Sábado – Pense por si

Nuno Cunha Rolo
Nuno Cunha Rolo Consultor
31 de maio de 2026 às 08:10

"Lendas", funcionários públicos que servem o país e salvam vidas

Há séries que entretêm, há séries de que gostamos, mas há, raramente, séries que nos fazem ficar ao longo dos créditos. Uma metáfora de um novo olhar para uma parte do mundo, do nosso mundo, de forma diferente. “Lendas” é uma delas.

«Não se trata de dinheiro ou promoção… Trata-se de oferecermos a quem for adequado uma nova vida, uma nova realidade de aventura, perigo e a oportunidade de servir o vosso país. Será o maior desafio das vossas vidas e só alguns de vós serão capazes de o enfrentar.»

Blake, “Lendas”

O enredo

Trabalham todos no mesmo serviço público britânico, a Alfândega e Impostos de Sua Majestade, com trabalhos comuns e como pessoas normais, e frustradas.

Há uma secretária. Uma inspetora do IVA. Uma mulher do Liverpool que cresceu a ver a heroína consumir a sua rua. Um filho de imigrantes habituado a ser o último a ser ouvido numa sala. Um agente de segurança do aeroporto. Um ex-agente infiltrado, Don, na prateleira, cansado, sobrando em uma instituição que nem sabia bem o que fazer com ele, a quem compete liderá-los no terreno. E Blake, o diretor do serviço, ameaçado com demissão pelo Ministro do Interior com a pressão pública de aumento de overdoses em jovens no país, dos mais ricos aos mais pobres, e da invasão de quantidades maciças de heroína, oriundas do estrangeiro.

Perante este cenário, Blake lança o desafio ao membro do Governo para mostrar grandes resultados: criar uma equipa de infiltrados para combater este flagelo da droga, apenas com funcionários intrinsecamente motivados e vocacionados, dispostos a arriscar a vida ao serviço do seu país e continuar as suas vidas quando a missão terminar. Desafio aceite.

Não há orçamento, tempo, tecnologia, treino, promoção e estatuto, mas há talento e integridade!

Afinal, a secretária, Erin, é um génio administrativo com um dom especial de memória e para o cruzamento e análise de documentos, essencial para que os seus colegas não sejam descobertos pelos criminosos (e outros polícias), i.e., não sejam mortos. E ainda fala alemão.

A inspetora, Kate, representa as pessoas de origens operárias e viu de perto a devastação das drogas na sua terra natal, motivação que prémios da função pública não conseguem substituir.

O filho de imigrantes, Bailey, carrega na pele negra o racismo silencioso das instituições, mas não encontramos em nenhuma lei ou regulamento. Por estar habituado ao segundo plano e não gozar do benefício da dúvida ou de tolerância ao erro, sabe esperar, lê uma sala em segundos, só abre a boca quando tem a certeza e não corre riscos desnecessários.

Por fim, o segurança, Guy, um talentoso e corajoso agente infiltrado, a quem nunca nenhum criminoso descobrirá o seu verdadeiro nome. Por sinal, o único personagem da série, juntamente com Mylonas, seu parceiro delinquente nesta missão, com correspondência numa “lenda” da vida real. Precisamente , autor da obra “O Traidor: Como uma Unidade Secreta Infiltrou-se no Comércio Global de Drogas” (em português, ainda sem tradução) na qual é inspirada a série. O seu verdadeiro nome continua secreto e ao fim de 11 anos e meio Guy Stanton teve de ter uma morte oficial, sob pena de colocar em perigo ele e a família devido aos inúmeros gangsters com quem se cruzou e colocou na prisão.

Todos florescem, mas só neste ambiente, porque pela primeira vez estão num lugar onde tudo o que sempre tiveram é exatamente o que precisam. Não será este um dos segredos da boa gestão de pessoas? No essencial, é esta a história resumida da minissérie “”, (NETFLIX), estreada este mês e baseada em factos verídicos, ocorridos nos anos 90. Com efeito, nesta época foram recrutados agentes infiltrados britânicos sem treino e com tarefas ordinárias que arriscaram a sua vida por resultados inigualáveis neste domínio deste serviço público, culminando, só neste período, na captura de mais de 12 mil toneladas de droga, com valores de mercado de rua de mais de bilião de libras.

Lendas é a designação dada às personas ou personagens alternativas dos agentes infiltrados em grupos de contrabandistas, traficantes e traficantes, que arriscam a sua vida, para sempre, e os seus falhanços podem custar vidas, incluindo inocentes. Como diz Don, “quando as lendas não resultam, pessoas morrem”.

No entanto, as lendas são pessoas comuns, com muito pouco treino e experiência, que trabalham em circunstâncias incertas e perigosas, com gente nada recomendável, e cuja única ambição é realizar o objetivo da operação e sair vivo dela.

Para isto acontecer, não há muita margem para falhar, tanto os dirigentes, no recrutamento e seleção, como os operacionais, na sua vocação e integridade. Sem as pessoas certas, no sítio certo, com autonomia total para decidir como agir, as coisas não resultam. E resultou porque não era o talento e os recursos que faltavam, era a confiança de alguém – dirigente - que soubesse reconhecer o seu talento e tivesse a coragem de os deixar trabalhar na função para a qual estavam vocacionados e motivados. Não serão estes segredos da boa gestão de pessoas?

