Reportagem

O luto de um filho não se faz em cinco dias

Mas é isso que está escrito na lei. Depois, só pode parar com férias, baixa ou a compreensão do seu empregador. Uma petição da Acreditar quer dar mais tempo aos pais – 20 dias.

Às quatro e meia da manhã, Rosalina Nunes escreveu uma mensagem: “Onde andas, meu menino?” Não esperava resposta, mas Fábio, o filho de 27 anos, disse que estava em casa, em Lisboa. Pouco tempo depois, ainda na madrugada daquele domingo, 21 de outubro de 2018, Fábio entrou no carro e conduziu com destino à aldeia de São Miguel, em Odeceixe. Além do hábito de ir muitas vezes à terra dos pais, costumava acordar demasiado cedo para fazer a viagem. E parava sempre nas bombas de gasolina para fumar um cigarro e beber um café. Ou quase sempre. A exceção foi naquele dia, em que não parou e acabou por perder a vida na estrada nacional 393, que liga Odemira a Odeceixe. Às 7h da manhã, o carro com que sempre sonhara, um Audi, ficou reduzido a pedaços depois de um violento embate com um camião.

Fábio era o segundo filho de Rosalina e o segundo que perdeu naquela estrada. Dezassete anos antes, a 1.800 metros de distância, a filha Carla regressava a casa de um jantar quando o carro onde seguia se despistou. A jovem de 17 anos foi a única vítima entre os cinco ocupantes. Nessa altura, Fábio perguntava muitas vezes à mãe porque é que a irmã tinha morrido. “Eu também não tinha resposta e pensava muitas vezes: porquê a Carla?”, recorda à SÁBADO. Nessa altura, o foco de Rosalina passou a ser, exclusivamente, Fábio. “Trabalhava para ele, fazia turnos, férias, horas a mais, acompanhava o meu filho para todo o lado. Agora, já não tenho sentido de vida.”

Quando perdeu a filha, Rosalina continuou a trabalhar nas limpezas. Fábio era a sua força e a mulher de 63 anos recusou, nessa altura, ajuda psicológica. Ficou pouco mais de três meses de baixa e regressou ao trabalho. Desta vez, com a morte do segundo filho, a nitidez perdeu-se.

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