Professores e pais protestam contra a digitalização no processo de correção dos exames
Uma das organizadoras criticou ainda o modelo digital de correção dos exames nacionais, indicando que implica fornecer dados à inteligência artificial.
Professores e pais protestaram esta quinta-feira, em Lisboa, contra a digitalização na educação e processos de classificação que consideram estar a prejudicar os alunos, quando se registaram falhas no novo modelo de correção digital dos exames nacionais.
"Houve dezenas, centenas de professores que disseram publicamente que não aceitavam classificar itens, que não aceitavam trabalhar ao sábado e ao domingo, que não aceitavam começar a classificar itens às 11 da noite, porque isso não daria nenhum tipo de segurança daquele processo", disse à Lusa uma das organizadoras da vigília, a professora e historiadora Raquel Varela.
Raquel Varela criticou ainda o modelo digital de correção dos exames nacionais, indicando que implica fornecer dados à inteligência artificial (IA).
"É um processo que nos desvincula do processo educativo. A digitalização significa um retrocesso do desenvolvimento cerebral dos nossos alunos", acrescentou Raquel Varela, indicando que com a iniciativa espera conseguir ter uma "escola onde os professores não tenham que entregar dados sistematicamente à IA".
Para os organizadores, "educar não é digitalizar. Avaliar não é digitalizar".
Por volta das 21:00 estavam perto de 50 professores, também pais, tios e alunos, numa vigília, em Lisboa, em frente à Assembleia da República.
"Estamos a viver um momento muito grave em termos de educação", disse à Lusa a professora e tia de um aluno que está a concorrer para o ensino superior, Margarida Caldeira.
Margarida Caldeira referiu que a classificação dos exames nacionais não pode ser feita "a correr sob a pena de serem os alunos os prejudicados".
Na vigília também estava Fernando Cruz, pai de um aluno do 12.ºano, que admitiu à Lusa estar "preocupado com o que se sucedeu nas últimas semanas" e considerou ser inadmissível que os exames corram mal por causa de um processo de classificação que não é da responsabilidade do seu filho.
"A sucessão de notícias sobre os exames nacionais, toda esta polémica não é saudável e acho que um aluno não tem de se preocupar com este género de coisas. Não tem de estar a pensar se o seu exame foi bem digitalizado, se as folhas de continuação aparecem ou não", disse Fernando Cruz.
O protesto, organizado por um grupo de professores, destinou-se a demonstrar que estão contra "a destruição da educação em nome de um alegado progresso e inovação".
Além do evento em Lisboa, segundo a organização, também se realizaram vigílias à mesma hora em Coimbra, no Porto e na Covilhã.
Pela primeira vez este ano, os exames nacionais do ensino secundário estão a ser avaliados em formato digital, mas o processo tem registado falhas técnicas desde o início e, devido aos constrangimentos, o Ministério adiou, em quatro dias, os prazos inicialmente previstos.
Hoje, no Parlamento o ministro da Educação, Fernando Alexandre, manifestou-se confiante de que todas as notas dos exames nacionais do ensino secundário serão publicadas na sexta-feira à tarde.
"Tivemos uma excelente recetividade [dos professores], as avaliações estão a decorrer e estamos muito confiantes que amanhã [sexta-feira] à tarde publicaremos as notas de todas as disciplinas", declarou aos jornalistas no final do debate sobre o estado da nação.
O prazo para concluir a classificação dos exames do 11º e 12º anos terminou na quarta-feira, depois de adiado por duas vezes devido aos problemas com o modelo de classificação digital.