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Mapa cor-de-rosa: o novo PS visto à lupa

Margarida Davim 21 de julho de 2020

As eleições federativas fizeram mexer o xadrez socialista. Mas isso não são más notícias para Pedro Nuno Santos. O pedronunismo fez o trabalho de casa e continua forte na máquina do PS.

O mapa do poder socialista mudou no último fim-de-semana. Os 50 mil votantes, em eleições federativas com uma participação de 56,3%, fizeram mudar de mãos nove das 19 distritais do PS no continente (Açores e Madeira não foram a votos) e alteraram algumas relações de força, mas não o peso que Pedro Nuno Santos tem na estrutura do partido.

Pedro Nuno Santos e António Costa Lusa

Os pedronunistas até podem "esperar sentados", como aconselhou Carlos César, pelo fim do costismo, mas isso não significa que tenham ficado parados. A ala esquerda do partido desdobrou-se em contactos e jantares e garantiu que o aparelho está, para já, favorável a Pedro Nuno Santos.

António Costa pode ter avisado que ainda está longe de pôr "os papéis para a reforma", mas Pedro Nuno quer garantir que quando isso acontecer tem no terreno as condições para avançar para a liderança.

O dia de segunda-feira foi, por isso, passado em contactos para tomar o pulso às estruturas. O resultado foi animador: mesmo onde parecia à primeira vista ter saído enfraquecido, o trabalho constante de fazer pontes garante simpatias suficientes no partido para sentir apoio para uma eventual futura disputa pela liderança no pós-costismo.

 

As caras novas

Dos nove novos presidentes de federações socialistas, pelo menos seis estão nas contas do pedronunismo como próximos de Pedro Nuno Santos.

Em Santarém, Viseu, Baixo Alentejo, Coimbra, Évora e Guarda, as estruturas parecem favoráveis aos pedronunistas.

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Nélson Brito
Foto: Cofina Media
Vítor Pereira
Foto: Cofina Media
Nuno Moita
Foto: Cofina Media
Luís Dias
Foto: Cofina Media
Alexandre Lote
Foto: Cofina Media
Walter Chicharro
Foto: Cofina Media
Ricardo Pinheiro
Foto: Cofina Media
Hugo Costa
Foto: Cofina Media
José Rui Cruz
Foto: Cofina Media

Nélson Brito (Baixo Alentejo)

O presidente da Câmara Municipal de Aljustrel é da geração de Pedro Nuno Santos e um dos novos presidentes de federação que fala regularmente com o ministro de António Costa.

Apresentou-se como candidato único à presidência e venceu com 95,3% dos votos, depois de outro candidato, mais próximo de Pedro do Carmo (o antigo líder da estrutura distrital) ter desistido da corrida.

 

Vítor Pereira (Castelo Branco)

Não é propriamente dos que têm um historial de proximidade com Pedro Nuno Santos e é o rosto de uma mudança na região.

Vítor Pereira ganhou com 668 votos contra os 401 de Leopoldo Rodrigues, o presidente da Junta de Freguesia de Castelo Branco, que era apoiado por Hortense Martins, a antiga presidente da federação (que depois de três mandatos não se recandidatou).

Pereira é presidente da Câmara da Covilhã e passa agora a líder de uma federação socialista pequena, onde uma diferença de 267 votos bastou para a vitória.

 

Nuno Moita (Coimbra)

O presidente da Câmara de Condeixa-a-Nova ganhou em 11 dos 17 concelhos do distrito de Coimbra, contra João Portugal.

Uma fonte próxima de Pedro Nuno Santos diz à SÁBADO, que Moita "vê com bons olhos" o pedronunismo e está, por isso, nas contas internas como um reforço da posição da ala esquerda no aparelho do partido.

Num universo de cerca de 2 500 dos 4 300 militantes socialistas inscritos na Federação de Coimbra, Moita alcançou 62% dos votos contra os 38% de João Portugal.

Coimbra era, a par com Viseu, um dos casos em que Pedro Nuno Santos estabeleceu pontes com os dois candidatos a votos. Portugal era visto como próximo de Pedro Nuno, mas a vitória de Moita não faz Coimbra passar a terreno perdido para o pedronunismo.

 

Luís Dias (Évora)

Luís Dias, presidente da Câmara de Vendas Novas, foi o vencedor da Federação Distrital de Évora e é visto como próximo de Pedro Nuno Santos.

Durante a campanha interna, recebeu apoio público de militantes como Capoulas Santos, Fernanda Ramos e do então ainda presidente da Federação de Évora, Norberto Patinho.



