Lisbon Wellness Centre (ou: Pequeno Tratado sobre a Indústria da Alma Saudável)
Há uma mulher no Instagram — não uma mulher específica, uma mulher composta, uma mulher que é na verdade trinta e sete mulheres diferentes que partilham a mesma conta de forma rotativa sem que ninguém tenha dado por isso — que acorda todos os dias às 5h45 da manhã em Lisboa para fazer uma coisa chamada "ritual matinal". O ritual matinal consiste no seguinte: acordar, beber um copo de água com limão (alcalinizante), escrever três páginas de "morning pages" num caderno de capa de cortiça comprado numa loja de design sustentável na Mouraria, meditar durante vinte minutos com os olhos fechados e uma expressão de contentamento sereno que parece ter sido praticada em frente ao espelho, fazer uma sequência de yoga que ela chama "flow" mas que é basicamente ficar no chão a respirar fundo, preparar um smoothie verde com espirulina e adaptogénios e algo chamado "lion's mane" que é um fungo e que custa vinte e dois euros por cem gramas, e depois — só depois — abrir o telemóvel para postar uma fotografia de tudo isto com a legenda "a vida que escolhi".
Não se trata de uma crítica a esta mulher. Ela existe e tem todo o direito de existir e de beber os seus cogumelos e de alcalinizar o que quiser. Trata-se de uma pergunta: que tipo de mundo é este, em que a forma mais radical de resistência disponível é acordar mais cedo para fazer mais coisas antes de ir trabalhar para a empresa que te está a destruir?
O wellness chegou a Portugal com o mesmo atraso habitual com que chegam todas as modas anglófonas — oito anos depois de ter saturado Brooklyn, quatro anos depois de ter saturado Londres, dois anos depois de ter saturado Madrid — e chegou como chega tudo: a fingir que era daqui.
A narrativa foi impecável. Lisboa não precisava de wellness importado, porque Lisboa já tinha a sua própria tradição de cuidado do corpo e da alma: o pão de centeio da avó, o andar a pé nas calçadas, os banhos de mar em Setembro, o silêncio contemplativo do fim da tarde a ver o rio. O wellness não veio colonizar; veio reconhecer. Veio confirmar o que os portugueses já faziam instintivamente, só que agora com uma aplicação a medir a variabilidade da frequência cardíaca e um coach certificado pela Universidade de Coimbra em "saúde integrativa" a cobrar setenta euros por sessão.
Esta é uma operação ideológica de elegância considerável: transformar práticas de classe trabalhadora em produtos de luxo e depois vendê-los às classes médias como regresso às origens. O kefir da aldeia da avó tornou-se "probiótico artesanal" a oito euros o frasco na mercearia fina da Estrela. A caminhada que o teu pai fazia porque não tinha carro tornou-se "hiking consciente" com bastões ergonómicos e um guia que te explica como respirar enquanto sobres a Arrábida. A sestas da Andaluzia, que os portugueses praticavam com dedicação e sem culpa desde sempre, tornaram-se "power naps" optimizadas pelo protocolo do Dr. Andrew Huberman, que é um americano com pescoço de boi que passa três horas por dia na sauna e que recomenda que vejas luz solar nos olhos logo de manhã, o que é exactamente o que o teu avô fazia sem nunca ter ouvido falar de Andrew Huberman e sem pagar uma assinatura de podcast para aprender a fazê-lo.
Lisboa é um lugar particular para este fenómeno porque Lisboa fez uma coisa que poucos lugares conseguiram: tornou-se simultaneamente muito cara e muito "autêntica", o que é uma façanha de marketing sem paralelo na história recente do imobiliário europeu.
A cidade que os nómadas digitais descobriram no início dos anos 2010 era barata, calorosa, ligeiramente disfuncional de formas encantadoras, cheirava a peixe frito, tinha empregados de café que te ignoravam com uma dignidade invulgar, e os transportes públicos chegavam quando queriam ou não chegavam, que é uma forma de liberdade que os metros do norte da Europa nunca te vão dar. Era uma cidade de pessoas que viviam as suas vidas sem particular interesse em que alguém as fotografasse.
