Burnout parental: Gosto de ti, mas não te posso ouvir

Burnout parental: Gosto de ti, mas não te posso ouvir
Lucília Galha 26 de abril

A síndrome também acontece em casa: quando o esgotamento, em vez do trabalho, tem a ver com os filhos e as tarefas parentais. Agora, agravou-se com a pandemia.

Nuno já não gosta de passear com o filho, nem lhe apetece ouvir o que ele tem para dizer. "Ainda ontem, estávamos a ver um filme juntos, ele pôs-se a comentar e isso fez-me confusão" – dantes, aproveitaria o momento para conversar com o filho e até lhe ensinar alguma coisa. Houve um dia em que foram jogar ténis juntos e, passados 20 minutos, Nuno já se cansara de ali estar. Noutra ocasião, comprou um jogo de tabuleiro. Depois de jantar, começou a desencaixotá-lo e estava a explicar as regras do jogo. O filho interrompeu para dizer que queria comer sobremesa e o pai explodiu: "POÇAS, ESTOU A EXPLICAR-TE AS REGRAS E TU ESTÁS A FALAR DE SOBREMESA?" (o caps lock traduz os decibéis) O seu filho tem 11 anos, e embora Nuno tente disfarçar, apercebe-se de que algo não está bem. Ao ponto de já lhe ter dito: "Pai, a tua cara de cansado é igual à de zangado, às vezes acho que sou eu". "Ele é o menos culpado", consciencializa o empresário, mas acaba por ser o mais prejudicado. "Quando tenho tempo livre, esgotou-se a força de vontade."

Nuno, 44 anos, sempre quis acompanhar de perto a educação do filho. Além de fazer parte da associação de pais, há oito anos decidiu ter um negócio próprio para gerir os seus horários e equilibrar a vida pessoal com a profissional. Com a pandemia, a sua empresa, ligada à organização de eventos, deixou de fazer sentido. Reinventou-se e passou o negócio para o formato digital. Como a mulher tinha menos disponibilidade, o empresário assumiu a logística da casa e o apoio ao filho nas aulas à distância. Mas o fluxo de trabalho também começou a aumentar.

"Queremos ser bons líderes, bons pais, bons maridos, bons filhos e, ao final do dia, o que sentimos é que por muito que se faça, não damos resposta a nada", diz. Primeiro, veio o cansaço e o desejo de não ouvir a voz de ninguém, depois a apatia, a seguir a inconstância de comportamento. Como ajudar o filho nos TPC: uns dias era compreensivo, noutros, ralhava ao mínimo deslize. Por fim, o seu corpo também cedeu: a pele descamou, o couro cabeludo encheu-se de borbulhas, ficou com desarranjos intestinais, deixou de dormir uma noite seguida.

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