A ousada e improvisada Operação Mar Verde foi há 50 anos. O que correu mal?

A ousada e improvisada Operação Mar Verde foi há 50 anos. O que correu mal?
Sara Capelo 22 de novembro de 2020

Calvão queria libertar os prisioneiros portugueses em Conacri. Spínola forçar um golpe de Estado para tentar vencer o PAIGC. O historiador José Matos traça num novo livro os bastidores da missão.

Dois homens, uma operação. O cérebro, Alpoim Calvão, queria libertar os prisioneiros portugueses em Conacri e imaginou uma operação numa madrugada, a de 22 de novembro de 1970 (também um domingo, como este dia em que se assinalam os 50 anos da missão). Por sua vez, o comandante chefe das Forças Armadas na Guiné Bissau antevia a perda do território para o PAIGC e somou ao projeto de Calvão outro objetivo: tentar um golpe de Estado para que a Guiné Conacri deixasse de ser um local amigo dos guerrilheiros de Amílcar Cabral.

Ao todo, contabiliza o historiador José Matos, chegaram a estar marcados 50 alvos num ataque das forças portuguesas em conjunto com a Frente Nacional da Guiné. Mas num ataque planeado para apenas uma madrugada, passaram os alvos para cerca de metade. Se os prisioneiros lusos regressaram, em quase tudo o resto a missão (que contou sobretudo com militares negros, como comandos ou fuzileiros africanos, para despistar a participação portuguesa) falhou. Isso mesmo conta o historiador José Matos nesta entrevista à SÁBADO e no livro sobre a Operação Mar Verde, assinado com Mário Matos e Lemos. Ataque a Conakry, História de um Golpe Falhado é editado pela Fronteira do Caos. 

A RFI fez um trabalho recente [em francês] sobre a operação Mar Verde e que dá uma perspetiva muito distinta da que existe em Portugal: fala em 517 mortos, por exemplo.

A questão do número de baixas que foram causadas lá é polémica. Nunca vamos saber ao certo. As baixas deles foram principalmente pessoal militar ou paramilitar, porque a população não esteve praticamente envolvida no conflito. Há um quartel da Guarda Republicana (Campo Boiro) em que houve uma série de baixas. Noutro campo militar, também: era onde funcionava o Estado Maior das Forças Armadas guineanas e tinha sido combinado, como conto no livro, que, no caso de haver um ataque, era ali que [os militares da Guiné-Conacri] iam encontrar as armas para reagir – porque o [presidente] Sékou Touré desconfiava de algo. Na residência de Touré também houve duas sentinlas abatidas.

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