Porque já defendem os especialistas a reabertura das escolas?

Porque já defendem os especialistas a reabertura das escolas?
Mariana Branco 23 de fevereiro
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Edição de 25 de fevereiro a 3 de março
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Portugal registava quase 14 mil casos no dia em que as escolas foram encerradas. Um mês depois, a média situa-se nos 1.500 casos diários nos últimos sete dias. Carta enviada ao Governo pede a reabertura das escolas, mas aumento de casos é provável.

Depois de uma centena de médicos, professores, pais e investigadores pedir ao Governo e ao Presidente da República a reabertura urgente das escolas a partir de 1 de março, as dúvidas sobre um possível retrocesso no combate à pandemia começam a surgir. Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), não foi um dos signatários da carta mas acredita que com um bom planeamento as escolas podem abrir no próximo mês. O aumento de casos vai ser, no entanto, o cenário mais provável.

EPA/ABIR SULTAN

Defendendo a importância do planeamento da redução de restrições, o médico considera que "não podemos ser precipitados naquilo que são as novas medidas ou a redução de restrições". "Mas parece-me razoável que na redução das restrições, as escolas – particularmente no que diz respeito aos mais pequenos – possam ser reabertas primeiro", diz à SÁBADO.

Tal como salientam os signatários da carta enviada ao Governo, o encerramento das escolas associou-se a uma diminuição dos casos e facilitou o controlo da epidemia – a 22 janeiro, dia em que foram encerradas as escolas, registavam-se mais de 13 mil casos diários. Um mês depois, a média em Portugal é de 1.500 casos nos últimos sete dias.

Agora, com o possível levantamento de restrições, como a reabertura dos estabelecimentos de ensino, poderá surgir um aumento de contágios. "Sabemos que as restrições reduzem a capacidade de o vírus se disseminar e que a redução dessas restrições provavelmente aumenta essa capacidade de disseminação. É, portanto, plausível que quando se começarem a reduzir as medidas possa haver um aumento de casos", afirma o presidente da ANMSP.

A importância do ponto de partida
Apesar da possibilidade de uma nova subida de casos, há um fator importante a analisar: o ponto de partida. "A decisão do Natal [de levantar restrições] teve as consequências que teve porque estávamos a partir de um limiar de incidência já de si muito elevada. Estávamos em torno dos três mil casos diários antes do período festivo", relembra.

É, por isso, necessário não esquecer esta condicionante. "Se partirmos de um limiar muito alto, rapidamente começamos a acumular casos de uma forma muito significativa. Mas se partirmos de um limiar mais baixo podemos naturalmente aumentar a disseminação mas esse aumento será sempre menos do que se partirmos de uma incidência comunitária já de si bastante elevada", explica o médico.

Numa eventual subida de contágios, remata Ricardo Mexia, é preciso conseguir manter esses novos casos num limite suficientemente baixo, de forma a não sobrecarregar a resposta do Sistema Nacional de Saúde.

Não fechar as escolas teria sido opção?
Na sequência das festividades de Natal e Ano Novo, tanto Portugal como Espanha viram, no início do ano, crescer uma terceira vaga da pandemia. Apesar de em Portugal esta terceira vaga ter tido uma dimensão muito superior à de Espanha – em número de casos e de mortes –, os dois países reagiram com novas medidas em meados de janeiro.

Enquanto Portugal decretou um confinamento geral, que acabou por incluir as escolas, Espanha não foi tão longe: não avançou com um confinamento geral e deixou as escolas abertas. Tendo os resultados sido positivos na redução dos novos casos nos dois países, seria possível que Portugal tivesse deixado as escolas abertas?

"Há múltiplas evidências que demonstram o papel que têm as diversas medidas. As medidas isoladamente têm um peso, mas de forma concertada esse efeito acaba por ser cumulativamente muito mais robusto", explica Ricardo Mexia. Por esse motivo, prescindir de algum tipo de medidas ter-se-ia traduzido numa evolução diferente.

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública acredita que sem este encerramento "teria demorado mais tempo, teríamos tido uma menor redução". No entanto, salienta que em janeiro a situação era "dramática", tendo-se deixado evoluir a situação epidemiológica "até um cenário que nos transformou naquilo que era o pior país do mundo", não havendo condições de ser seletivos nas medidas.

Agora, estando o País perante uma situação mais controlada, o médico considera que é possível retomar as atividades. E começar pelas escolas é importante devido a vários fatores, já que o seu encerramento pode ter tido impacto do ponto de vista pedagógico, das desigualdades e ainda da forma como condiciona os pais.

Assim, com um bom planeamento, de forma faseada, e avaliando os timings dessa retoma, Ricardo Mexia acredita ser possível reabrir as escolas "sem mais prejuízos muito relevantes face ao que já aconteceu".

A carta enviada ao Governo
Numa carta enviada ao primeiro-ministro, ao ministro da Educação, à ministra da Saúde, aos restantes membros do Governo e ao Presidente da República, uma centena de médicos, professores, pais e investigadores diz ser possível manter as escolas abertas com ensino presencial com as devidas precauções.

O grupo, do qual fazem parte o virologista Pedro Simas e o epidemiologista Henrique Barros, lembra que um largo conjunto de investigações "mostrou que as escolas não são contextos relevantes de infeção e, durante o primeiro período, as medidas sanitárias em vigor nas escolas provaram que o curso da epidemia foi independente das escolas estarem abertas".

Dessa forma, defendem a reabertura de creches e estabelecimentos de educação pré-escolar no início de março e a abrir o ensino básico a partir do início do próximo mês de forma gradual e a começar pelos 1.º e 2.º ciclos.

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