António José Seguro tem tudo para ser o que Marcelo Rebelo de Sousa não foi. Bem nos faz falta.
O Presidente da República que esta semana tomou posse começou com 6% nas sondagens e acabou eleito com o recorde absoluto de votos. À medida que a sua candidatura improvável foi ganhando balanço, o leque dos seus apoiantes foi-se alargando. Quando o PS relutante, que tentou por tudo achar alternativas a Seguro, se resignou e começou a correr para os abraços e as fotografias, lá vieram (sobretudo na segunda volta) as proclamações dramáticas de que esta era a guerra da democracia contra o autoritarismo – uma narrativa moralista desastrosa: que o digam Hillary Clinton ou Kamala Harris.
António José Seguro, para seu crédito, rejeitou definir-se como uma espécie de Messias anti-messiânico frente a André Ventura, que ganha a vida a proclamar-se o homem providencial. O agora Presidente apontou sempre que os portugueses – incluindo os que votam no Chega – têm boas razões de queixa do sistema político; e que a função presidencial tem de ser posta ao serviço de mudanças concretas. Lembrou-o no discurso de tomada de posse, ao listar um longo rol de desafios e a comprometer-se com a estabilidade e a exigência necessárias para os enfrentar.
Também nessa coerência programática, o novo Presidente é a antítese de Marcelo Rebelo de Sousa, génio consagrado desde pequenino que sai com um legado medíocre – veja-se o que fica do seu empenho pessoal em acabar com os sem-abrigo. Marcelo foi entronizado em Belém por décadas de mediatismo acrítico e pelo consenso mole dos partidos centrais do regime; Seguro ganhou as eleições voto a voto, contra (inicialmente, pelo menos) o seu próprio partido, cara a cara com os eleitores. Seguro é um homem de Penamacor que insiste em viver nas Caldas, duplamente fora da capital cortesã; Marcelo é filho da corte, praticante da política (e da intriga) por desporto e não por convicção, herdeiro natural de todos os regimes: visita assídua do padrinho Marcelo Caetano, com quem jantava todas as semanas, deputado constituinte e delfim da democracia, presidente vitalício da fundação da casa real.
Na democracia ou mesmo no Estado Novo, se por funesta hipótese tivesse sobrevivido até hoje, Marcelo teria sido o que foi até segunda-feira: um cortesão educado numa bolha de boas relações e privilégio para ser estadista de qualquer Estado. Foi Presidente da República sem apresentar programa ou propósito, quis sê-lo porque nasceu para isso, mas nunca soube (até hoje) para que é que queria ser Presidente – para concretizar o quê? Foram dez anos em manobras, a deitar água em qualquer fervura e a virar o bico ao prego quando a proteção do status quo se revelava impopular – tática que teve como corolário trágico acabar a distanciar-se do próprio filho.
Em contraste, António José Seguro foi eleito, não foi ungido. Vem com sentido de urgência ao ver, em Portugal e no mundo, a democracia e o Estado de Direito em perigo. Vem com vontade de fazer. O que se lhe pede – o que eu lhe peço – não é que se substitua ao Governo ou ao Parlamento, ou que seja um fator de intrigas ou de instabilidade que os portugueses, fartos de eleições, não desejam. O que lhe peço é que eleve o debate. É que, na discussão dos muitos problemas do país, convoque a sociedade civil, trace metas exigentes para o que tem de ser tratado e garanta que as instituições democráticas não fogem às tarefas. Que use a sua maioria histórica para convocar os portugueses à discussão, com um padrão de exigência alto, que repudie “reformas” em cima do joelho, sem fundamentação nem nexo, para servir interesses. Que exija e aplique transparência e prestação de contas. Que imponha que os partidos se definam nas questões essenciais, em vez de fugirem a elas, e que a partir dessa clareza se negoceiem os compromissos desejáveis (ou os possíveis) para que alguma coisa mude, de facto, e para melhor. (E também lhe peço, já agora, que não se faça fotografar de calção de banho e tronco nu na praia. Se puder ser).
A missão parece clara, mas não será fácil. Espero que António José Seguro seja o Presidente improvável capaz de a concretizar. A margem de erro, todos os sabemos, será curta.
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