Alexandre Lote (Guarda)


O candidato único às eleições da Federação da Guarda está assinalado pelos pedronunistas como "próximo" e faz parte de uma nova geração onde a ala esquerda socialista tem ganhado terreno.

Alexandre Lote, de 36 anos, liderou uma lista de consenso depois de José Albano Marques, atual vereador em Celorico da Beira, ter desistido da corrida.

Dos 497 militantes que foram a votos na Guarda, 457 votaram em Alexandre Lote (houve 35 votos brancos e cinco nulos).

A distrital socialista da Guarda estava em gestão corrente desde a demissão de Pedro Fonseca, em julho de 2019. O ato eleitoral chegou a estar marcado para 13 de março, mas foi adiado por causa da pandemia de covid-19.


Walter Chicharro (Leiria)

Na Federação de Leira funcionaram dinâmicas próprias locais que a tornam mais difícil enquadrar numa lógica que inclua as contas de Pedro Nuno Santos. Ainda assim, uma fonte da ala esquerda assegura à SÁBADO, aqueles que em Leiria estão mais próximos do pedronunismo "apoiaram Walter Chicharro".

O presidente da Câmara da Nazaré, próximo do secretário de Estado da Saúde e antigo dirigente federativo António Lacerda Sales, venceu com 61% dos votos.

Walter Chicharro teve 737 votos, contra os 477 votos de José Pereira dos Santos, candidato visto como mais próximo de José Medeiros e Odete João.

A forma como a disputa interna decorreu, fez Chicharro dizer à Lusa que quer o "distrito a trabalhar a uma só voz, de forma unida, e garantir as melhores escolhas", mal foram conhecidos os resultados.



Ricardo Pinheiro (Portalegre)

 
Ricardo Pinheiro é o candidato da sucessão de Luís Moreira Testa e, nesse sentido, é seguro dizer que Portalegre é um distrito onde Pedro Nuno Santos já não tinha influência e continua a não ter.

Pinheiro foi o único candidato à Federação de Portalegre e conquistou 94,76% dos votos.

O engenheiro eletrotécnico e antigo presidente da Câmara de Campo Maior, tem 39 anos e é deputado desde 2019.

No final da votação, a declaração feita por Ricardo Pinheiro não deixou margem para dúvidas sobre a continuidade em relação à linha seguida por Testa.

"Na política, tal como na vida, se retirarmos o passado ficamos sem carácter. Devemos o momento de harmonia e de liderança política no distrito nos últimos oito anos ao Luís Moreira Testa. Vamos continuar a incutir energia na nossa estrutura e nas nossas concelhias, para continuarmos a ter sucesso", afirmou.


Hugo Costa (Santarém)

Dos novos dirigentes distritais, Hugo Costa será talvez o mais próximo de Pedro Nuno Santos, com quem está desde os tempos da JS.


O deputado socialista foi eleito presidente da Federação Distrital de Santarém do PS com 97,5% dos votos e sucede a António Gameiro, também deputado e muito afastado da ala liderada por Pedro Nuno.

Aos 36 anos, o economista é deputado pela segunda vez, depois de ter sido líder da Juventude Socialista Distrital e presidente da concelhia do PS de Tomar.


José Rui Cruz (Viseu)

A forma como decorreu a disputa em Viseu, faz com que à primeira vista, Pedro Nuno Santos pareça ter saído derrotado no distrito. João Paulo Rebelo, secretário de Estado do Desporto e Juventude e seu amigo, perdeu. Mas o fim da história não é esse. Porque Pedro Nuno Santos criou pontes com o candidato vencedor e pode pôr Viseu na coluna dos distritos onde tem influência.


José Rui Cruz ganhou as eleições por apenas 128 votos, num universo de 2.220 votantes.

É deputado, natural de Santa Comba Dão, e dado, sem hesitações como "apoiante" de Pedro Nuno Santos pela ala esquerda do partido.


Os repetentes


De entre os 10 líderes distritais que renovaram os seus mandatos, oito são dados como próximos de Pedro Nuno Santos. E é aqui que estão algumas das federações mais importantes do partido: como o Porto e Lisboa, onde os pedronunistas continuam a mandar.

