Sábado – Pense por si

Ricardo Costa
Ricardo Costa Editor
31 de março de 2026 às 07:16

Durão Barroso, ou O Homem Que Estava Sempre a Caminho de Outra Parte

José Manuel Durão Barroso, futuro presidente da Comissão Europeia, futuro presidente não executivo do Goldman Sachs International, futuro cidadão do mundo com várias moradas em países com regimes fiscais convenientes — foi maoísta.

José Manuel Durão Barroso nasceu em Lisboa em 1956, o que é uma informação correta e completamente inútil. Toda a gente nasce algures em algum ano. O que interessa não é a origem mas a trajetória, e a trajetória de Barroso descreve uma figura geométrica que os transferidores normais não conseguem medir: uma linha que parte de um ponto e se dirige consistentemente para onde o dinheiro é maior e a responsabilidade é menor. 

Estudou direito em Lisboa. Estudou ciências políticas em Genebra. Fez um mestrado em estudos europeus. Colecionar diplomas é uma forma de colecionar objetos sem ter de os guardar em casa — ficam nas paredes, nas biografias oficiais, nos comunicados de imprensa. Barroso percebeu cedo que a Europa era o maior diploma de todos: um continente inteiro que se podia pendurar no currículo. 

Foi maoísta. Este facto merece uma pausa. 

José Manuel Durão Barroso, futuro presidente da Comissão Europeia, futuro presidente não executivo do Goldman Sachs International, futuro cidadão do mundo com várias moradas em países com regimes fiscais convenientes — foi maoísta. Distribuiu panfletos. Acreditou, ou disse acreditar, numa revolução conduzida pelos camponeses contra a burguesia. Mao Tsé-tung matou entre quarenta e oitenta milhões de pessoas, conforme a metodologia de contagem. Barroso tinha dezoito anos e estava em Lisboa e provavelmente não contabilizou com rigor. 

Não há nada de extraordinariamente condenável nisso. Muita gente foi maoísta com dezoito anos e depois tornou-se contabilista, professor de liceu, funcionário dos correios. O problema não é ter sido maoísta. O problema é o que vem a seguir — não como redenção nem como vergonha, mas como dado: o mesmo homem que quis destruir o capital tornou-se, décadas depois, um dos seus funcionários mais bem pagos. A linha entre esses dois pontos não é uma contradição. É uma carreira. 

Em 1985 entrou para o governo de Cavaco Silva como secretário de Estado. Tinha vinte e nove anos e já tinha abandonado o maoísmo com a mesma eficiência discreta com que se abandona uma assinatura de revista que deixou de interessar. Não houve declaração pública. Não houve autocrítica. Houve simplesmente a passagem de um corredor para outro, como acontece nos ministérios, como acontece em todos os edifícios onde as portas se abrem para quem sabe bater da maneira certa. 

Tornou-se deputado. Tornou-se ministro dos Negócios Estrangeiros. Tornou-se primeiro-ministro. Cada cargo durou o suficiente para ser incluído no currículo e não o suficiente para ter de responder pelas consequências. É uma arte. Não é ensinada em nenhuma universidade porque não precisa de ser — aprende-se por osmose, nos corredores, nos almoços, nas conversas laterais onde as coisas importantes são ditas de forma a não poder ser citadas. 

Como primeiro-ministro, entre 2002 e 2004, Barroso organizou a Cimeira dos Açores. Foi nas Lajes, em março de 2003, que George W. Bush, Tony Blair e José Manuel Durão Barroso se reuniram para coordenar a invasão do Iraque. Sentaram-se juntos para a fotografia. Barroso sorriu. O Iraque ainda não sabia o que aí vinha, ou talvez já soubesse, que a ignorância nunca foi uma proteção eficaz contra a história. 

A cimeira das Lajes é um objeto interessante. É um momento que existiu, que foi fotografado, que teve consequências mensuráveis em centenas de milhares de mortes, e que desapareceu da biografia pública de Barroso com uma leveza que só os verdadeiramente talentosos conseguem. Não desapareceu dos registos — está lá, disponível, documentado. Desapareceu da conversa. É a diferença entre o que existe e o que é mencionado, que é onde a política realmente acontece. 

