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Distinção europeia a Cavaco Silva sem consenso entre eurodeputados portugueses

Lusa 19 de maio de 2026 às 10:39

PSD, CDS, PS e IL aplaudem, BE e PCP distanciam-se.

A atribuição da Ordem Europeia do Mérito ao antigo primeiro-ministro e Presidente da República Aníbal Cavaco Silva não reúne o consenso entre os eurodeputados portugueses, com PSD, CDS, PS e IL a aplaudirem e BE e PCP a distanciarem-se.

Cavaco Silva, ex-presidente da República Sérgio Lemos

Em declarações a jornalistas portugueses no hemiciclo de Estrasburgo imediatamente antes da cerimónia de entrega da recém-criada Ordem Europeia do Mérito, deputados do PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal e do PS ao Parlamento Europeu consideraram justa a inclusão de Cavaco Silva na lista de primeiros 20 laureados, enquanto Bloco de Esquerda e Partido Comunista discordam, e Chega não se pronunciou.

Para o social-democrata Paulo Cunha, a distinção a Cavaco Silva "é a confirmação da singularidade do seu percurso no contexto europeu, nacional e, já agora, também, no PSD".

"Foi alguém que durante cerca de 20 anos teve grande responsabilidade na governação do país, como primeiro-ministro e como Presidente da República, que esteve associado à adesão de Portugal à União Europeia (UE), que governou o país na primeira presidência rotativa da UE. É uma personagem com uma ligação histórica ao continente europeu, com um desempenho muito relevante em Portugal, e vê-lo como único português a quem é concedida esta distinção deixa-me particularmente orgulhoso", disse o deputado do PSD.

Já Francisco Assis, do PS, encara a distinção "com todo o respeito", pois, vincou, Cavaco Silva, "foi 10 anos primeiro-ministro, numa fase crucial da integração de Portugal na UE, dirigiu o país nessa fase decisiva, mas, além disso, foi sempre alguém que, como primeiro-ministro e até mais tarde, como Presidente da República, se reconheceu e proclamou valores europeístas".

"Numa democracia pluralista, nós temos naturalmente as nossas divergências, mas também temos os nossos pontos de consenso, e, em relação às questões europeias, felizmente tem prevalecido um amplo consenso na sociedade portuguesa. O Governo português indicou o professor Cavaco Silva para este prémio e nós consideramos que é uma decisão correta", afirmou.

Também a eurodeputada Ana Miguel Pedro, do CDS, diz que a sua delegação "valoriza e saúda esta distinção", sublinhando que "o professor Cavaco Silva teve um papel muito importante na vida democrática portuguesa, não só pela modernização das nossas infraestruturas, mas também pela estabilidade governativa que ofereceu ao país durante muitos anos".

"Valoriza-se aqui o papel como antigo primeiro-ministro, antigo Presidente da República , e com um importante papel no processo de consolidação da pertença de Portugal à Europa, como, por exemplo, a negociação do Ato Único Europeu, o Tratado de Maastricht e a primeira presidência portuguesa do Conselho da UE", assinalou.

Igualmente o deputado João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, considera "muito merecida" a distinção, não só pelo papel desempenhado por Cavaco Silva "na integração de Portugal na UE", mas, sobretudo, porque foi durante os seus 10 anos enquanto chefe de governo "que Portugal mais cresceu".

"Portugal cresceu mais de 4% ao ano em média entre 1985 e 1995. Foi o primeiro-ministro que mais conseguiu aproximar o rendimento médio português do europeu [...] e isto não foi por acaso: foi corajoso e fez reformas. Há aqui uma lição: quando se é corajoso e se faz reformas, produz-se crescimento. Era uma lição que se podia aplicar agora", disse o deputado da IL.

Já Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, admitindo que considera que "estas distinções não têm muito sentido", aponta que Cavaco Silva "presidiu aos governos portugueses durante uma década, e foram governos que distribuiram cheques para desmantelar a agricultura, as pescas e a indústria em Portugal".

"Não deve ter havido outro governo que tenha distribuído tanto dinheiro para acabar com tanta capacidade produtiva no nosso país. E, desse ponto de vista, marcou realmente [...] Acho que a avaliação que devemos fazer deve ser completa, e não podemos esquecer este facto", afirmou.

No mesmo sentido, João Oliveira diz que o PCP "não acompanha a ideia desta condecoração, porque onde a UE vê razões para condecoração", os comunistas encontram "uma boa parte dos problemas do país com a marca de Cavaco Silva".

"Foi Presidente da República dos tempos da 'troika', deu suporte a um governo que já não tinha como manter-se em funções e que só o fez com a cobertura política de Cavaco Silva", disse, acrescentando que tal sucedeu "depois de ter sido primeiro-ministro durante 10 anos, com uma política que ficou sobretudo marcada pela privatização de grandes empresas nacionais e desindustrialização do país".

O Parlamento Europeu, reunido em sessão plenária em Estrasburgo, França, homenageia hoje os primeiros 20 laureados com a Ordem Europeia do Mérito, numa cerimónia que contará com a presença de 13 dos distinguidos, entre os quais Cavaco Silva, a ex-chanceler alemã Angela Merkel, o ex-presidente polaco Lech Walesa e o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano.

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