Isso acabou. O que temos agora é a simulação desta cidade, produzida para consumo de pessoas que leram sobre ela em blogs de viagem escritos por outras pessoas que também leram sobre ela em blogs de viagem, numa recursividade que se alimenta a si própria até que o objecto original desaparece completamente e resta apenas a imagem. O charme de Lisboa, que consistia precisamente em não saber que era charmosa, foi capitalizado, reembalado, vendido por noite e por metro quadrado, e o resultado é que as pessoas que fazem Lisboa ser Lisboa já não podem pagar para morar em Lisboa, o que é uma frase que toda a gente diz e ninguém age como se fosse um problema que requer uma solução e não apenas uma legenda melancólica numa fotografia do eléctrico 28.
O wellness instalou-se nesta Lisboa já transformada como a última camada de um processo de gentrificação que chegou ao espírito depois de ter chegado às rendas. Não basta que o teu apartamento seja bonito e caro. A tua consciência também tem de ser bonita e cara. A tua ansiedade também tem de ser gerida de forma esteticamente coerente com o teu espaço vital. O teu sofrimento, se tiveres a elegância de sofrer, deve ser acompanhado por um profissional certificado e por uma linha de suplementos que fica bem na prateleira branca da casa de banho que vai aparecer em segundo plano nas tuas fotografias de espelho.
Vamos falar de meditação por um momento, porque a meditação é o sacramento central desta religião e merece atenção cuidadosa.
A meditação budista, na sua forma original, não era uma técnica de gestão do stress. Era uma prática contemplativa orientada para a compreensão da natureza da mente, da impermanência de todas as coisas, e — dependendo da escola — para a dissolução do ego como ficção conceptual. Os monges que desenvolveram estas práticas passavam anos, às vezes décadas, num rigor contemplativo que não tinha nada a ver com produtividade e que era, na verdade, incompatível com qualquer definição moderna de saúde mental, dado que incluía privação de sono, isolamento prolongado, e a contemplação sistemática da própria morte como exercício espiritual.
O que a indústria do wellness fez foi pegar nesta tradição — que levou séculos a desenvolver, que está enraizada em cosmologias completamente alheias à psicologia moderna — e extrair dela a parte que é útil para o trabalhador do conhecimento urbano do século XXI: os vinte minutos de manhã em que fechas os olhos, observas os teus pensamentos sem julgamento, e sais de lá mais calmo e portanto mais produtivo. O resto — a ética, a metafísica, a renúncia ao mundo material, a ideia de que o sofrimento é inerente à existência e não um bug de optimização — foi silenciosamente descartado por ser incompatível com a função principal desta prática, que é fazer-te funcionar melhor dentro de um sistema que de outra forma te destruiria completamente.
Jon Kabat-Zinn, o homem que popularizou a Mindfulness-Based Stress Reduction nos anos oitenta, era um biólogo molecular do MIT que queria tornar a meditação acessível a pessoas que nunca entrariam num centro budista. O que conseguiu — com melhor intenção do que os seus herdeiros mereceriam — foi criar um produto que o capitalismo tardio absorveu com apetite voraz: uma tecnologia de regulação emocional que aumenta a resiliência dos trabalhadores sem questionar as condições que tornam a resiliência necessária. As empresas oferecem agora subscrições de Headspace como benefício de saúde. A Google tem um programa de meditação para funcionários chamado "Search Inside Yourself". A McKinsey tem retiros de mindfulness para consultores que trabalham oitenta horas semanais. A Amazon — a Amazon! — tem cabines de meditação instaladas nos armazéns onde os trabalhadores têm exactamente dezoito minutos de pausa para se sentarem em silêncio antes de voltarem à linha de produção que os está a destruir.
Pensa nisto: a empresa que inventou condições de trabalho suficientemente degradantes para que os trabalhadores urinassem em garrafas de plástico instalou cabines de meditação para que esses mesmos trabalhadores possam recuperar o suficiente para urinar em mais garrafas. Isto não é uma anedota sobre hipocrisia corporativa. É uma descrição precisa da função social do wellness moderno.
Em Portugal, o fenómeno tem uma textura específica que é ao mesmo tempo mais engraçada e mais triste do que noutros lugares, porque Portugal é um país que passou cinquenta anos a ser dito que o sofrimento era uma virtude, que a pobreza era dignidade, que a resignação era sabedoria, e que a vida era uma preparação para uma felicidade pós-morte, e que portanto saiu desse período com uma relação com o bem-estar individual que oscila entre a culpa e o deslumbramento.