Em 2004 tornou-se presidente da Comissão Europeia. Foi o cargo mais alto que algum português alguma vez ocupou numa instituição supranacional, o que em Portugal foi celebrado com o orgulho específico de um país que aprendeu a encontrar glória nos lugares onde outros países colocam burocratas. 

A Comissão Europeia é um organismo fascinante. Tem poderes consideráveis e uma visibilidade inversamente proporcional a esses poderes, o que a torna ideal para certas personalidades — as que preferem agir sem ser observadas, as que confundem discrição com virtude, as que descobriram que a tecnocracia é a forma mais eficiente de exercer poder sem ter de explicar nada a ninguém que não seja outro tecnocrata. 

Barroso presidiu à Comissão durante dez anos, entre 2004 e 2014. Durante esse tempo, a Europa atravessou a maior crise financeira desde 1929. Os países do sul — Portugal incluído — foram sujeitos a programas de austeridade desenhados em Bruxelas e Frankfurt e implementados em Lisboa e Atenas e Madrid por governos que tinham sido eleitos para fazer outra coisa. As farmácias fecharam. Os médicos emigraram. As pensões foram cortadas. Os jovens foram aconselhados a ser resilientes, que é a palavra que os ricos usam quando querem que os pobres sofram em silêncio. 

Barroso presidiu a tudo isto com a serenidade de quem não tem de ir à farmácia. 

Há uma fotografia de Barroso com Angela Merkel. Há outra com Nicolas Sarkozy. Há outra com Barack Obama. Em todas elas Barroso ocupa o espaço com a postura específica de quem aprendeu a ser fotografado — ligeiramente virado para a câmara, sorriso calibrado, a mão estendida no momento certo. É uma competência. Não é uma competência que salva países, mas é indubitavelmente uma competência. 

O sorriso de Barroso merece análise separada. É um sorriso que comunica simultaneamente confiança, abertura, e uma total ausência de intenção de responder à pergunta que foi feita. É o sorriso de quem descobriu que a simpatia é uma forma de armadura — que se podes fazer as pessoas sentirem que foram ouvidas, não tens necessariamente de as ouvir. Os treinadores de comunicação política ensinam isto. Barroso não precisou de treinador. Nasceu com o sorriso já calibrado, ou aprendeu tão cedo que a distinção deixou de importar. 

Em 2016, dois anos depois de deixar a presidência da Comissão Europeia, Barroso anunciou que ia trabalhar para o Goldman Sachs International como presidente não executivo e consultor. 

O Goldman Sachs é um banco. Não é apenas um banco — é o banco que ajudou a Grécia a esconder a sua dívida através de instrumentos financeiros complexos, o que contribuiu para a crise que a Comissão Europeia de Barroso depois geriu com os programas de austeridade que cortaram as pensões gregas. É uma cadeia causal com uma elegância que os romancistas invejam e os cidadãos comuns encontram difícil de contemplar sem sentir algo que não conseguem nomear completamente mas que tem a ver com a disposição do universo moral. 

Barroso recebeu críticas. O Provedor de Ética Europeu considerou que a contratação era eticamente censurável, embora não ilegal. A distinção entre eticamente censurável e ilegal é onde muitas carreiras europeias são construídas. Barroso respondeu que tinha agido dentro das regras. Tinha. As regras tinham sido escritas por pessoas como Durão para pessoas como Barroso, o que é uma forma muito eficiente de garantir que as regras são sempre suficientemente largas. 

Existe o conceito de porta giratória. É a metáfora para o movimento entre o setor público e o setor privado — o regulador que passa a ser regulado, o supervisor que passa a ser supervisionado, o presidente da Comissão que passa a trabalhar para o banco que a Comissão devia supervisionar. A porta gira. Todos entram e saem. Ninguém fica parado tempo suficiente para perceber em que direção a porta está a rodar. 

Barroso não inventou a porta giratória. A porta existia antes dele e continua a existir depois. O seu contributo foi a elegância com que a atravessou — sem tropeçar, sem olhar para trás, com o sorriso calibrado e a postura de quem está sempre a caminho de uma reunião importante onde vai ser muito útil a pessoas que podem pagar pela utilidade. 

