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Passageira do MV Hondius recorda surto de hantavírus: "Ao terceiro morto percebemos que era grave"

Espanhola, de 75 anos, pagou 12 mil euros pela viagem de sonho... que acabaria por se tornar num pesadelo.

Elisabet Jané esteve 28 dias em quarentena num hospital de Madrid depois de deixar o MV Hondius, o navio de cruzeiro com 147 passageiros afetado por um surto de hantavírus em abril e maio deste ano. A mulher de 75 anos, formada em Medicina, contou ao El País como foram os 40 dias que esteve a bordo e as quatro semanas que teve de passar em quarentena, depois de uma crise sanitária amplamente mediatizada, que causou três mortos e 13 infeções e que só terminou com a .

Os passageiros deixaram o MV Hondius nas Canárias
Desembarque foi feito com fortes medidas de segurança
Os passageiros deixaram o MV Hondius nas Canárias
Desembarque foi feito com fortes medidas de segurança

A espanhola, reformada depois de uma longa carreira em consultoria internacional, reservou a viagem com 18 meses de antecedência juntamente com uma amiga, na perspetiva de passar o seu aniversário no oceano Atlântico a fotografar aves endémicas e a visitar ilhas remotas. Embarcaram em Ushuaia, no sul da Argentina, a 1 de abril para 5 semanas de sonho... que acabaram por se tornar num pesadelo.

Apesar de ter desembolsado 12 mil euros pela viagem, Elisabet Jané rejeita a ideia de que se trataria de um cruzeiro de luxo. "Havia camarotes com quatro pessoas, sem janelas, com passageiros que não se conheciam. A viagem nestes camarotes custava 7 ou 8 mil euros. As cabinas mais caras podiam ir até ao 20 mil", refere a passageira, contando que o navio era "muito funcional e confortável".

Uma semana depois da partida a primeira pessoa que viria a morrer começava a desenvolver sintomas, mas poucos sabiam. "Tínhamos chegado à  Geórgia do Sul, desembarcámos em botes e fizemos o passeio, havia praias cheias de focas, colónias de pinguins, neve... A tripulação e as pessoas mais próximas sabiam, mas eu só tomei conhecimento depois de ele morrer [a 11 de abril]."

O capitão informou que a vítima mortal - um cidadão holandês - não tinha qualquer tipo de infeção contagiosa. "Fiquei chocada ao perceber que em alto mar não é raro alguém morrer, especialmente se os passageiros forem idosos", constatou a mulher, que se especializou em Pneumologia, apesar de não ter exercido Medicina. Nestes casos, o corpo é transportado até ao próximo porto, onde é desembarcado, mas isso não aconteceu em Tritão da Cunha por ser "o local habitado mais remoto do planeta".

O corpo do homem só sairia do barco em Santa Helena, a 23 de abril, onde 30 passageiros terminaram a sua viagem. A mulher do cidadão holandês morto - que acabaria também por falecer - seguiu de avião desta ilha para a África do Sul. "Na Geórgia do Sul ela continuou a participar nas atividades, mas em Santa Helena precisaram de a ajudar a entrar no autocarro. Pensámos que era da dor..."

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Até que outro passageiro, um cidadão britânico, teve de ser evacuado. "Ele parecia ter dificuldades para respirar, mas pensámos que talvez não estivesse descansando bem, que tivesse apneia do sono... Foi evacuado no dia 27, na Ilha da Assunção."

No dia seguinte um cidadão alemão começou a sentir-se mal, mas não houve pânico a bordo. "A grande maioria dos passageiros era anglo-saxónica e escandinava. E a maneira como interagem e reagem a essas situações é diferente da que encontraríamos no sul da Europa. O ambiente é muito respeitoso e educado, mas um tanto distante e frio. A reação às notícias que surgem é geralmente calma."

A 2 de maio os passageiros foram formalmente informados do surto. "O capitão e o chefe da equipa técnica disseram-nos que um passageiro alemão tinha falecido a bordo e que dois tripulantes estavam doentes, incluindo o médico. Disseram também que os exames realizados no paciente evacuado (o homem  britânico) revelaram que ele estava com hantavírus. E anunciaram o cancelamento da última parte da viagem, de Cabo Verde aos Açores. Quando nos informaram sobre a terceira morte, ficou claro que tínhamos um problema sério."

Uma mulher norte-americana começou a publicar vídeos na internet que Elisabet Jané considera terem, sido "inapropriados e exageradamente dramáticos", pois causaram tensão nas famílias dos passageiros. "Parecia que estávamos a enfrentar outra pandemia...  A minha reação foi procurar informações e vi que esta variante do hantavírus pode ser transmitida entre pessoas, mas não é fácil nem frequente. E isso pode ser evitado com medidas preventivas simples: máscaras, distanciamento social... Comuniquei isso às pessoas com quem tive contacto."

A 2 de maio o navio chegou a Cabo Verde, mas o capitão teve dificuldades em comunicar com Governo local. "A pior parte foi a incerteza. Vemos que ninguém sabe o que vai acontecer connosco. Chegamos à Praia no dia 3 e ancorámos, à espera. Tínhamos . Todos usávamos máscaras e passávamos o tempo nas nossas cabinas ou no convés. Respeitávamos o distanciamento social. O navio não estava lotado, então era fácil manter distância no refeitório. Mas a incerteza e a constante enxurrada de mensagens e notícias vindas de fora afetaram algumas pessoas. Três passageiros sofreram ataques de pânico."    

A embarcação foi depois encaminhada para as Canárias, onde se , que todavia esteve das autoridades locais. Elisabet Jané reconhece que ficou chocada com as reações. "Ouvir dizerem que podia haver ratos a entrar na água e a infetar toda a gente na ilha demonstra, na minha opinião, uma profunda ignorância e má vontade, bem como uma inconcebível falta de humanidade", sublinhou, referindo que houve algum exagero na saída dos passageiros. "Não nos deixaram atracar, obrigaram-nos a vestir fatos que nos cobriam completamente... quando uma máscara é suficiente para prevenir qualquer potencial infeção. Havia muitos jornalistas, profissionais de saúde, pessoal de apoio, funcionários públicos... Era tudo sobre segurança máxima."

Depois, seguiram-se 12 dias de isolamento total num hospital em Madrid, num total de 28 dias de quarentena. "Houve reações diversas, algumas com um pouco de tensão. Sabíamos que noutros lugares, como na Holanda, os passageiros podiam ficar em quarentena em casa, e o contraste com a nossa situação era óbvio." 

Um dos 14 passageiros espanhóis viria a revelar sintomas, mas tudo acabou por se resolver. "Foi muito difícil, de repente voltámos a uma situação da qual pensávamos já estar a sair. Felizmente, tudo acabou bem..." 

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