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Pacheco Pereira assume um frente-a-frente “difícil” com Ventura: "Ele não acredita em nada do que diz"

Francisco Máximo Gaié 14 de abril de 2026 às 19:30
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Historiador considera que não debater com o líder do Chega é uma atitude “nefelibata e elitista”, pelo que o 'confronto' é necessário para “expor as falhas no discurso de Ventura".

Há uma consideração que José Pacheco Pereira retira do seu frente-a-frente com André Ventura na noite de segunda-feira: “É sempre um debate difícil”. O historiador e antigo deputado pelo Partido Social Democrata (PSD) afirma à SÁBADO que “é natural que as pessoas gostassem de um debate diferente”, por haver sempre “riscos” e “ruído” associados a um confronto desta natureza. No entanto, rejeita a ideia de que não se deve discutir com o Chega.

Pacheco Pereira debateu, esta segunda-feira, com André Ventura
Pacheco Pereira debateu, esta segunda-feira, com André Ventura Alexandre Azevedo

Num debate marcado por muitas interrupções, houve espaço para André Ventura considerar “boas” as coisas que Portugal fez durante a colonização, além de acusações de pouco patriotismo e números apresentados por Pacheco Pereira para refutar as afirmações do líder do Chega. Houve também espaço para uma palmatória, embora ninguém lhe tivesse dado a mão.

O debate que juntou Pacheco Pereira e o presidente do Chega teve lugar na segunda-feira à noite na e tinha duas regras impostas pelo historiador: não haver troca de insultos e que todas as afirmações fossem apoiadas por documentação. Mas o colunista da SÁBADO admite que já sabia que “não iam ser cumpridas na íntegra”...

Mesmo assim, defende que o confronto de ideias “foi relevante” e que o fará quantas vezes conseguir, sublinhando a importância de “expor argumentos num mundo muito dominado pela emoção”.

Debater com André Ventura importa, considera o professor, “porque os argumentos funcionam como um mecanismo viral”, levando o público a questionar-se sobre temas como o racismo e a crueldade. “Não nos devemos esconde [do] Ventura porque isso permite que ele diga o que quer sem ter contraponto”, acrescenta.

O debate foi inicialmente marcado pelo tema dos presos políticos, o mote que levou Pacheco Pereira a desafiar André Ventura para o 'confronto', depois de o presidente do partido ter dito na  da Constituição da República Portuguesa que “pouco tempo depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que antes do 25 de Abril de 1974”.

Baseando-se no historiador Rui Ramos, Ventura garantiu que existiam, a 24 de abril de 1974, 200 presos políticos e que depois da revolução esse número seria de dois a três mil detidos. Já Pacheco Pereira argumentou que na véspera do 25 de Abril havia na metrópole 127 presos políticos e nas colónias 4.249.

O antigo deputado do PSD lamenta não haver mais tempo para debater sobre Marcelino da Mata, que “foi torturado pelo MRPP em 1975”, mas que considera ter sido “o assassino profissional do Exército Português”, que “matava indiscriminadamente”. Por isso mesmo considera inaceitável a proposta do Chega em querer dar o nome de Marcelino da Mata a uma rua em Lisboa, substituindo o nome do histórico fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC), Amílcar Cabral.

Não nega a componente política do debate, porque apesar de histórico, “a história tem sempre uma interpretação política”. Por isso, Pacheco Pereira considera que André Ventura aproveitou o debate para “falar para a sua clientela”.

Do frente a frente Pacheco Pereira retira uma conclusão: a de que “sem dúvida nenhuma” houve uma tentativa de branqueamento do Estado Novo por parte de André Ventura, acrescentando que “ele [o líder do Chega] nunca foi tão longe em caraterizar o 25 de Abril como uma coisa péssima”. Mesmo assim deixa uma última nota: “Ele [André Ventura] não acredita em nada do que diz”.

SÁBADO contactou o Chega no sentido de apurar as considerações de André Ventura sobre o debate, mas não obteve resposta até à hora de publicação deste artigo.

Com Isabel Dantas

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