Sábado – Pense por si

Pedro Proença
Pedro Proença Advogado
09 de julho de 2026 às 22:12

O Mundial onde o futebol se joga nos intervalos

Este Mundial ficará para a história por muitas razões, mas talvez nenhuma tão simbólica como a polémica em torno da suspensão do jogador da seleção dos Estados Unidos.

Durante décadas disseram-nos que o Campeonato do Mundo era o expoente máximo do futebol. Em 2026 descobrimos que, afinal, passou a ser apenas um excelente intervalo entre campanhas publicitárias, reuniões políticas e operações de relações públicas. O futebol, esse, vai aparecendo quando sobra tempo.

Este Mundial ficará para a história por muitas razões, mas talvez nenhuma tão simbólica como a polémica em torno da suspensão do jogador da seleção dos Estados Unidos. Um cartão vermelho transformou-se num caso diplomático. A suspensão foi levantada, gerando inevitáveis suspeitas sobre a influência exercida junto da FIFA. Não porque existam provas de interferência política direta, mas porque, quando o país organizador é também a maior potência mundial e o respetivo Presidente mantém uma relação pública de proximidade com a liderança da FIFA, as aparências passam a ter tanto peso como os factos.

A FIFA, naturalmente, garantiu a independência das suas decisões. E acreditou quem quis. O problema das instituições não é apenas serem independentes, é terem de parecer independentes. Quando um caso disciplinar acaba envolto em especulações sobre telefonemas presidenciais, percebe-se que a maior derrota não é da arbitragem, mas da credibilidade da porta modalidade.

Mas este Mundial está a ser muito mais do que isso. É a consagração definitiva do futebol como plataforma comercial. Refiro-me às famosas paragens durante o jogo, justificadas por razões de hidratação ou por necessidades televisivas, transformaram-se num novo modelo de negócio. Enquanto os jogadores recuperam o fôlego, os patrocinadores recuperavam o investimento. Milhões de espectadores parados significam milhões de consumidores disponíveis. Nunca um gole de água ou de cerveja valeu tanto dinheiro.

É curioso observar a evolução do futebol moderno. Antigamente interrompia-se um jogo porque alguém se lesionava e hoje interrompe-se porque o cronómetro publicitário também precisa de jogar.

Talvez no próximo Mundial haja direito a intervalo técnico para apresentação de um novo automóvel, seguido da repetição do lance patrocinada por uma plataforma de

apostas e encerrada com um desconto exclusivo para quem digitalizar o QR Code antes do pontapé de baliza.

Falemos agora de Portugal que também deixou a sua marca. Infelizmente, não pela conquista do título. A eliminação voltou a recordar que o talento individual continua a não chegar quando o futebol coletivo falha nos momentos decisivos. Entrámos no torneio embalados por expectativas elevadas e saímos com aquele sentimento tipicamente português de que para o próximo é que é.

Mas houve uma despedida impossível de ignorar. Cristiano Ronaldo disse adeus aos Campeonatos do Mundo. Independentemente das preferências clubísticas, das simpatias pessoais ou das inevitáveis críticas que acompanham qualquer carreira de dimensão planetária, encerra-se um ciclo irrepetível da história do futebol português, e o problema é que os mitos não se substituem por decreto , nem por hashtags.

Entretanto, em Portugal também se jogava outro campeonato. Enquanto a seleção disputava os oitavos de final, o Primeiro-Ministro acumulava quilómetros para assistir aos jogos da equipa nacional. Nada impede um governante de apoiar a seleção. Pelo contrário. O problema começa quando o calendário institucional parece organizar-se em função do calendário da FIFA. Naturalmente, surgiram críticas.

Uns consideraram as viagens perfeitamente normais, outros viram nelas um excesso incompatível com as responsabilidades governativas. Talvez ambos tenham razão.

Mas convenhamos que poucos líderes políticos conseguiram transformar uma fase final do Mundial numa espécie de agenda paralela de representação internacional. Se Portugal tivesse chegado à final, talvez fosse necessário criar um Ministério dos Assuntos Futebolísticos.

No fundo, este Campeonato do Mundo está a revelar uma mudança muito mais profunda. Já não discutimos apenas táticas, esquemas ou sistemas de jogo. Discutimos marketing, influência política, direitos televisivos, decisões disciplinares, algoritmos das redes sociais, receitas publicitárias e estratégias de

comunicação. O futebol continua lá, só que, por vezes, parece desempenhar um papel secundário.

Talvez seja inevitável pois afinal, o Mundial tornou-se um dos maiores acontecimentos económicos do planeta, onde circulam milhares de milhões de euros, também circulam interesses, pressões, agendas políticas e operações de imagem.

Nada disso é propriamente novo. A diferença é que hoje já nem se tenta esconder e talvez seja esta a maior ironia de 2026. Nunca houve tanto dinheiro no futebol, nunca houve tanta tecnologia para garantir transparência, nunca houve tantos regulamentos para assegurar a justiça.

E, paradoxalmente, nunca houve tanta discussão sobre se o jogo continua realmente a ser decidido dentro das quatro linhas. No fim de contas, o Mundial terminou por confirmar a velha máxima que o futebol continua a ser o desporto mais popular do mundo.

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