As lições

Várias leituras e lições podem ser retirados do enredo desta série. Muitas no domínio da gestão pública, sobretudo de recursos humanos, mas também de reforma do estado e da administração pública.

A primeira lição é que grandes mudanças não exigem grandes estruturas. Exigem um punhado de pessoas certas, motivadas, com a autonomia e o poder político a apontar na direção certa. Don não tem um exército, tem cinco pessoas e dois dirigentes, público e político, do Estado que, por uma vez, confia. E isso é suficiente para desmantelar cartéis internacionais, ou melhor, para atingir grandes resultados, poupar orçamento e salvar vidas.

A segunda lição é o sentido e valor da vocação, algo que o dinheiro não consegue comprar. Nenhum destes personagens estava ali pela carreira, promoção ou reconhecimento. Guy arriscava a identidade, o casamento e a sanidade. Kate trabalhava no meio dos efeitos das drogas que combatia porque sabia o que custavam. Bailey crescia em cada missão, porque finalmente alguém o via. A vocação não é um recurso humano. É a diferença entre uma instituição que funciona e uma que apenas existe, porque vocação clama conhecimento e este alimenta a competência.

A terceira, e talvez a mais difícil de aceitar, é que as lideranças medíocres destroem este tipo de talento todos os dias, amiúde silenciosamente. Não com um despedimento, nem tanto com uma despromoção, antes com tarefas inúteis, hierarquias rígidas, processos datados, projetos alienados, enfim, com oportunidades perdidas, nalguns casos ad eternum. Este é, provavelmente, um dos comportamentos mais irresponsáveis destes, supostos, responsáveis.

“Lendas” mostra o que acontece quando alguém, por uma vez, escolhe com audácia, propósito, vocação e mérito. O resultado é extraordinário. E estes não são raros, raras são as séries de televisão, e discussões públicas sobre a Reforma do Estado, que os mostram.

Uma história portuguesa

Ao escrever agora estas palavras, recordo-me da notícia recente, muito similar com a da série, ocorrida em Portugal. Um inspetor da Polícia Judiciária, com o nome de código "Tango" — conhecido no mundo do crime apenas como "Miguel" — foi autorizado por um juiz a infiltrar-se numa célula do Primeiro Comando da Capital, mais conhecida como PCC, uma das maiores organizações criminosas do Brasil e da América Latina, e considerada a perigosa máfia brasileira com tentáculos por toda a Europa (recentemente, o Departamento do Tesouro dos EUA descreveu-o como “”).

Os traficantes propuseram-lhe uma missão simples: receber a droga em alto mar e trazê-la para Portugal, em troca de um milhão de euros. Miguel aceitou, exigiu 120 mil adiantados, e a operação avançou. Uma tonelada e duzentos quilos de cocaína atravessaram o Atlântico e chegaram ao Algarve no dia 10 de março. Miguel recebeu cerca de meio milhão de euros, como parte do pagamento, e quando o Cartel dos Balcãs se preparava para levar a droga para o Leste da Europa foram todos detidos. Quase ninguém sabe o verdadeiro nome de "Tango", resta a notícia e a sua “lenda”. Como tantos milhares de outros funcionários públicos, assim funciona o serviço público nas suas milhares de missões: sem holofotes e sem reconhecimento.

Desafios

Parafraseando Tony Judt, há algo de profundamente errado na forma como vivemos e olhamos o serviço e o funcionário público. Incluindo, por alguns funcionários públicos. A ignorância e arrogância são as principais causas deste problema e armas dos seus detratores, inclusive entre colegas da mesma organização, mas também de políticos e dirigentes.

Faltam obras, de qualquer arte e literatura, que valorizem as funções públicas, incluindo as exercidas por privados, através de histórias reais de serviço e de funcionários públicos, tão pouco visíveis, quanto vitais e essenciais. Obras reveladoras da dimensão sistémica e complexa da atividade pública, mostrando que muitos riscos públicos não são visíveis até falharem (não faltam exemplos, na saúde, energia, segurança alimentar, ciência, dados, meteorologia, gestão de crises). Obras que mostrem como os Estados funcionam graças a milhares de pessoas anónimas que gerem sistemas críticos sem que ninguém saiba os seus nomes.

E autores que nos ajudem a compreender que o serviço público não é uma abstração burocrática, mas uma infraestrutura ética e humana da sociedade e do seu bem-estar, sustentada, não apenas em leis, discursos, políticas ou reformas, antes, na competência discreta, na integridade silenciosa e no sentido de dever daqueles que, longe dos prémios e aplausos, impedem que o essencial falhe e que o dever e a finalidade se cumpram.

Termino com Tony Judt, e recordo-me de ler a sua perplexidade sobre uma das causas do nosso descontentamento atual sobre o mundo em que vivemos, o “desdém pelo setor público”. Na verdade, já referi em cima a audácia e a coragem, acrescento ainda a humildade. Todas absolutamente necessárias para se perceber que o que sustenta o estado, e o mundo, raramente aparece nos títulos dos jornais. O essencial aparece quando desaparece.

Por isso, precisamos de mais séries, filmes e livros sobre o serviço público e os funcionários públicos, para sermos mais cultos sobre a arte da vida em comum e sobre aqueles que, todos os dias, trabalham especialmente para a servir.

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