O "cuida de ti" é uma frase nova em Portugal. Não no sentido linguístico — as palavras existem há séculos — mas no sentido moral. Durante muito tempo, cuidar de si próprio era egoísmo. Era falta de sacrifício. Era aquilo que as pessoas finas e nervosas do estrangeiro faziam enquanto cá os homens trabalhavam e as mulheres tomavam conta de tudo e ninguém precisava de um psicólogo porque para isso existia o padre ou a vizinha ou o silêncio de Deus.
Depois veio a democracia, e depois o crescimento, e depois a crise de 2008 que destruiu uma geração inteira de portugueses que tinham feito tudo certo — estudaram, trabalharam, pouparam — e foram à mesma para o desemprego e para a emigração e para morar outra vez em casa dos pais com trinta e cinco anos. E depois veio a recuperação, e depois o turismo, e depois a pandemia, e depois a recuperação outra vez, e num determinado momento neste processo tortuoso alguém descobriu que havia um mercado imenso de pessoas que estavam exaustas, ansiosas, traumatizadas de formas difusas e difíceis de nomear, e que tinham agora dinheiro suficiente — não muito, mas suficiente — para pagar por alguém que lhes dissesse como sentir-se melhor.
O wellness chegou como resposta a uma necessidade real. Aqui está o problema: é uma resposta real a uma necessidade mal diagnosticada, e que portanto nunca pode resolver. A ansiedade que o wellness trata não é uma anomalia individual que pode ser corrigida com respiração diafragmática. É a resposta normal de organismos humanos a condições materiais que são objectivamente difíceis: rendas que consomem dois terços do salário, contratos a prazo que chegam às décadas, a impossibilidade de ter filhos antes dos trinta e cinco porque antes disso não há estabilidade, a sensação de que se trabalhares toda a vida receberás uma reforma que será insuficiente para pagar a renda no país em que cresceste. O wellness diz: o problema és tu. A solução és tu. Respira fundo, bebe a tua água alcalinizante, pratica a gratidão, e lembra-te de que tens o poder de escolher a tua resposta às circunstâncias mesmo que não tenhas o poder de mudar as circunstâncias. Marcos Aurélio disse algo parecido, mas Marcos Aurélio era imperador de Roma, o que lhe dava uma perspectiva diferente sobre a relação entre o indivíduo e as circunstâncias.
Há uma figura central no ecossistema português do wellness que merece menção: o "coach". Não o coach desportivo, que é uma profissão com história e competência verificável. O life coach, o wellness coach, o mindset coach, o coach de "alta performance", o coach de "propósito", o coach que te ajuda a "desbloquear o teu potencial" e a "alinhar a tua energia" e a "viver de forma autêntica".
Em Portugal, o coaching explodiu com uma velocidade que deixou para trás qualquer mecanismo de regulação. Para seres médico precisas de seis anos de faculdade e um exame de ordem. Para seres psicólogo precisas de cinco anos de faculdade e um estágio supervisionado e um registo numa ordem profissional que tem poderes de sanção. Para seres coach precisas de um fim-de-semana num hotel de quatro estrelas em Cascais onde um americano com cabelo perfeito te certifica num processo que custou dois mil euros e que é reconhecido pela ICF, que é uma organização que existe para certificar coaches e que foi fundada por coaches e que tem todo o interesse em certificar muitos coaches.
Não digo que os coaches são charlatães. Alguns são pessoas genuinamente competentes que ajudam genuinamente os seus clientes. Digo que num país com uma penetração de psicólogos por habitante das mais baixas da Europa Ocidental, com listas de espera no SNS de meses ou anos para saúde mental, com um défice histórico enorme de recursos de apoio psicológico, o coaching proliferou não como complemento aos serviços existentes mas como substituto deles — mais barato do que terapia privada, mais imediatamente disponível do que terapia pública, e com a vantagem adicional de não fazer diagnósticos que possam ser perturbadores, de não explorar traumas que possam ser inconvenientes, e de manter o cliente num estado de entusiasmo mobilizador que é perfeitamente compatível com continuar a pagar as sessões mensalmente.
