"A filosofia do Chega é a que há um Messias, salvador de Portugal. Mas não é nem Messias, nem salvador"
O militante do Chega Fernando Sá Nóbrega é autor da impugnação às listas autárquicas do partido. À SÁBADO, conta as motivações para agir e admite ter sido "iludido" por Ventura.
É madeirense, tem 34 anos e é o militante número 15.764 desde que viu André Ventura como deputado único do Chega. "Acreditei que o Chega se tinha tornado no partido que queria melhorar Portugal, mas infelizmente fui iludido", lamenta Fernando Sá Nóbrega à SÁBADO. Após o Tribunal Constitucional lhe ter dado razão na impugnação feita contra a VI Convenção do partido, em Viana do Castelo, que declarou inválida a eleição dos órgãos nacionais, Nóbrega apresentou agora nos tribunais de várias comarcas pedidos de impugnação de todas as listas do partido às eleições autárquicas de 12 de outubro.
O que o motivou a fazer estas queixa?
A transparência. No ramo da política, temos de ser mais transparentes. Infelizmente, o Chega não o tem sido. Perante a lei, com o chumbos do Tribunal Constitucional, os órgãos sociais e os estatutos atualmente válidos são os de 2019 — e eles continuam a tomar decisões com órgãos sociais inválidos. Por exemplo, fazem a vida interna do partido como se a composição do conselho nacional fosse a mesma do último congresso, que foi declarado irregular. Isto é um imbróglio que tem de ser resolvido o quanto antes, tem de se fazer justiça. Eles estão a fazer aldrabices.
Como justifica a irregularidade das listas?
A lei eleitoral dos órgãos das autarquias locais é clara: "Só podem apresentar candidaturas os órgãos regularmente constituídos, democraticamente eleitos e com legitimidade estatuária". As listas do Chega foram aprovadas com órgãos sociais ilegítimos, como decretou o Tribunal Constitucional no passado.
Como é que se resolvia este impasse interno?
É simples: tem de haver uma nova convenção. O problema é que, entretanto, dos órgãos nacionais de 2019, os que estão em vigor, já há pessoas que se demitiram. Mas tem de haver nova convenção — e já. Vai haver eleições autárquicas com listas que, a meu ver, não podiam ser legitimamente aceites pelos atuais órgãos.
Sinto muita revolta sua.
Sinto-me revoltado como militante, claro. Um partido com 60 deputados, que se diz líder da oposição, devia estar mais bem organizado, no mínimo ter os estatutos e os órgãos regularizados. Sou de direita e custa-me sentir que há uma tremenda hipocrisia no Chega, que se diz superior aos outros. O partido não está a seguir as normas, eu fiz o que me compete (impugnei) e veremos o que os tribunais decidem. Acredito na justiça, demore o tempo que demorar.
É atualmente militante. Está a ponderar sair do partido?
Não digo que não, vou estar atento. Gostava de mudar o partido por dentro, mas já há demasiada coisa enraizada que não vai ser uma andorinha a mudar aquilo. A filosofia do Chega é a que há um Messias, que é salvador de Portugal, mas não é bem assim. Não é Messias, nem salvador.