Repórter da SÁBADO questionava deputados do PSD sobre voto na segunda volta e foi abordado por três agentes. Secretária-geral do Parlamento admite excesso de zelo e diz que houve uma queixa (que recusa dizer de quem) por "comportamento considerado suspeito". Queixa terá vindo da bancada do PSD
Era uma reportagem no terreno - especificamente nos corredores da Assembleia da República, onde jornalistas estão autorizados a circular, trabalhar e abordar deputados - e apenas direcionada aos deputados do PSD, nomeadamente sobre em quem iriam votar nestas Presidenciais, uma vez que o PSD e o Governo, ambos liderados por Luís Montenegro, indicaram que nem o partido nem o executivo estavam representados na segunda volta e não iriam tomar posição, o que dava uma certa liberdade de voto aos deputados.
Jornalista impedido de questionar deputados do PSD no Parlamento
A SÁBADO começou por recolher depoimentos nas galerias de São Bento na tarde de dia 20 de janeiro. À hora de almoço de dia 21, Hugo Soares, presidente do grupo parlamentar do PSD, saiu do
seu gabinete na Assembleia da República, entrou no elevador e virou-se para o repórter: “Já disse aos
meus deputados para nenhum deles falar consigo.” A partir daí tudo mudou. Deduz-se que tenha sido
imposta uma lei da rolha e, para o reforçar, uma assessora
do grupo parlamentar foi posta de plantão à porta do gabinete. E, de facto, os deputados questionados a seguir não revelaram em quem iam votar, nem se
alargaram nos comentários (ao contrário do que sucedera no dia anterior). Poucas horas depois, a SÁBADO foi abordada por
vários elementos do corpo de segurança da Assembleia da República.
A primeira abordagem, pelas 17h30, foi feita por dois elementos que se
identificaram como “agentes do serviço de segurança” da AR. Os dois agentes
solicitaram identificação do jornalista, que foi concretizada oralmente e pela
exibição do crachá de imprensa que foi dado na portaria da AR contra entrega de
carteira profissional de jornalista. A partir do momento em que o jornalista se identificou como tal no
exercício de funções para a revista SÁBADO e em local autorizado, os dois seguranças questionaram o jornalista sobre o que estava a fazer na Assembleia da República, se era a sua primeira
vez no local e que perguntas estava a fazer aos deputados.
Os dois seguranças deram ordem de retenção ao jornalista até
chegada de um “superior”, que chegou pouco depois e se identificou como “tenente Lopes”. Este informou o jornalista da SÁBADO que “houve deputados que se
queixaram” de perguntas feitas pelo mesmo, e que tinham “ficado incomodados”. Perguntado que deputados tinham feito essa
queixa, respondeu: “Não podemos dizer”.
Deduz-se por esta declaração que a queixa tenha vinda do PSD, até porque só a sua bancada estava a ser abordada no terreno.
Informou ainda o tenente Lopes que o jornalista da SÁBADO estava a “fazer um inquérito a deputados” e que, se o estava a fazer,
não podia prosseguir, tendo de pedir “autorização formal dos serviços de
comunicação da Assembleia da República”. Posto isto, o tenente Lopes informou o
jornalista da SÁBADO que não podia continuar a fazer perguntas a deputados.
O caso Joacine e o puxão de orelhas
Recorde-se que em 2019 houve um caso semelhante envolvendo este corpo de segurança, a propósito de uma escolta feita no Parlamento à deputada Joacine Katar Moreira para evitar perguntas dos jornalistas. O presidente da Assembleia da República na altura, Ferro Rodrigues, pediu explicações internas. “Ao serviço de segurança compete garantir a segurança física dos deputados, dos funcionários, dos membros do Governo que aqui estejam, até dos jornalistas. O que aconteceu não foi normal porque não estava em causa a segurança física da deputada”, declarou na altura o secretário-geral do Parlamento, Albino de Azevedo Soares, citado pelo Público.
Albino Azevedo Soares vincou ainda ao Público que “quando os deputados não querem, não prestam declarações, mas não pedem que um elemento da segurança os acompanhe para evitar perguntas dos jornalistas”. Além disso, “também não é normal o serviço de segurança prestar-se a um serviço para o qual não está incumbido”.
O atual presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco (eleito pelo PSD), não respondeu ao pedido de esclarecimento da SÁBADO sobre o agora ocorrido.
Anabela Cabral Ferreira, atual secretária-geral da Assembleia da República, respondeu à SÁBADO que o Parlamento "é um espaço com regras próprias de circulação e permanência, destinadas a
garantir a segurança e o normal funcionamento dos trabalhos parlamentares" e que "existem espaços específicos para o trabalho dos
jornalistas".
Depois, entrando no caso em concreto, referiu: "Na sequência de uma comunicação interna sobre um
comportamento considerado suspeito, os serviços de segurança atuaram no
cumprimento das suas competências legais e regulamentares. Embora se reconheça
que a abordagem possa ter sido percecionada como inibidora, a atuação visou
exclusivamente a salvaguarda das pessoas, dos serviços e do património."
Não foi esclarecido que "pessoas, serviços e património" estiveram em perigo e, numa segunda ronda de perguntas, Anabela Cabral Ferreira também não quis responder quem fez a “comunicação interna”, qual o destinatário e qual o “comportamento considerado suspeito”.
Referiu contudo - no que parece uma assunção de excesso de zelo - que, "reafirmando o compromisso com a manutenção
de relações institucionais pautadas pela correção, clareza e urbanidade, foram
reforçadas junto dos elementos do Serviço de Segurança as orientações relativas
à forma de comunicação e interação funcional no exercício das suas atribuições".
Hugo Soares garantiu à SÁBADO não ter nenhuma responsabilidade na atuação da equipa de segurança do Parlamento, desconhecendo quem fez a queixa.
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