Passos Coelho tem criticado abertamente a atuação do atual executivo. Montenegro deixou um desafio aberto para quem quiser liderar o PSD.
Há uma ideia - até pode ser um sintoma do Efeito Mandela - de que Passos Coelho falou mais vezes em público em 2026 do que nos últimos cinco anos. Recatado desde que saiu da liderança do PSD, desde fevereiro que o antigo primeiro-ministro tem feito várias declarações públicas. E há quem afirme que objetivo é enfraquecer a liderança de Luís Montenegro, para que possa voltar a liderar o PSD e talvez o País. O primeiro-ministro em funções parece ter acusado o toque e propôs diretas no PSD já em maio.
Tiago Petinga/LUSA
Duas semanas depois da vitória de António José Seguro escrevia-se no editorial da SÁBADO: "Mas entre quem não foi a votos, há um vencedor real que qual messias só se mostrou ao terceiro dia pós-eleitoral (...) Chama-se Pedro Passos Coelho e anda por aí a criticar os vendilhões do templo". Desde o dia 8 de fevereiro (dia em que Seguro venceu as eleições presidenciais) Passos marcou presença em vários lançamentos de livros e eventos públicos, tendo sempre algumas palavras para serem reproduzidas nos telejornais e na imprensa nacional. "Passos tornou-se de novo um ator político, se é que alguma vez deixou de o ser, e já nem disfarça que o é. Faz parte do cenário de fundo e das contas a fazer", concluía-se no editorial de 24 de fevereiro. Nesse mesmo dia, criticou abertamente a escolhe de Luís Neves para ministro da Administração Interna, por vir diretamente da direção da Polícia Judiciária.
Apesar da especulação de que estaria de volta à política, Passos afirmou, no 5.º aniversário do Instituto “+Liberdade”, que é "pouco provável que venha a desempenhar uma função tão ativa” como aquela que teve quando foi chefe de executivo entre 2011 e 2015, salientando que “se isso algum dia se vier a equacionar, não há de ser, seguramente, pelas melhores das razões”.
Mas um novo passo no regresso de Passos foi dado no dia 2 de março. O antigo primeiro-ministro assumiu que se recandidata "quando quiser", defendendo a necessidade de acordos com Chega e IL, sob pena de aqueles partidos virem a 'lucrar' eleitoralmente da indecisão de colaborar do PSD.
"Acho natural que as pessoas possam querer especular ou ter qualquer outra associação de ideias sobre o que são as minhas intenções (...), mas quando me perguntam, diretamente, sobre quais são, não vejo nenhuma razão para (...) dissimular. Quando eu quiser candidatar-me, candidato-me, e anuncio que me vou candidatar", disse, em entrevista ao jornal ECO. "Não sinto nenhuma necessidade de excluir qualquer coisa que venha a fazer no futuro, porque razão haveria de o fazer?", afirmou, lembrando ainda a importância de um caminho "reformista" (mas sem nunca indicar quais as reformas que quer implementar).
Montenegro propôs, dois dias depois dessa entrevista ao ECO, que as eleições diretas no partido se realizem em maio para que "não haja qualquer dúvida" e desafia quem tiver "caminho diferente e alternativo" a apresentar-se. Luís Montenegro falava na intervenção inicial do Conselho Nacional, aberta à comunicação social, sem nunca referir diretamente o nome do ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que fez nas últimas semanas várias intervenções críticas dirigidas ao Governo.
"Gosto de ser claro e direto: se houver um caminho alternativo e diferente que seja apresentado e que seja objeto da apreciação do partido, dos seus órgãos e dos militantes. Estamos aqui para transformar Portugal, para ouvir aqueles que nos querem ajudar, mas para não perder a oportunidade, a honra e o privilégio que alcançámos nas urnas com a confiança dos portugueses", disse.
Mas mesmo que Montenegro não tenha referido Passos, foi esse o entendimento de jornalistas, comentadores e até do próprio Passos Coelho. "Eu recomendo a quem está no governo, a começar pelo chefe do governo, que se concentre nessa missão e que se distraia pouco com o resto", disse o antigo líder social-democrata em resposta ao desafio lançado por Montenegro para que os descontentes se candidatem.
"Não sei se aquilo que eu digo incomoda ou não incomoda, eu não digo nem para incomodar nem para aborrecer, digo o que penso e direi sempre o que penso, sempre que achar que isso é oportuno e importante", acrescentou Passos Coelho apelando a Montenegro que ganhe carapaça a críticas: "Quem está à frente do governo, umas vezes ouvirá coisas que gosta e outras vezes ouvirá coisas que não gosta. Eu já ouvi muitas coisas que não gosto e ouvi e andei. A gente não brinca com o país por causa disso, está bem?", acrescentou.
"No dia em que eu me quiser candidatar, eu digo que me quero candidatar e candidato-me. Não faço isso para satisfazer calendários ou por questões de política interna", concluiu Passos.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.