Ano letivo

Regresso às aulas, regresso aos surtos de covid?

Regresso às aulas, regresso aos surtos de covid?
Vanda Marques 01 de setembro

É previsível termos um aumento dos casos. Mas os especialistas reforçam que a alta taxa de vacinação da população portuguesa e o início da vacinação dos jovens, acima dos 12 anos, terá um impacto positivo. A não ser que surja uma variante nova.

Somos um exemplo no que toca à vacinação, mas é com um otimismo cauteloso que os especialistas avaliam os próximos meses. O ensino digital está posto de parte, mas é expectável que o número de casos de covid-19 aumente no nosso país com o regresso às aulas.

Quanto ao que o último trimestre de 2021 nos reserva? Ainda algumas incertezas. Os especialistas reforçam que não é possível prever como o vírus vai evoluir e se surgirá alguma variante capaz de "escapar" à proteção da vacina. Como defende o médico João Júlio Cerqueira, os próximos meses serão "a verdadeira prova de fogo da vacina. Se tudo correr dentro do esperado, é possível que haja um aumento tolerável do número de casos de covid-19, sem necessidade de tomar grandes medidas adicionais. Mas é possível, dadas as incógnitas existentes, que seja surpreendido." O matemático Henrique Oliveira concorda. "É difícil prever exatamente devido ao efeito ainda não estudado da duração do efeito da vacinação. Mas a nossa previsão é de decaimento lento no mês de setembro e tudo dependerá de novas variantes e de uma terceira toma no caso dos mais idosos para se poder prever o que vai acontecer em termos de mortes diárias."

Vamos ter nova onda da pandemia?
Os especialistas acham que é pouco provável. Contudo, têm cautela no que toca a discursos otimistas. O professor do Instituto Superior Técnico, Henrique Oliveira, defende que poderemos ter uma nova onda "mas de forma muito moderada". E acrescenta: "Com a vacinação haverá sempre tendência, nesta fase ainda de tempo quente, de termos casos nos mais jovens ainda não vacinados que se podem transmitir aos mais velhos. A situação será mais complexa no pico do inverno, e não há ainda muitos dados, para se entender qual o real período de proteção dado pelas diferentes vacinas. O mito do limiar da imunidade de grupo não será alcançado e isso significa que teremos sempre vírus em circulação nos anos que se seguem. Teremos de controlar os danos de forma a manter a sociedade a funcionar. O covid-19 é uma doença grave mas muito menos grave do que já foi sem a vacinação."

Lúcio Meneses de Almeida, médico de Saúde Pública, acredita que as escolas não irão causar uma nova vaga, mas que teremos uma "aceleração da atividade epidémica." O motivo é simples: "É uma doença de transmissão interpessoal, e sempre que há oportunidades de contacto entre pessoas em espaços fechados, há um aumento de transmissão."

Carlos Manuel Correia Antunes, matemático e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, concorda. Mas deixa um alerta: "Existem ainda algumas incertezas, nomeadamente, quanto à verdadeira efetividade vacinal contra infeção." O especialista explica à SÁBADO os desafios que nos esperam: "As únicas faixas etárias onde ainda se vê uma dinâmica de aumento de casos é nas faixas não ou menos vacinadas (0 aos 29 anos). Neste momento temos as faixas dos 10-19 e 20-29, principalmente nas regiões do Norte e do Centro com taxas diárias de aumento de casos. E até recentemente, também no Algarve essas faixas estavam a aumentar o número de casos, estando agora em decréscimo. São essas faixas e essas regiões que estão a impedir a franca diminuição do número de casos diários." E avança que com "a conclusão da vacinação completa na faixa etárias dos 20-29 e 30-39 (agora com 55% e 74% de cobertura vacinal, respetivamente) e depois com a faixa dos 12-19 anos que poderá atingir os 80% de vacinação completa no início do mês de outubro, atirando a cobertura vacinal completa e global para os 80-85%, muito dificilmente teremos uma nova onda."

O médico João Júlio Cerqueira defende que não há ainda grandes certezas do que poderá acontecer. Porquê? "Dada a grande taxa de vacinação existente na população geral e ao facto da maioria das crianças não apresentarem sintomas para a covid-19. Esse risco existe, mas estou esperançoso que este ano letivo vai ser bem menos atribulado que o ano anterior, a não ser que surjam novas variantes que nos surpreendam pelo efeito de escape à vacina ou mesmo a infeções prévias." 

Abrem as escolas, aumentam os casos?
Se ao que tudo indica não teremos uma nova vaga – sobretudo como o que aconteceu em 2020, quando não havia vacinas – é provável termos um aumento de casos de covid-19. Alguns especialistas dizem que será um ligeiro aumento. "É expectável que haja algum aumento do número de infeções nessa faixa etária, mas não me parece que vá ser tão relevante como no passado. Isto vai dever-se sobretudo ao maior contacto das crianças com os colegas de escola, à partilha de espaços fechados entre outro tipo de atividades que aumentam o número de contactos das crianças", diz à SÁBADO João Júlio Cerqueira. O matemático Henrique Oliveira reforça que, apesar de haver mais contactos entre as pessoas nos transportes públicos, escolas, eventos culturais, "a vacinação contraria essa tendência."

Já Carlos Antunes é mais otimista e diz que em princípio não teremos um aumento de casos e sublinha que Portugal é um exemplo do impacto da vacinação no controlo da epidemia. A única ressalva são as faixas que se encontram em crescimento são dos 10-19 e 20-29 apenas nas regiões do Norte e Centro. "A vacinação está, de alguma forma, a conter a incidência, impedindo o seu aumento. É notório o impacto da vacinação no controlo e mitigação da incidência nas faixas etárias acima dos 50 anos onde já temos coberturas vacinais completas acima dos 90% da respetiva população."

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