 

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Luís Graça
Foto: Cofina Media
Jorge Vultos
Foto: Cofina Media
Joaquim Barreto
Foto: D.R.
Jorge Gomes
Foto: Cofina Media
Duarte Cordeiro
Foto: Cofina Media
Carlos Bernardes
Foto: Cofina Media
Manuel Pizarro
Foto: Cofina Media
António Mendonça Mende
Foto: Cofina Media
Miguel Alves
Foto: Cofina Media
Francisco Rocha
Foto: Cofina Media

Luís Graça (Algarve)


"É uma pessoa próxima, que nos acompanha há muito tempo", diz à SÁBADO uma fonte da ala esquerda do PS, explicando que a reeleição do deputado mantém o peso desta tendência a sul.


Luís Graça era candidato único e foi eleito com  95% dos votos expressos.

 

Jorge Vultos (Aveiro)


Se há líder de distrital que pode ser considerado próximo de Pedro Nuno Santos é Jorge Vultos. Une-os uma amizade pessoal que fez com que fosse o próprio Pedro Nuno a desafiar o alentejano de nascimento a candidatar-se a presidente da Câmara de São João da Madeira.

Na altura, o PSD estava há 38 anos à frente da autarquia da cidade de Pedro Nuno Santos, onde Jorge Vultos vive desde os 11 anos.

O agora presidente da Câmara de São João da Madeira acumula, aos 44 anos, a liderança do município com a da federação distrital que venceu com quase 95% dos votos.


Joaquim Barreto (Braga)

O deputado Joaquim Barreto venceu Ricardo Costa, vereador da Câmara Municipal de Guimarães, por cerca 500 votos, renovando o mandato que assume desde 2014.

Os 56% conquistados por Barreto, que correspondem a 2584 votos, mostram que a luta foi renhida. Tão renhida que houve trocas de acusações sobre militantes levados a votar em carrinhas e uma ameaça de impugnação do ato eleitoral pelo derrotado Ricardo Costa, que contestava o facto de a distrital não ter permitido a mudança de locais de voto pedidas por algumas concelhias para assegurar as condições de segurança relacionadas com a pandemia de covid-19.

Barreto não será um apoiante declarado de Pedro Nuno Santos, mas na ala esquerda asseguram-se "pontes" com o reeleito líder da distrital de Braga.


Jorge Gomes (Bragança)


Em Bragança, a proximidade entre a ala esquerda e o reeleito líder é maior.

Jorge Gomes conseguiu mais de 62% dos votos, contra a presidente da Câmara de Mirandela, Júlia Rodrigues.

A reeleição ficou marcada por críticas do ex-secretário de Estado ao apoio dado pela atual secretária de Estado das Comunidades, Berta Nunes, à sua adversária.

Na declaração de vitória, Jorge Gomes falou na "face invisível da derrota, os históricos do partido" da região, que "constantemente se colocam" contra as candidaturas que apresenta, numa crítica direta à governante Berta Nunes.

"Eles já perderam cinco, seis, sete vezes e eu continuo de pé e continuo a fazer tudo pelo partido", disse Jorge Gomes, que já tinha liderado a federação distrital de Bragança do PS antes de ter integrado o primeiro Governo de António Costa, como secretário de Estado da Proteção Civil.

Recorde-se que Gomes se demitiu do Governo na sequência dos incêndios de 2017, voltando para o Parlamento como deputado, para onde foi novamente eleito em 2019.


 

Duarte Cordeiro (Lisboa)

Sem rivais e sem surpresas, aquele que é visto como o número dois do pedronunismo, Duarte Cordeiro, foi reeleito presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) do PS com 95% dos votos.

É já o segundo mandato que Duarte Cordeiro, atualmente secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, cumpre na segunda maior estrutura federativa do PS.

Lisboa tem um universo eleitoral de 6300 militantes com quotas pagas, só ficando atrás do Porto em termos de peso na máquina socialista.

Cordeiro é agora também coordenador da resposta à Covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo, mas já foi vice-presidente da Câmara de Lisboa e líder da Juventude Socialista, tendo sido diretor das campanhas de António Costa nas últimas legislativas e da candidatura presidencial de Manuel Alegre em 2011.

 

Carlos Bernardes (Federação Regional do Oeste)

Carlos Bernardes foi eleito líder de uma das mais pequenas distritais do PS e isso faz com que não tenha entrado (para já) nas contas de contar de espingardas que fizeram os pedronunistas desdobrarem-se em encontros e telefonemas.

O presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras foi eleito para Federação Regional do Oeste (FRO) com 96% dos votos.

A federação abrange as secções da Lourinhã, Torres Vedras, Alenquer, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, mas isso traduziu-se num total de apenas 160 votos (cerca de 53% dos militantes com capacidade de voto) no candidato único Carlos Bernardes.