O coaching trata-te como um projecto. A tua vida é um projecto com objectivos e KPIs e áreas de melhoria e um roadmap para o sucesso. Esta é uma metáfora de gestão aplicada à existência humana, e é exactamente tão estranha quanto parece quando a formulas assim, e ninguém parece achar que é estranha.
Mas espera. Há uma voz que aparece sempre neste ponto da análise — uma voz razoável, moderada, com um copo de kombucha na mão — que diz: e então? As pessoas sofrem, o Estado não chega, o mercado oferece algo que ajuda algumas pessoas a sentir-se melhor, qual é exactamente o problema?
É uma boa pergunta, dita de boa fé, e merece uma resposta honesta.
O problema não é que as pessoas se sintam melhor. O problema é o que fica invisível quando o wellness se torna a linguagem dominante através da qual se fala de sofrimento. Quando a exaustão se torna "burnout" que se trata com terapia e suplementos, desaparece a pergunta sobre quem lucra com a tua exaustão. Quando a ansiedade se torna um problema de "regulação do sistema nervoso" que se trata com respiração e meditação, desaparece a pergunta sobre o que está a causar a ansiedade e se esse o causador poderia ser responsabilizado. Quando o sofrimento coletivo é recalibrado como conjunto de
sofrimentos individuais que requerem soluções individuais, a política torna-se, literalmente, inimaginável — não proibida, não reprimida, mas simplesmente fora do campo do que se considera relevante para o problema em causa.
O wellness é politicamente perfeito enquanto ideologia precisamente porque não parece ser uma ideologia. Parece ser ciência (há estudos sobre os benefícios da meditação, os probióticos têm evidência razoável, o sono é de facto fundamental), parece ser cuidado (quem é contra cuidar de si próprio?), parece ser livre de partido (toda a gente pode praticar yoga, independentemente das suas opiniões sobre o orçamento do Estado). A sua despolitização é tão completa que é quase artística.
Termino onde deveria ter começado: com o corpo.
O wellness tem uma relação estranha com o corpo. Por um lado, o corpo é o objecto central de toda a prática — é o corpo que se exercita, que se alimenta, que se medita, que se descansa, que se monitoriza com dispositivos que medem cada parâmetro biométrico com uma precisão que seria perturbadora se não fosse apresentada como libertadora. Por outro lado, o corpo que o wellness produz é abstrato, numericamente codificado, reduzido a métricas e a objectivos, separado do contexto social e histórico em que vive.
O teu corpo não é o corpo de alguém que trabalha, que tem ou não tem dinheiro, que vive num apartamento com ou sem luz natural, que come o que pode comprar e não o que os livros de nutrição recomendam. O teu corpo é um projecto de optimização com possibilidades infinitas que só não são realizadas por falta de informação ou de disciplina. Esta ficção — que o corpo é infinitamente plástico e que os seus limites são problemas de vontade e não de condição — é a operação ideológica mais profunda do wellness moderno, porque transforma a biologia da pobreza numa falha de carácter.
A mulher do smoothie verde e do ritual matinal e do caderno de cortiça não é vilã. É, em sentido muito preciso, uma vítima que aprendeu a reproduzir as condições da sua própria captura. Acordou às 5h45 para ter tempo para si própria antes de o trabalho lho tirar, o que significa que o trabalho ganhou e ela perdeu e o smoothie não tem nada a ver com isso.
Esta mulher merece melhor do que isto. Merece saúde pública com listas de espera razoáveis e psicólogos suficientes e condições materiais em que o descanso não precise de ser optimizado para ser justificado. Merece habitação acessível e contratos com futuro e a possibilidade de ter filhos antes de ser tarde demais. Merece, em suma, as condições em que o wellness seria desnecessário — não porque ninguém precisasse de cuidar de si, mas porque o cuidado não precisaria de ser comprado.
Enquanto isso não acontece, há sempre o “lion's mane”. Dizem que faz maravilhas para o foco.
Lisbon Wellness Centre (ou: Pequeno Tratado sobre a Indústria da Alma Saudável)
Surgem dissidências à direita da direita, cada vez mais extremas e cada vez menos eleitoralmente viáveis, como frutos que caem da árvore antes de maduros.
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