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A maior comunidade de chimpanzés selvagens do mundo está em "guerra civil"

Diogo Barreto 11 de abril de 2026 às 22:31

A maior comunidade de chimpanzés selvagens no mundo dividiu-se em dois e há um clima de guerra entre ambos, já com dezenas de vítimas mortais, revela estudo.

Os chimpanzés Ngogo, o maior grupo conhecido de chimpanzés selvagens do mundo, estão envolvidos numa guerra civil que dura já há uma década, atesta um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica .

Chimpanzés em conflito na maior comunidade selvagem do mundo Peter Steffen/picture-alliance/dpa/AP Images

Os chimpanzés Ngogo começaram a ser observados em 1995 no Parque Nacional Kibale, no Uganda. De acordo com os cientistas que ali se reuniram, a sua densidade populacional era enorme, vivendo cerca de 100 espécimes em 26 quilómetros quadrados. O grupo continuou a crescer ao longo dos anos, sendo agora de cerca de 200 primatas. E tudo parecia correr harmoniosamente e os animais colaboravam entre si (Jane Goodall documentou esta entreajuda entre chimpanzés nos anos 60) e apesar de começarem a formar sub-tribos, alguns primatas acasalarem fora dos seus clusters. Mas em 2015 tudo começou a mudar.

Nesse verão, Aaron Sandel, primatólogo da Universidade do Texas e coordenador do estudo, estava a seguir os machos do cluster Central que se encontraram com os do cluster Ocidental e começou uma luta entre os dois grupos. Os chimpanzés ocidentais acabaram por fugir, com os chimpanzés centrais a seguir em perseguição. A partir daí os confrontos foram-se tornando regulares e a violência endémica. A primeira morte ocorreu em 2018. 

Os autores do estudo atribuem o início das tensões à morte de cinco machos adultos, em 2014, o que terá alterado as dinâmicas de poder. E em 2018, os três clusters "cortaram relações" definitivamente, sendo que o cluster oriental e central se uniram contra o cluster ocidental. 

Com os dois grupos rigidamente estabelecidos, membros do grupo ocidental realizaram 24 ataques ao grupo central ao longo dos sete anos seguintes, matando pelo menos 17 primatas bebés e sete adultos. 

A comunidade Ngogo vive praticamente num santuário, ocupando a área central do Parque Nacional de Kibali, sem predadores naturais (o último leopardo desapareceu há décadas) e sem praticamente presença humana nos arredores. O território é rico em alimentos, o que permitiu que a população do grupo se expandisse para zonas vizinhas.

Com base em evidências genéticas, estas “guerras civis” entre chimpanzés provavelmente só ocorrem a cada 500 anos, mas a atividade humana, através da desflorestação ou alterações climáticas, por exemplo, pode tornar estes conflitos mais comuns, alerta Sandel. A última vez que uma "guerra civil" tina sido registada entre chimpanzés foi na década de 70 do século passado quando Goodall documentou confrontos entre cerca de duas dezenas de chimpanzés do mesmo grupo, na Tanzânia. Até agora tinha-se considerado que era um incidente isolado, já que nunca mais havia sido observado. 

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