Dos campos de batalha asiáticos aos parques naturais norte-americanos, os surtos de hantavírus contam uma história antiga: a da convivência arriscada entre humanos, roedores e ambientes em mudança.
Antes de ter nome, o hantavírus era sobretudo um mistério militar. Entre 1951 e 1954, durante a Guerra da Coreia, cerca de 3200 soldados das Nações Unidas adoeceram com uma febre súbita, dores intensas, hemorragias e insuficiência renal. Chamaram-lhe então febre hemorrágica coreana. Só décadas depois se compreenderia que aquele inimigo invisível vinha dos roedores: o vírus Hantaan, batizado a partir do rio Hantan, na Coreia do Sul, e associado ao rato-do-campo. A história, no entanto, talvez fosse ainda mais antiga; há descrições compatíveis com síndromes de hantavírus na Ásia e na Rússia antes do século XX, e em 1942 uma grande epidemia entre soldados alemães e finlandeses na Lapónia terá sido provocada pelo vírus Puumala.
O vírus começou por ser conhecido como "febre hemorrágica coreana"Associated Press
O que os cientistas foram descobrindo desde então é que “hantavírus” não designa um único vírus, mas uma família de vírus transportados por roedores. A transmissão para humanos acontece, sobretudo, pela inalação de partículas contaminadas com urina, fezes ou saliva de animais infetados. Na Europa e na Ásia, estes vírus tendem a causar febre hemorrágica com síndrome renal, atacando principalmente rins e vasos sanguíneos; nas Américas, podem provocar uma forma cardiopulmonar, mais rara mas frequentemente mais letal. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a mortalidade pode variar de menos de 1% a 15% na Europa e na Ásia, e chegar aos 50% nas Américas, dependendo da estirpe e do contexto clínico.
A segunda grande viragem na história do hantavírus chegou em 1993, nos Estados Unidos, na região conhecida como Four Corners - ou Quatro Cantos -, onde se encontram Arizona, Colorado, Novo México e Utah. Uma doença respiratória rápida e devastadora atingiu sobretudo comunidades navajo e levou à identificação de uma nova forma clínica, a síndrome pulmonar por hantavírus. O agente foi chamado Sin Nombre - “sem nome” - depois de se ter percebido que associar a doença a uma região ou povo agravava o estigma. O Center for Disease Control and Prevention (CDC) começou a vigilância da doença nesse ano, e a síndrome tornou-se notificável a nível nacional nos EUA em 1995.
A partir daí, o mapa alargou-se. Em 1996, na zona de El Bolsón, no sul da Argentina, um surto causado pela estirpe Andes mostrou algo particularmente inquietante: ao contrário da maioria dos hantavírus, esta variante podia, em circunstâncias raras, transmitir-se de pessoa para pessoa entre contactos próximos e prolongados. Décadas depois, um surto de 2018-2019 na província argentina de Chubut voltaria a demonstrar essa possibilidade, com 34 casos confirmados ligados a cadeias de transmissão interpessoal.
Ainda assim, nem todos os surtos nasceram em zonas remotas. Em 2012, o Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, tornou-se notícia quando dez visitantes que tinham dormido no parque foram diagnosticados com infeção por Sin Nombre; oito desenvolveram síndrome pulmonar e três morreram. A investigação apontou para cabanas específicas em Curry Village, onde a estrutura favorecia a presença de roedores. Foi um surto pequeno em números, mas enorme em impacto simbólico.
Na Europa, a história é mais discreta, mas nem por isso menos persistente. O vírus Puumala, associado a pequenos roedores como o arvicolino-vermelho, provoca surtos cíclicos sobretudo no Norte e Centro do continente. A Finlândia continua a ser o país europeu com maior taxa notificada: em 2023, registou 806 casos, uma taxa de 14,5 por 100 mil habitantes. No conjunto da UE/EEE, o Centro Europeu Para a Prevenção de Doenças (ECDC) registou 1885 casos em 2023, com uma taxa de 0,4 por 100 mil habitantes; o agente mais identificado foi o Puumala, responsável por 95,6% dos casos com informação laboratorial disponível.
A China, por sua vez, continua a carregar uma parte substancial do peso global da febre hemorrágica com síndrome renal. Na província de Zhejiang, um estudo retrospetivo identificou 114.071 casos e 1269 mortes entre 1963 e 2020, com pico em 1986 e declínio posterior após medidas de controlo, vacinação e vigilância. É um exemplo de como o hantavírus não é apenas uma curiosidade epidemiológica, mas uma doença que acompanha alterações agrícolas, urbanização, clima, roedores e exposição ocupacional, sobretudo entre trabalhadores rurais.
O episódio mais recente a trazer o hantavírus de volta às manchetes ocorreu num navio de cruzeiro no Atlântico Sul. Em maio de 2026, o ECDC reportou sete casos associados ao navio, incluindo três mortes, um doente crítico, dois sintomáticos e um caso de estado clínico desconhecido. Havia 149 pessoas a bordo, de 23 nacionalidades, incluindo cidadãos de nove países da UE/EEE, entre eles Portugal. Duas amostras testaram positivo para hantavírus por PCR e uma terceira para vírus Andes, estando ainda em curso investigações laboratoriais.
Em Portugal, porém, o risco continua a ser considerado baixo. A diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, afirmou que o surto no cruzeiro era uma “situação circunscrita” e que não existiam medidas preventivas a implementar a nível nacional, estando a Direção Geral da Saúde (DGS) a acompanhar o caso com a OMS no âmbito do Regulamento Sanitário Internacional. Segundo a mesma informação, a hipótese mais provável era a infeção por contacto com aerossóis de urina, fezes ou saliva de roedores durante aproximação à vida selvagem, embora outras possibilidades continuassem em avaliação.
Os dados europeus também ajudam a enquadrar essa avaliação. No relatório anual do ECDC para 2023, Portugal surge com zero casos notificados de infeção por hantavírus em todos os anos entre 2019 e 2023. Isto não significa que o país esteja biologicamente isolado do vírus. Um estudo publicado em 1991 já tinha demonstrado, pela primeira vez, a presença de antigénios e anticorpos de hantavírus em populações de roedores selvagens em Portugal, depois de analisar animais capturados no sul do país entre 1986 e 1988. Ou seja, há evidência antiga de circulação em reservatórios animais, mas não há, nos dados recentes europeus, sinal de doença humana notificada em Portugal.
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