Primeira pessoa: "A vida assusta-me, a morte não"

Primeira pessoa: 'A vida assusta-me, a morte não'
Lucília Galha 03 de março de 2020

Ana (nome fictício), 74 anos, é saudável. Mas, se adoecer, não quer ficar a definhar. Prefere morrer. Já está a preparar o seu plano de morte: quer que seja rápido e seguro. E partir tranquilamente.

Sei o que se passa quando uma pessoa está incapaz. Se puder, não quero viver assim, isso não é para mim. Não quero viver essa etapa. Não é a morte que me assusta, o que me assusta é a vida. E isto é uma coisa que eu disse desde muito cedo: a vida assusta-me, a morte não. Como é que eles dizem em inglês? I’m ready and willing. Ainda não sei como vai ser, mas procuro um método seguro e rápido. O que quero é partir tranquilamente. Faz parte de mim ver a morte dessa forma tranquila e, agora que estou na velhice, isso está mais próximo de acontecer.

A degradação já está aqui, eu já a sinto e começo a ter umas queixas desagradáveis, coisas menores. Como agora existe a Internet, tenho como procurar uma solução. Em agosto de 2019 inscrevi-me na Exit Internacional [uma organização que defende a legalização da eutanásia voluntário e do suicídio assistido] porque quero ter ferramentas para decidir. Eles não nos disponibilizam os meios, só nos dizem como o podemos fazer de forma segura. Paguei mil dólares australianos [cerca de 600 euros] para me tornar membro vitalício da associação e ter acesso a um livro online, que está sempre a ser atualizado. Deve ter umas 80 páginas com os métodos que eles consideram seguros para as pessoas provocarem a sua morte. Coisas que se tomam, que se põem na cabeça… É-nos dado um código para ter acesso a esse livro. Confesso que até para mim há ali um toque de tenebroso, talvez…   

Eu não estou obcecada e, enquanto não estiver doente, a minha vida está ok. Não tenho razão para ter pressa. Há dois motivos pelos quais este plano de morte não é para agora: a primeira é que ainda não estou preparada; a segunda, ainda sou útil. Isso é o que me dá consolo, além da música e da literatura. É o poder desencravar alguma coisa, minimizar um obstáculo, ajudar os outros a viver. É pouquinho, mas estou sempre envolvida. Envolvo-me e levo a vida muito a sério. É um problema. A começar pelas coisas mais pequenas como, por exemplo, ajudar alguém perdido no elétrico. Não quero louros, faço-o anonimamente, mas estou sempre nisto. Se puder fazer alguma coisa, intervenho.

No ano passado, disponibilizei-me a ajudar a filha de um casal paquistanês na escola. Ensinei-lhe cinco disciplinas, era eu que ia às reuniões de pais, porque eles não falam bem português, fazia a comunicação com o diretor de turma, estava com ela diariamente. No fim do ano letivo, ela passou, só com uma negativa a Português. Um orgulho! Mas é no lar que visito que aprendo bem o que se passa quando uma pessoa está incapaz. Vou lá uma vez por semana visitar três pessoas, voluntariamente. Diria que a hora H é a toda a hora para eles, há sempre qualquer coisa que lhes posso dar. A sopa está fria? Vou aquecer. Estou lá uma tarde inteira e é isso que me faz perceber o que sentem e o que precisam mas não têm. Tenho tempo para ver.

O lado "infernal" da vida
Tenho uma vida boa, não tenho problemas de saúde, nem de família, o que considero uma vantagem. Ninguém me incomoda. Tenho 74 anos, sou divorciada e não tenho filhos. Era filha única e sobrinha única, tudo único. Quando terminei o liceu, quis logo sair de casa, estava muito atabafada. O meu pai era daquela geração, eu nasci nos anos 40, controladora, rígida e muito reguladora. Eles adoravam-me, faziam tudo o que podiam e sabiam, mas havia uma dimensão que me faltava: era o relacionamento próximo de ideias, de discussão, de opiniões. Sabia que eles me queriam bem, mas nunca me senti apegada.

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