Luís Montenegro foi líder parlamentar enquanto Passos Coelho era primeiro-ministro, nessa altura - e nos anos seguintes - foram bastante próximos, mas o afastamento público tem sido cada vez mais visível.
Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro têm protagonizado um rol de trocas de indiretas sobre a forma como o País, e o partido, devem ser governados – tendo até o atual primeiro-ministro sugerido que o ex-líder do partido se candidate à liderança do PSD. Mas a relação entre os dois nem sempre foi assim tão crispada.
Passos Coelho e Montenegro juntos num evento do PSD, em 2022Luís Forra/LUSA
Primeiro-ministro e líder parlamentar
Em 2011, ano em que se iniciou a intervenção financeira da troika em Portugal, Montenegro era líder da bancada parlamentar do Partido Social Democrata (PSD) e um dos principais rostos da maioria que sustentava o Governo (PSD/CDS) de Pedro Passos Coelho.
Passos Coelho ainda venceu as eleições legislativas de 2015, no entanto, sem maioria absoluta, a esquerda foi capaz de se juntar para governar com a “geringonça” formada pelo Partido Socialista, Bloco de Esquerda, Partido Comunista e Os Verdes. Nessa altura Pedro Passos Coelho tornava-se líder da oposição, numa altura em que Montenegro 'recuou' para deputado. Depois das autárquicas de 2017, o antigo Chefe de Governo abandonou a liderança do partido.
Durante os tempos em que Rui Rio esteve à frente do PSD – entre 2018 e 2022 – Pedro Passos Coelho evitou marcar presença no cenário político português, no entanto, a chegada de Montenegro à liderança do partido parece ter puxado Passos Coelho para sair da 'toca'.
“A máquina laranja está de volta”, mas com aparente afastamento
Logo em 2022, Montenegro afirmou na Festa do Pontal que “a máquina laranja está de volta”, como se a liderança de Rui Rio nada mais fosse do que uma interrupção entre a desejada sucessão a Passos Coelho (que estava presente em Quarteira) pelo atual primeiro-ministro. Nesse mesmo dia Montenegro referiu que Passos Coelho foi “um grande primeiro-ministro" e que tinha “muito orgulho” de ter estado ao seu lado. Já Passos Coelho referiu apenas: “Vim dar um abraço ao Luís Montenegro. Uma pessoa bem preparada e competente, que tenho confiança que será o próximo primeiro-ministro".
Os primeiros desentendimentos, ainda que subtis, surgiram nesse mesmo ano, quando Pedro Passos Coelho referiu que gostaria de ver o diploma da eutanásia revogado, com Montenegro a assumir publicamente: “Discordo completamente da posição de Pedro Passos Coelho. Discordo pelo facto de ele discordar de um referendo sobre esta matéria, discordo porque a posição dele é muito fechada”.
Nessa altura o assunto não teve desenvolvimentos, pelo menos públicos, e as relações entre os dois sociais-democratas mantiveram-se sanadas, tanto que, quando durante a campanha para as legislativas de 2024 – que o PSD acabou por vencer – Montenegro foi confrontado por duas pensionistas com os cortes da altura da troika defendeu o ex-líder do PSD. “Tire o Passos Coelho do seu lado que esse tirou-nos tudo”, pediram duas mulheres em Portalegre. O então candidato afirmou que Passos Coelho “não tirou nada” e garantiu que, se alguma vez tivesse de cortar nas pensões, se despediria.
No dia seguinte apareceu mesmo ao lado de Passos Coelho, no comício de Faro, e durante o seu discurso Montenegro elogiou: “Tu não tens de retribuir nada, nós é que temos a obrigação de te dizer sempre: muito, muito obrigado por tudo aquilo que fizeste por nós, pelo País, pelas pessoas. Pelo trabalho patriótico que fizeste à frente do Governo em condições em que talvez nenhum outro tivesse conseguido alcançar os resultados que nós alcançámos”.
