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D. Manuel I chegou antes de Trump: Gronelândia já teve bandeira portuguesa
Num mapa de 1502, a bandeira portuguesa está plantada na Gronelândia. “Uma declaração de intenções”, explica o historiador João Paulo Oliveira e Costa.
A história da ocupação humana do território hoje conhecido como Gronelândia recua milénios, mas a SÁBADO cruzou-se com um curioso mapa português datado de 1502, e chamado Planisfério de Cantino, onde se vê uma bandeira portuguesa desenhada sobre esse mesmo território, hoje disputado pela Dinamarca e Estados Unidos da América. Falámos com o historiador João Paulo Oliveira e Costa para nos explicar o que andaram lá os portugueses a fazer.
Planisfério de Cantino
DR
Planisfério de Cantino
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Então, mas e as bandeiras no mapa?
“Tem a ver com o Tratado de Tordesilhas, por um lado. Como estamos numa época experimental, independentemente de haver ocupação ou não, as bandeiras têm muito a ver com isso. Quer dizer que se aquilo está do lado português, põe-se lá uma bandeira [no mapa] que é para dizer que a ir lá alguém são os portugueses”, conta João Paulo Oliveira e Costa. E sublinha que o famoso tratado que dividiu o mundo entre portugueses e espanhóis “não é um tratado de conquista, é um tratado de áreas de influência e áreas de negócio", embora os dois impérios ibéricos tivessem arvorado “no direito de ocupar tudo o que existe”. A verdade é que “ingleses e franceses, particularmente, vão navegar pelo Atlântico também, indiferentes ao Tratado de Tordesilhas, e onde os portugueses e os castelhanos entendem que é do interesse vital deles, combatem-nos". A atitude de Portugal então pode encontrar um ponto em comum com o renovado interesse dos EUA pela Gronelândia, “um território que é importantíssimo nas relações internacionais e no controle daquela zona do mundo”, numa terra rica em minerais que, devido ao degelo, se está a transformar numa cobiçada rota marítima para as grandes potências mundiais. O historiador relaciona o passado com o futuro: “Por duas vezes que eles a tentaram comprar, o Trump não inventou isto. Mas há uma coisa que é importante. O que é que mudou? Além da questão dos minérios, é o próprio degelo. Com o degelo, aquela ilha torna-se muito mais importante para o controle das rotas de navegação. Quem chegar primeiro impede que os outros lá se posicionem. E, portanto, tem a ver com expectativas. A importância da Gronelândia em si não mudou de há 20 anos para hoje. A conjuntura, neste caso até geoclimática, é que mudou”. No século XVI, explica, “é a mesma coisa, mas num contexto só do desconhecido: olhando para uma área desconhecida que, a ser ocupada, é por nós”. Ou seja, a bandeira portuguesa no mapa sobre a Gronelândia é uma “declaração de intenções”, que nasce do ponto de vista da “retórica política”, numa lógica de “zona de influência, que eventualmente poderia ser interessante para as pescarias”. “Mas, por exemplo, ao nível das pescas, os portugueses pescam o bacalhau na Terra Nova, mas também há pesca com os ingleses e não houve guerra por causa disso”, acrescenta o historiador. “No mapa é muito simbólico, tem o valor da simbologia na diplomacia, numa rivalidade entre Portugal e Castela”.Porque se chama Planisfério de Cantino?
A história envolve um espião, um duque e um talho. Alberto Cantino era um italiano que estaria por Lisboa a espiar o que andariam os portugueses a congeminar por esse mundo fora. E "deve ter subornado um qualquer oficial ou um cartógrafo da Casa da Índia para obter este mapa de subrepticiamente” para o enviar a Hercole de Este, Duque de Ferrara, “um daqueles grandes senhores da Itália daquele tempo”, cujo filho casou com Lucrécia Bórgia, filha do Papa Alexandre VI. “O Dom Manuel I tinha uma política de sigilo que não queria que estes mapas saíssem, este escapou-lhe, mas quem o comprou também não mostrou a ninguém. Porque nós temos mapas feitos em Veneza daqui a seis anos que ainda não têm a Índia como está aqui desenhada e têm muita geografia mal representada por comparação com este mapa”, destaca o historiador, para que é “muito curioso” que este mapa, apesar de ter sido um ato de espionagem e “um falhanço da equipa portuguesa em preservar a sua informação”, acabou por não ter sido divulgado. Permaneceu secreto, mas no século XIX, o diretor da Biblioteca Estense, em Ferrara, encontrou-o a decorar um talho da cidade e acabou por comprá-lo ao comerciante. A mesma biblioteca que o guarda nos dias que correm.Artigos Relacionados
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