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Atriz Laverne Cox diz que política anti-trans de Trump a fez perder rendimentos

Tiago Neto 15 de junho de 2026 às 13:32

Conhecida pelo trabalho na série "Orange Is the New Black", Cox refere perdas de 90% depois dos ataques da administração Trump às políticas de inclusão e aos direitos das pessoas trans.

Há mais de uma década que Laverne Cox se tornou um dos rostos mais visíveis daquilo a que a revista Time chamou, em 2014, o “transgender tipping point” – momento de viragem cultural que intensificou a visibilidade pública das pessoas transgénero na sociedade e nos meios de comunicação social.

Andy Kropa/Invision/AP

A atriz de Orange Is the New Black foi então apresentada como símbolo de uma mudança cultural: uma mulher trans negra a ocupar capas de revista, a ser nomeada para prémios de televisão e a falar, em horário nobre, sobre representação, direitos civis e dignidade. Agora, num novo ciclo político nos Estados Unidos, Cox diz que essa visibilidade deixou de se traduzir em oportunidades. Pelo contrário, passou a ter custos.

Em entrevista à revista britânica , a atriz afirmou ter perdido “muito dinheiro” no último ano por causa da administração de Donald Trump. Segundo Cox, os trabalhos de representação, campanhas de marca e palestras que durante anos complementaram uma carreira de atriz limitada pela escassez de papéis para pessoas trans, começaram a desaparecer. “Nunca pensei que as palestras em universidades fossem secar”, disse. Ao , acrescentou que, nos últimos dois anos, estima ter perdido cerca de 90% do rendimento. 

A explicação, para Cox, está no clima político criado pelas ordens executivas de Trump contra políticas de diversidade, equidade e inclusão — conhecidas pela sigla DEI — e contra aquilo que a administração define como “ideologia de género”. “Este regime ameaçou retirar financiamento a faculdades e universidades que promovam ideologia de género ou DEI”, afirmou. Até trabalhos aparentemente afastados da militância, como dar uma aula de representação numa pós-graduação, podem agora, diz, ser vistos como promoção de “ideologia trans”. 

A atriz insiste que não fala apenas de um prejuízo pessoal. Reconhece-se “privilegiada” por ter poupanças e um fundo de reforma a que pode recorrer, mas usa o próprio caso como sinal de uma realidade mais vasta. “Se o meu rendimento desceu significativamente, o que acontece a todas as outras pessoas trans que não são tão privilegiadas?”, perguntou. A frase central da entrevista é política e económica: “Há consequências materiais para este tipo de discriminação e de criação de bodes expiatórios.” 

O enquadramento ajuda a perceber a dimensão do que Cox descreve. No primeiro dia do novo mandato, Trump assinou uma ordem executiva que determina que o governo federal reconheça apenas dois sexos, masculino e feminino, definidos biologicamente, e ordena a eliminação de referências a identidade de género em vários documentos e práticas federais. Noutra ordem, a administração mandou pôr fim a programas federais de diversidade, equidade e inclusão, descrevendo-os como “radicais” e “desperdiçadores”. 

A noticiou ainda que, em janeiro de 2025, a administração ordenou às agências federais que apagassem menções a “ideologia de género” de contratos, descrições de funções e contas institucionais nas redes sociais. Mais tarde, a avançou que um tribunal federal bloqueou a aplicação de algumas dessas ordens em condições de financiamento de bolsas e contratos, depois de organizações LGBTQI+ argumentarem que eram inconstitucionais. A disputa, portanto, continua também nos tribunais. 

Para Cox, porém, o efeito já se sente antes de qualquer decisão judicial definitiva. O problema não é apenas o que a lei permite ou proíbe, mas o medo que instala. Universidades, empresas e instituições culturais passam a evitar temas, nomes e corpos que possam ser lidos como politicamente arriscados. A consequência é uma forma menos visível de censura: não necessariamente a proibição direta de contratar uma mulher trans, mas o desaparecimento de convites, patrocínios, aulas e campanhas.

A atriz sabe o peso simbólico dessa mudança porque a sua carreira nasceu, em parte, da promessa oposta. Em 2013, Orange Is the New Black transformou-a numa das primeiras atrizes trans a alcançar reconhecimento global. Em 2014, tornou-se a primeira pessoa trans nomeada para um Emmy em categoria de representação, pela personagem Sophia Burset, uma cabeleireira trans presa numa cadeia feminina. A série da Netflix não resolveu a sub-representação, mas abriu uma porta que parecia historicamente fechada.

Cox continuou a trabalhar em cinema, televisão, moda e ativismo. Produziu o documentário Disclosure, sobre a representação de pessoas trans no audiovisual, participou no filme Promising Young Woman, na série Inventing Anna, e lançou recentemente a autobiografia, Transcendent. Mas também tem dito, em várias entrevistas, que a visibilidade não protege automaticamente da precariedade, do assédio ou da violência política. À revista , falou da pressão de ser transformada em símbolo e da dificuldade de continuar a trabalhar num momento de recuo nos direitos trans.

As declarações surgem ainda depois de Cox ter falado publicamente sobre uma relação passada com um polícia de Nova Iorque apoiante de Trump, episódio que gerou críticas dentro da própria comunidade LGBTQI+. Em entrevistas recentes, incluindo no programa The View, a atriz disse ter sentido que se “traiu” ao manter uma relação com alguém cujos valores acabaram por se revelar incompatíveis com os seus. O tema faz parte da sua autobiografia, mas o debate sobre a vida privada não apagou o ponto que agora procura sublinhar: as políticas públicas têm efeitos concretos na vida profissional e material das pessoas trans.

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