Socialistas foram a Viseu pedir ao líder reeleito mais exigência para com o Governo, mas não necessariamente um bloqueador. Carneiro prometeu mudança de atitude e foco na construção da alternativa para o País. Quer governar sem concretizar quando e traçou um caminho à lá Seguro.
José Luís Carneiro inaugurou
uma nova era da sua relação com o Governo de Luís Montenegro, em Viseu, no seu
primeiro congresso como líder do PS, neste fim-de-semana. Vai deixar de enviar
cartas ao primeiro-ministro, depois de todas as que escreveu terem ficado sem resposta. Dezenas
de socialistas pediram ao líder mais exigência, uma oposição mais aguerrida e concreta
- variando apenas nos “decibéis” do tom que aconselharam a adotar com
Montenegro. Carneiro prometeu-lhes que a partir de agora terá de ser o PSD a
procurá-lo. Comprometeu-se com uma “oposição responsável, construtiva, mas firme”,
todavia, esta firmeza deixou mais dúvidas do que respostas, visto que os
ataques ao Executivo, no discurso de encerramento, passaram pela constatação de
que o Governo não está a governar bem.
José Luís Carneiro no 25.º Congresso Nacional do PS, em Viseu. O seu primeiro enquanto líderLusa
Ainda assim, houve dois
aspetos que ficaram mais claros na afinação da estratégia política do secretário-geral
do PS. O primeiro foi o foco no posicionamento do partido como a "alternativa
para o País”. José Luís Carneiro quis vincar que – independentemente do crescimento
eleitoral do Chega – o PS é o único partido preparado para governar. E o
segundo aspeto foi a clarificação da ambição de regressar ao poder, esplanada na
apresentação de prioridades que quase poderiam ser um programa de governo em
várias áreas da saúde, à justiça, à habitação, e que “culminará na nossa vitória
nas próximas legislativas”, afirmou no discurso final. Por clarificar ficou qual
o horizontal temporal destas eleições para Carneiro.
Entre o que disse e as
entrelinhas do que disse não se vislumbrou qualquer vontade de Carneiro em perturbar a
governação de Montenegro (que tem mais três anos e meio de mandato pela frente). O socialista continuou a garantir disponibilidade para auxiliar o Governo em matérias
estruturais, nomeadamente na aprovação de um hipotético orçamento retificativo por
causa dos danos dos temporais do início do ano. E mostrou-se mais interessado em percorrer
o caminho (lento e alvo de descrença no início) que levou António José Seguro à Presidência da República.
Quis falar sobre
temas, “reformas” para o País; apresentar o PS como um partido aberto (vai
recuperar os “estados gerais” de Guterres para elaborar propostas e abrir este
espaço à sociedade civil – de notar que um dos “obreiros” deste estados foi
precisamente o jovem António José Seguro). Quis passar a ideia de um partido
moderno e jovem (no congresso houve direito a speed dates com dirigentes e envelopes com
frases motivacionais).
O secretário-geral foi ainda buscar várias das mensagens de Seguro: colocar os jovens no centro das preocupações (sem esquecer os mais velhos, o eleitorado-tipo), ter como prioridades a saúde e a desigualdade salarial entre homens e mulheres, a economia
e o tecido empresarial. Introduziu palavras no discurso como “esperança” e
concentrou-se no futuro, estabelecendo que seria possível regressar ao poder
com a ajuda de todos “os humanistas”, “com coragem, determinação e serenidade”
(tudo palavras do campo semântico da campanha de Seguro). Carneiro fez ainda uma
referência a que este caminho pudesse conduzir o partido ao poder, já que no
passado recente os “humanistas” conquistaram “mais de três milhões de
votos” – Seguro obteve 3.505.846 votos (66,83%) na segunda volta das eleições Presidenciais
contra André Ventura.
Entre os congressistas –
que não chegaram a encher o pavilhão multiusos de Viseu – a abertura do PSD
para o Chega nomear um juiz para o Tribunal Constitucional marcou dezenas de
intervenções e foi ponto de partida para os muitos pedidos de definição da
relação entre os socialistas e o Governo. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva foi dos mais enfáticos a pedir “consequências”: “Se o PSD
anda de braço dado na rua com a extrema-direita, a escolha é dele. Mas o PS
estará do outro lado da rua.”
Por sua vez, o
eurodeputado e antigo presidente doConselho Económico e Social
Francisco Assis defendeu: “temos de ter força para fazer os compromissos
necessários, mas também as ruturas que se exige.” Entre os compromissos, muitos
dos dirigentes que subiram ao palanque do XXV Congresso inscreveram o Orçamento
do Estado, “uma coisa de adultos e que exige responsabilidade” apontou o deputado António
Mendonça Mendes.
Outros socialistas colocaram
o foco na necessidade de definição interna para obter reconhecimento externo. "O PS tem de escolher quais as
áreas em que quer entendimentos e em quais quer ser oposição. Não dá para ser
em todas. Não dá para ser em nenhuma”, instou o parlamentar e ex-líder da JS,
Miguel Costa Matos, primeiro subscritor da moção setorial “Socialismo com
Futuro”. Moção que pede à direção “coerência” na sua relação com o Governo e uma “postura
mais forte”. Carneiro ouviu-os e prometeu a já citada “firmeza”. Resta saber em
que consistirá.
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