárbaros responsáveis por este linchamento” e o líder do Reagrupamento Nacional defendeu que Mélenchon tinha “responsabilidade moral e política” pelo ocorrido alegando que o líder partidário tinha “aberto as portas da Assembleia Nacional aos suspeitos de assassinato”.
Em Portugal André Ventura também se pronunciou sobre o sucedido: "Um jovem de 23 anos foi barbaramente assassinado por militantes ligados à extrema-esquerda parlamentar. Alguém duvida que, se os criminosos fossem de direita ou a vítima pertencesse a alguma minoria étnica, estava nas notícias de todo o mundo a passar de 15 em 15 minutos?", questionou o líder do Chega nas redes sociais.
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