O artigo do Primeiro-Ministro para o Observador pertence claramente à terceira categoria: um exercício de auto-incensação em que o Governo surge como milagreiro de uma Pátria sem rumo.
Há textos que informam. Há textos que argumentam. E há textos que limitam a erguer um arco do triunfo à volta de quem os escreve. O artigo do Primeiro-Ministro para o Observador pertence claramente à terceira categoria: um exercício de auto-incensação em que o Governo surge como milagreiro de uma Pátria sem rumo.
Luís Montenegro começa por invocar Sá Carneiro e a modéstia do “exercício singelo e discreto” de governar. O problema é que, mal a citação termina, começa precisamente o contrário: uma longa procissão de louvores e medalhas ao peito, que faz lembrar o meme do Obama a dar uma medalha a si próprio. Discrição, pelos vistos, é uma virtude que fica bem escrita e não praticada. Como diria o leite Matinal, “se eu não gostar de mim… quem gostará?”
O texto assenta numa fórmula antiga e eficaz: pintar o país herdado como um quase campo de ruínas e, em seguida, apresentar cada medida do executivo como se fosse uma refundação nacional. Tudo estava em colapso, tudo era caos, tudo era bloqueio e agora, com o Luís ao leme, tudo foi salvo. É uma narrativa confortável: a primeira parte até é verdadeira porque o PS deixou o país à deriva. O problema vem a seguir, porque o Luís ainda não nos levou a bom porto.
A sucessão de números é outro truque revelador. O texto despeja milhões, milhares, percentagens, metas e recordes com a convicção de que a abundância estatística dispensa demonstração. Como se a simples enumeração fosse prova bastante. Mas números sem contexto são adereços. Baixar impostos pode significar alívio real ou mero efeito cosmético. Tirando o IRS Jovem, que resulta de uma enormíssima discriminação etária para com quem não é jovem, não há baixas de impostos relevantes. Adicionalmente, não é o IRS Jovem que vai travar a imigração: a partir dos 35 anos os incentivos continuam lá para sair do país. Como liberal, eu peço impostos baixos para todos, independentemente da idade. Infelizmente, o Luís não consegue fazê-lo. Nem aí, nem no IRC, que, apesar das descidas, continua a ser dos mais elevados da OCDE e, por isso, nada competitivo.
Na habitação, por exemplo, o tom é quase messiânico. O Governo apresenta-se como quem finalmente pôs mãos à obra perante uma crise que outros ignoraram. Mas a habitação não se resolve por decreto retórico. Há uma grande diferença entre anunciar 133 mil casas (até 2030) e construí-las. Porque entre a conferência de imprensa e a chave na porta vai uma distância enorme. E é nessa distância que muitos governos se perdem, mesmo quando escrevem artigos tão satisfeitos consigo próprios. E isto acontece, porque os licenciamentos e as burocracias associadas à construção continuam a infernizar promotores deixando as casas mais caras. O falhanço do Governo tem um número: entre o seu primeiro pacote de medidas, em 2024, e o final de 2025, o preço das casas aumentou 27%. Só no ano passado foram 17,6%, o maior aumento anual desde que há registo. Se, afinal, está tudo tão melhor, por que é que os preços estão tão altos?
Na saúde, o argumento segue a mesma lógica: reconhece-se a degradação, enumera-se a ação, proclama-se a recuperação. Tudo muito arrumado no papel. Só que o SNS não se mede apenas por linhas de balanço administrativo (nem discursivo). Mede-se na dificuldade em conseguir consulta, na espera para cirurgias, no cansaço dos profissionais, na confiança das famílias. Dizer que “não está tudo feito” é um raro momento de moderação num texto
que, de resto, vive da ideia de que quase tudo já está encaminhado graças à clarividência governativa. É uma frase prudente encaixada num parágrafo triunfalista. Um pequeno pedido de humildade perdido no meio da parada.
Dou de borla dois temas: na educação, até ver, há que ser justo, parece que estamos perante a melhor área de atuação do Governo, sobretudo na diminuição de horários sem professor atribuído. Contudo, os portugueses continuam sem vagas para pôr os seus filhos nas creches. Já na imigração, o descalabro a que o PS nos remeteu era tal, que era impossível não fazer melhor. O fim da manifestação de interesse (que nunca deveria ter acontecido) era o mínimo, num âmbito que era uma urgência nacional. Esperemos pelos próximos episódios das leis aprovadas esta semana, que devem ocorrer no Tribunal Constitucional.
Mas estes aspectos não retiram a verdadeira natureza do texto: não um balanço, mas uma encenação. Um texto em que o Primeiro-Ministro descreve o seu Governo como sereno quando quer parecer forte e humilde quando quer parecer vaidoso. É uma peça de auto-elogio, onde o mais curioso é que o texto começa por elogiar a discrição e termina mergulhado numa liturgia de auto-confiança. O país quase desaparece sob o peso da narrativa oficial. As dificuldades concretas cedem lugar ao brilho do enredo. A governação transforma-se numa espécie de biografia autorizada, escrita em tempo real pelo próprio biografado.
Portugal, contudo, não vive em artigos de opinião escritos pelos assessores e assinados pelo Primeiro-Ministro. Vive no atrito entre anúncio e execução, promessa e resultado, discurso e acção. E é aí que qualquer Governo deve ser julgado: menos pelo talento com que se celebra e mais pela evidência com que melhora a vida dos portugueses.
Porque governar, apesar de toda a pompa literária, continua a ser uma tarefa menos épica do que o artigo sugere e bastante mais difícil do que a propaganda deixa parecer. Enquanto a taxa de bazófia do Primeiro-Ministro está aí a bater ferros, a vida dos portugueses está a bater no fundo
O artigo do Primeiro-Ministro para o Observador pertence claramente à terceira categoria: um exercício de auto-incensação em que o Governo surge como milagreiro de uma Pátria sem rumo.
Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
Neste universo mental, a política internacional não é um confronto entre regimes com valores incompatíveis. É uma sequência de pareceres jurídicos, notas de rodapé e interpretações doutrinárias que fazem jurisprudência gerando precedente em que a moral é relativa.
O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.