PSD volta ao poder
O PSD acabou mesmo por vencer as eleições, voltando pela primeira vez ao poder desde 2015, e Montenegro tornou-se primeiro-ministro. Mas não foi preciso passar nem um mês para que começasse a ser 'assombrado' pelo fantasma de Passos Coelho. O antigo líder dos sociais democratas considerou que, desde os tempos de líder parlamentar, que “nasceu a possibilidade de Montenegro criar condições para fazer o caminho de modo a poder vir a ser líder do PSD”. Na mesma entrevista ao Observador admitiu que Montenegro faz parte da sua “herança e legado”. E acrescentou: “Em que medida é que ele se quer desconectar mais desse seu próprio passado? Não sei. A mim parece-me que foi muito evidente nos últimos tempos que houve essa preocupação de tentar desligar”.
Ainda nessa entrevista Passos recusou “andar a criar constrangimentos” a Montenegro com as suas intervenções públicas: “Agora, também não posso ser impedido de, de quando em vez, poder dizer alguma coisa que penso. E eu penso pela minha cabeça, evidentemente”.
O primeiro Governo de Montenegro não durou muito, uma vez que nem um ano foi preciso para o escândalo relacionado com a sua empresa familiar, a Spinumviva, 'explodir'. No seguimento, Luís Montenegro apresentou uma moção de confiança ao seu Governo, que foi chumbada e fez com que o Executivo caísse.
O aumentar de tom das críticas
Voltamos à campanha eleitoral em 2025. O PSD organizou um almoço com ex-líderes para celebrar os 51 anos do partido e, à chegada, Pedro Passos Coelho transmitiu o seu “desejo profundo” que “o PSD possa fazer pelo jus à sua tradição reformista em Portugal”, considerando esse facto que “exige estabilidade política”, mas também “que exista verdadeiramente um espírito reformista que possa estar ao serviço da estabilidade”. O ex-primeiro-ministro não fez nenhum comentário direto ao novo Executivo, mas evitou responder se Luís Montenegro teria, ou não, o tão desejado espírito reformista.
Esta intervenção levou alguns a questionar se Passos teria, ou não, o desejo de voltar à vida política, mas as autárquicas trouxeram-nos definitivamente para a ribalta e deixaram clara a separação entre ambos. As críticas tornaram-se cada vez mais diretas, com Passos Coelho a criticar o “enorme descontrolo de toda a despesa de saúde” e a alertar para a necessidade de “não aliviar o passo do desendividamento da economia”: “O improviso nunca foi bom para quem tem de tomar decisões importantes e comprometer o futuro”, referiu numa ação de campanha no início de outubro do ano passado.
Nessa mesma ação Passos Coelho referiu que “todos aqueles que andam nas trincheiras a varrer os que não gostam acabam numa trincheira cada vez mais estreita e pequenina”; mais à frente na campanha foi questionado sobre a forma como Montenegro geriu o escândalo da Spinunviva, tendo respondido: “Eu só costumo dar conselhos a quem os pede”.
Desde as autárquicas que a presença de Pedro Passos Coelho no meio mediático tem sido cada vez mais audível e Montenegro manteve-se sem reação até ao dia 4 de março, quando, depois de o ex-primeiro-ministro ter afirmado que se recandidata “quando quiser”, e ter defendido acordos com o Chega e a IL, propôs que as eleições diretas no PSD se realizem em maio, para que “não haja qualquer dúvida” quanto à sua liderança.
Montenegro foi mais além e desafiou quem tiver um “caminho diferente e alternativo” a entrar na corrida, mas nunca referiu o nome de Pedro Passos Coelho: “Gosto de ser claro e direto: se houver um caminho alternativo e diferente que seja apresentado e que seja objeto da apreciação do partido, dos seus órgãos e dos militantes”.
Apesar de não ter havido referência ao nome de Passos Coelho, a indireta foi suficiente e teve resposta: “Eu recomendo a quem está no governo, a começar pelo chefe do governo, que se concentre nessa missão e que se distraia pouco com o resto. Não sei se aquilo que digo incomoda ou não incomoda, não digo nem para incomodar nem para aborrecer, digo o que penso e direi sempre o que penso, sempre que achar que isso é oportuno e importante”. Nesta última troca de declarações entre os dois sociais democratas, Passos Coelho sugeriu ainda que Montenegro aprenda a gerir as críticas: “Quem está à frente do Governo, umas vezes ouvirá coisas que gosta e outras vezes ouvirá coisas que não gosta. Eu já ouvi muitas coisas que não gosto, ouvi e andei. A gente não brinca com o País por causa disso, está bem?”
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