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Luís Paixão Martins
Luís Paixão Martins Especialista em comunicação
28 de maio de 2025 às 17:33

Como perder uma eleição (2025)

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Edição de 3 a 9 de fevereiro

As três lições destas legislativas. A primeira: mudar a base eleitoral a meio da campanha é receita para o desastre.

Primeira Lição. Procurar alterar a base eleitoral em campanha é receita para o desastre.

Já em 2024, Pedro Nuno Santos tinha dado sinais de que não estava confortável com a base eleitoral do “PSAC”, o Partido Socialista liderado por António Costa. Este tinha aproveitado a rejeição de Pedro Passos Coelho entre os eleitores 65+ (com mais de 65 anos, pensionistas na generalidade) atraindo-os para o PS enquanto definia um território de segurança nos rendimentos e de regularidade e justiça nas prestações sociais com o conceito das “Boas Contas”. Na sua primeira campanha como líder do PS, PNS omitiu esses grupos de eleitores e praticamente apenas chamou Costa à campanha para bater palmas.

Resultado: a taxa de participação dos 65+ foi inferior ao habitual. Os governos (e os políticos em campanha) costumam ter particular atenção a este grupo de eleitores não apenas porque é numeroso, mas também porque tem taxas de participação geralmente superiores às dos outros grupos (menos abstenção). Se em 2024 a taxa de participação dos 65+ tivesse sido idêntica à das eleições anteriores o PS tinha vencido as eleições.

Seja como for, este ato eleitoral criou a perceção de que Pedro Nuno Santos tinha ficado aliviado ao não ser escolhido para a missão de primeiro-ministro exatamente porque a “cura” de oposição lhe ia permitir redesenhar o seu partido de acordo com os seus desígnios – numa estratégia de atração dos mais jovens.

Nunca saberemos se essa estratégia voluntariosa ia produzir bons resultados num ciclo político natural de três ou quatro anos porque, a menos de meio caminho, um exercício tático irracional e incompreensível, lançou o PS num novo processo eleitoral. O que sabemos é que a campanha de PNS foi mudando de narrativa entre os “debates” (destinados a eleitores que procuram um racional para a escolha) e a “rua” (indecisos que escolhem o primeiro-ministro) e entre o “partido do amanhã” e o “PSAC”.

Para sermos justos é preciso acrescentar que a campanha não foi a única responsável pela hecatombe eleitoral do PS: Luís Montenegro interpretou bem e atempadamente o caminho que PNS queria fazer e promoveu uma política de reconciliação com os eleitores 65+ dando ele continuidade à narrativa do executivo de António Costa. E foi por isso que fiquei com uma dúvida crítica: será que, a curto prazo, a AD/PSD se transformará num partido dos 65+ como o PS foi?

Não sabemos as idades dos votantes (porque o voto é mesmo secreto), mas supomos conhecer as idades daqueles que revelam nas sondagens quais são as suas intenções de voto. E se olharmos para os estudos de opinião publicados na recente campanha, concluímos que a média de idades dos “intencionados” da AD se aproxima a passo de galope dos “intencionados” do PS e que não é arriscado especular que no próximo ato eleitoral estes dois partidos hão de ter uma média de idade de eleitores superior a 60 anos – isto é, mais duas décadas que os “intencionados” do Chega (espantosamente idêntica à da IL, que é uma pequena organização focada nas reivindicações dos jovens profissionais).

Pois, à medida que a AD captura eleitores 65+ que eram do PS (e que no passado pré-Passos eram do PSD), afastando-se eleitoralmente dos “velhos” rivais, vai alienando eleitores mais jovens para os seus “novos” rivais que assim se vão aproximando na contagem dos votos. Os eleitores portugueses estão menos ideológicos e solidários e mais transacionais e egoístas.

Consequência prática a retirar de tudo isto: os governos têm de promover medidas que funcionem simultaneamente – ou que sejam anunciadas em simultâneo – para os três grupos etários.

Segunda Lição. Devemos evitar que os outros partidos parasitem o nosso marketing eleitoral.

Já em 2024 tinha ficado com essa ideia: se não formos cuidadosos com a agenda da campanha podemos estar a deslocar eleitores para os nossos rivais. À época, com o cansaço de 8 anos de “costismo”, toda a gente queria mudar. Houve mesmo no PS quem admitisse que a palavra “mudança” cairia bem numa campanha em que a nova direção se propunha demarcar-se da anterior. Seja como for, “mudança” foi o tema central da campanha de Luís Montenegro e da AD (as últimas frases, os derradeiros cartazes, os comentários finais dos seus repetidores mediáticos). Na minha análise empírica esse empolamento da ideia de mudança, se fez crescer a Aliança Democrática, também contribuiu para o resultado surpreendente do Chega. Se é para mudar…

Agora, nas eleições de 18 de maio, tivemos algo semelhante, isto é, fomos protagonistas e testemunhas de um processo idêntico (na verdade, não um mas dois) da parasitagem eleitoral por parte do Chega às narrativas dos seus principais adversários.