 

Manuel Pizarro (Porto)

Manuel Pizarro até pode estar fora da geração que é mais conotada com Pedro Nuno Santos, mas a proximidade ao líder da concelhia do Porto, Tiago Barbosa Ribeiro, e o papel essencial que esteve teve na sua reeleição fazem-no constar da lista de apoios ao pedronunismo.

Apesar de ir já para o terceiro mandato, Manuel Pizarro venceu José Manuel Ribeiro com 70% dos votos, naquela que é a maior federação socialista do país, o Porto.

Dos 7600 militantes que votaram, 5300 deram o seu voto a Pizarro. Ribeiro, presidente da Câmara de Valongo que teria o apoio (ainda que informal) do secretário-geral do PS José Luís Carneiro, ficou-se pelos 30%.

Se a vitória foi folgada, a campanha não foi fácil. Manuel Ribeiro lembrou que Manuel Pizarro "já perdeu duas vezes" a Câmara do Porto para pôr em causa a sua reeleição para a estrutura socialista numa altura em que a máquina partidária começa a aquecer com a escolha dos protagonistas para as autárquicas de 2021.

"Espero que, a partir de agora, possamos nos unir. Lamento que esta campanha tenha sido mais de ataques pessoais", declarou Manuel Pizarro na reação aos resultados eleitorais.

 
António Mendonça Mendes (Setúbal)

Se há distrital importante na qual Pedro Nuno Santos não se pode gabar de ter influência é em Setúbal. António Mendonça Mendes voltou a conquistar a federação com 90%.

Conotado com uma ala mais à direita no PS, Mendonça Mendes é o número dois da equipa das Finanças liderada por João Leão, como secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Fiscais, e irmão da líder parlamentar socialista Ana Catarina Mendes.


Miguel Alves (Viana do Castelo)


Miguel Alves em Viana garante outro ponto de apoio ao pedronunismo a norte do país.

Com 44 anos, o candidato único às eleições desta federação, faz parte da geração do ministro das Infraestruturas e é próximo de Marina Gonçalves, ex-chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos e hoje deputada.

Venceu com 82% dos votos, em eleições nas quais estavam em condições de votar 853 militantes, mas onde a participação se ficou pelos 54%.

Alves, que é também presidente do Conselho Regional do Norte, órgão consultivo da Comissão Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), começa agora o seu terceiro mandato em Viana do Castelo.

 

Francisco Rocha (Vila Real)

O historial de Francisco Rocha, muitas vezes crítico de Ascenso Simões (parte da ala mais à direita no PS) torna clara a proximidade com Pedro Nuno Santos. De resto, Rocha tem relações próximas com a ala esquerda do partido, com quem mantém contactos regulares.

Foi candidato único à Federação Distrital de Vila Real e reeleito com 95% do total de votos expressos.

É deputado na Assembleia da República eleito pelo círculo de Vila Real e presidente da Junta de Freguesia de Vila Real.    

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O mapa do poder socialista mudou no último fim-de-semana. Os 50 mil votantes, em eleições federativas com uma participação de 56,3%, fizeram mudar de mãos nove das 19 distritais do PS no continente (Açores e Madeira não foram a votos) e alteraram algumas relações de força, mas não o peso que Pedro Nuno Santos tem na estrutura do partido.

Os pedronunistas até podem "esperar sentados", como aconselhou Carlos César, pelo fim do costismo, mas isso não significa que tenham ficado parados. A ala esquerda do partido desdobrou-se em contactos e jantares e garantiu que o aparelho está, para já, favorável a Pedro Nuno Santos.

António Costa pode ter avisado que ainda está longe de pôr "os papéis para a reforma", mas Pedro Nuno quer garantir que quando isso acontecer tem no terreno as condições para avançar para a liderança.

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O mapa do poder socialista mudou no último fim-de-semana. Os 50 mil votantes, em eleições federativas com uma participação de 56,3%, fizeram mudar de mãos nove das 19 distritais do PS no continente (Açores e Madeira não foram a votos) e alteraram algumas relações de força, mas não o peso que Pedro Nuno Santos tem na estrutura do partido.

Os pedronunistas até podem "esperar sentados", como aconselhou Carlos César, pelo fim do costismo, mas isso não significa que tenham ficado parados. A ala esquerda do partido desdobrou-se em contactos e jantares e garantiu que o aparelho está, para já, favorável a Pedro Nuno Santos.

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