Há uma distinção que Barroso nunca fez publicamente mas que a sua biografia faz por ele: a distinção entre servir e ser servido. Durante toda a carreira pública, Barroso falou de serviço — serviço à Europa, serviço aos cidadãos, serviço aos valores democráticos que a integração europeia devia encarnar. É uma linguagem bonita. É a linguagem que todas as instituições usam para descrever o poder de forma a que pareça altruísmo. 

Depois de 2016, a linguagem mudou. Já não era serviço — era consultoria, era aconselhamento estratégico, era a aplicação da experiência acumulada em décadas de vida pública a problemas que o Goldman Sachs considerava relevantes. A experiência acumulada tinha um preço. O preço não foi divulgado mas os analistas estimaram que estava na ordem dos milhões anuais. O serviço tinha terminado. A fatura chegou. 

Barroso vive agora entre Lisboa, Londres e Bruxelas, com a mobilidade sem atrito de quem tem passaporte europeu, cartão de crédito corporativo, e um nome que abre portas em três continentes. É um homem do mundo no sentido mais literal — pertence ao mundo porque não pertence a nenhum lugar específico, porque aprendeu que o pertencimento é uma limitação e que a utilidade transcende a geografia. 

Em Portugal, o seu nome evoca reações que variam entre a indiferença, o orgulho anacrónico e uma irritação difusa que as pessoas têm dificuldade em articular completamente. É a irritação de reconhecer alguém que fez tudo certo — que seguiu todas as regras, que escalou todos os degraus, que chegou ao topo com as mãos limpas porque as mãos limpas são uma questão de definição — e de não conseguir explicar exatamente onde é que a coisa falhou. 

A coisa não falhou. Funcionou na perfeição. É isso que é difícil de contemplar. 

Existe em física o conceito de corpo negro — um objeto teórico que absorve toda a radiação eletromagnética que recebe e não reflete nada. É um objeto que existe apenas na teoria porque na prática todos os materiais refletem alguma coisa. Barroso é o oposto do corpo negro: reflete tudo, absorve nada. As críticas escorregam. As responsabilidades evaporam. As cimeiras onde se decidiram guerras transformam-se em notas de rodapé. A crise que supervisionou torna-se contexto histórico. O banco para o qual foi trabalhar torna-se uma escolha pessoal legítima dentro do quadro legal aplicável. 

A superfície de Barroso é perfeitamente polida. É uma obra de engenharia. Levou décadas a construir e funciona sem manutenção visível. 

Há um objeto a quem o podemos comparar e que me intriga se porventura existe: o espelho sem reflexo. O vidro que parece espelho mas não devolve nada — que absorve o olhar sem o devolver, que existe apenas como superfície sem profundidade, como forma sem interior. 

Não é uma acusação. É uma observação geométrica. Há pessoas que são interiores — que têm uma vida interior densa, contraditória, parcialmente invisível, que transborda ocasionalmente para o exterior de formas inesperadas. E há pessoas que são superfícies — que dominaram tão completamente a gestão da aparência que a aparência se tornou a totalidade, que o exterior é tão consistente e tão polido que a questão do interior deixa de ser pertinente. 

Barroso é uma superfície extraordinariamente bem gerida. O que está por baixo é uma pergunta que a carreira nunca precisou de responder — e uma carreira que nunca precisou de responder a essa pergunta é, por definição, uma carreira bem-sucedida. 

Tem setenta anos. Continua ativo. Continua a ser consultado, a aparecer em conferências, a assinar artigos de opinião sobre o futuro da Europa com a autoridade de quem ajudou a construir o presente da Europa e prefere não ser responsabilizado por ele. 

O futuro da Europa é sempre um tema seguro. O futuro não aconteceu ainda, o que significa que ninguém pode provar que o conselho estava errado. O passado da Europa é mais complicado — tem datas, tem consequências, tem pessoas que perderam empregos e casas e pensões em anos específicos por decisões tomadas em salas específicas por pessoas específicas cujos nomes estão nos registos se alguém se der ao trabalho de procurar. 

Barroso prefere o futuro. É mais espaçoso. Tem mais margem para o sorriso calibrado, para a postura de quem está sempre a caminho de outra reunião, para a linha que parte de um ponto e se dirige consistentemente para onde o dinheiro é maior e a responsabilidade é menor. 

A linha continua. Ainda não chegou ao fim. 

Ou chegou e ninguém foi convidado para a fotografia. 

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