Um dos casos tem a ver com o agendamento do tema “Imigração”. Sim, sabemos que é um dossiê político querido do Chega mas há que reconhecer que quem plantou o tema na linha da frente da campanha eleitoral foi a AD. Sim, a AD em campanha e a AD em governo. O processo arrancou no briefing do Conselho de Ministros e com o membro do executivo que a AD convocou para dar rosto aos temas “cheganos” – o próprio ministro da Presidência, António Leitão Amaro. O anúncio de uma futura expulsão rotineira de imigrantes foi transformado numa perceção de medida musculada pelo eco que dela fizeram, nas horas seguintes, o primeiro-ministro Luís Montenegro, já numa ação de campanha, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, numa ação que não se percebe se foi institucional ou de campanha, e o candidato presidencial do PSD, Luís Marques Mendes, numa ação de quem sofre por ainda não estar em campanha.

Foram estes protagonistas que arrastaram a “bolha mediática” de forma a que a “imigração”/“expulsão de imigrantes” se tornasse um dos temas centrais da fase de arranque de campanha. Foi tal o êxito da ação que todos os outros candidatos foram forçados a falar da iniciativa.

O outro caso tem a ver com as atividades profissionais privadas de Luís Montenegro, um dos alvos preferenciais da pré-campanha do PS – aliás como resultado do processo que levou à dissolução da Assembleia da República. É um facto que Pedro Nuno Santos veio a secundarizar este dossiê no período formal de campanha, mas ele esteve presente em grau elevado em muitos momentos anteriores, como no frente a frente dos líderes da AD e do PS.

Os dois casos são diferentes em termos de produto eleitoral porque tenho para mim que o segundo, catalogado genericamente como “corrupção”, tem o mérito para o PS de poder explicar o crescimento modesto da votação na AD. Em comum têm a circunstância de ambos contribuírem essencialmente para engrossar o número de eleitores do Chega. Em matéria de “imigração” e de “corrupção” os seus agendamentos, seja qual for o partido que o faça, acabarão sempre a contribuir para a “marca” Chega.

Terceira Lição. As ameaças criam novos apetites para eleitores insaciáveis.

Até agora tínhamos, na nossa democracia pós-25 de Abril, um sistema partidário de dois blocos centrais. Sei que se falava muito de “bloco central” mas ele apenas existiu, e brevemente, numa experiência do início dos anos 80 com os líderes Mário Soares (PS) e Fernando Mota Pinto (PSD). O que tivemos sempre foi dois blocos: o bloco do PSD com a “ameaça” do CDS e, mais recentemente, do Chega e da IL e o bloco do PS com a “ameaça” (às vezes sem aspas) do PCP e do BE e, mais recentemente, do Livre.

No passado dia 18 passámos a ter três blocos – do PSD, do Chega e do PS – porque uma das “ameaças” cresceu para o patamar de confronto direto com os blocos. Agora vamos ter um exercício de tentativa do Chega de redução a dois blocos (porque facilita a polarização) forçando o PSD a decidir-se a optar entre o “bloco único da direita” ou o “bloco do sistema”. A AD/PSD deverá procurar responder, pelo menos a curto prazo, com o posicionamento de partido-charneira do sistema político retomando o que tinha conquistado no “cavaquismo” e perdido para o PS do “costismo”. Quanto ao PS, as preocupações da nova liderança de José Luís Carneiro são mais prosaicas: evitar que as eleições locais (sobretudo estas) e as presidenciais confirmem a trajetória descendente traçada por Pedro Nuno Santos.

A referida transformação no nosso desenho partidário-parlamentar de dois para três blocos suscita, no entanto, uma observação mais contundente do que a anterior em matéria da vida das marcas partidárias – não se pode ser uma “ameaça” para toda a vida. O CDS já tinha sido absorvido com elegância pelo PSD, mas o PCP e o Bloco quiseram evitar um desfecho parecido com a rejeição da geringonça. Compreende-se porquê: o acordo de incidência parlamentar com o PS provocou-lhes o dano de metade dos eleitores, mas a nova vida autónoma não produziu melhores resultados, pelo contrário, acentuou as perdas. Pelos vistos, para os eleitores atuais, muitos dos quais se abstiveram em eleições passadas, a um partido “ameaça” não é suficiente ser contestatário, tem de se situar mesmo “fora do sistema”. Sem contemplações.

O mesmo se pode constatar acerca da performance eleitoral da Iniciativa Liberal que ficou aquém das expectativas. A generalidade dos eleitores que se opõem aos dois grandes partidos do sistema já não querem um “acelerador” – aquele que quer ajudar o bloco (neste caso o bloco da AD/PSD) a ser mais rápido e mais profundo. E do Livre (ainda) não podemos retirar conclusões (idênticas) porque se encontra numa frase diferente, mais incipiente.

O facto é que o Chega passou a deter o monopólio dos insatisfeitos e, proeza maior, conseguiu levá-los a votar.

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