Nesta ordem pluripolar mais fluida e dinâmica, outros intervenientes, para além dos Estados-nação, têm um papel relevante a desempenhar.
Visto de Bruxelas, a União Europeia deve preparar-se para um mundo pluripolar. Depois do “equilíbrio de poder,” do período multipolar entre as duas grandes guerras, do sistema bipolar da Guerra Fria e do breve momento unipolar americano que se lhe seguiu, a pluripolaridade marca os dias de hoje. Embora mais difícil de gerir, uma ordem internacional com múltiplos intervenientes, alianças variáveis e diversos fatores de poder, pode abrir oportunidades para UE, evitando submeter-se às potenciais pressões vindas dos EUA e da China. Para tal, os Europeus vão precisar de maior antecipação, coordenação, unidade e objetivos estratégicos comuns que podem, contudo, ser prejudicados por uma crescente fragmentação (geo)política.
Mundo pluripolar: o que é?
Tal como nas outras ordens internacionais, os polos de poder são definidos pelo comando e liderança de diferentes capacidades materiais, domínios de atuação e influência – económicos, sociais, políticos, militares, culturais, tecnológicos, educativos e ideacionais.
Numa ordem pluripolar, a multipolaridade, a bipolaridade e, até, elementos de unipolaridade podem coexistir. Para dar exemplos concretos, em termos de poder nuclear o mundo é bipolar – EUA e Rússia. No que diz respeito ao comércio, o globo é claramente multipolar, com alguns polos mais importantes, tais como a UE, a China ou os EUA, mas há muitas outras potências comerciais. No campo da Inteligência Artificial, as tendências apontam para uma bipolarização entre os EUA e a China, com predomínio para os americanos. Se combinarmos todos os fatores de poder, é provável que os EUA ainda estejam no topo do ranking.
Nesta ordem pluripolar mais fluida e dinâmica, outros intervenientes, para além dos Estados-nação, têm um papel relevante a desempenhar. De plataformas tecnológicas e empresas globais até indivíduos como Elon Musk ou atores não-estaduais como organizações terroristas ou criminais, há muitas forças que moldam e influenciam a geopolítica hoje.
Rejeição da rivalidade bipolar
Uma característica central deste sistema pluripolar emergente é a rejeição ou a resistência à força centralizadora das duas potências rivais predominantes: os Estados Unidos e a China. Trata-se menos da oposição entre o Ocidente e o Resto do Mundo e mais da recusa de uma Pax Sino-Americana imposta de cima.
A pluripolaridade resulta também de os polos dominantes não estarem dispostos ou não terem a capacidade para unilateralmente coagir os outros de forma eficaz. Os EUA são ainda a potência preeminente no mundo, mas os custos de impor a sua vontade pela força a outros provavelmente superariam os benefícios, exceto quando confrontados por ameaças existenciais ou face a adversários substancialmente mais fracos.
A intervenção no Irão e a crise no Estreito de Ormuz são um bom exemplo. Poderia Washington ter usado força adicional? Sim. Mas a que custo e com que resultados? Por sua vez, a Rússia trava uma guerra de agressão contra a Ucrânia há mais de quatro anos e está longe de alcançar militarmente os seus objetivos estratégicos. A China parece disposta a esperar e a incorporar Taiwan com o menor custo possível. Portanto, há limites ao poder das Grandes Potências.
Ora, estes limites continuarão, provavelmente, a ser testados durante uma presidência Trump marcada pelo protecionismo intervencionista. O poder potencial dos EUA é incomparável em muitos domínios, mas não é claro que haja capacidade de o utilizar plenamente e em que termos. O tempo o dirá.
Potências Médias
A potencial bifurcação do sistema internacional, juntamente com o seu carácter pluripolar, permite aos países que não estão no topo do ranking desenvolver estratégias de maior autonomia, moldadas pelos seus valores, interesses nacionais e alavancas de poder e não só pelas eventuais pressões oriundas de Washington ou Pequim.
Atualmente, há uma série de países – as ditas “Potências Médias” do Primeiro-Ministro Carney – tais como o Brasil, o Canadá, a Índia, a Indonésia ou o Reino Unido, mas onde também poderia incluir Singapura, que não só não querem tomar partido na rivalidade sino-americana, como preferem cooperar com ambas as superpotências em domínios diferentes e desenvolver a sua autonomia nas suas relações internacionais, aumentando a sua liberdade de atuação. Isto pode ter um preço também.
Paradoxos da anarquia
A ordem pluripolar é potencialmente mais anárquica e livre do que um modelo bipolar ou unipolar, permitindo que todos os tipos de regimes coexistam através do equilíbrio de poderes ou da formação de pactos com os polos dominantes. Ao estabelecer ‘coligações de vontades’ ou ao fazer transações e acordos mutuamente benéficos, os países podem aumentar sua margem de manobra ou, pelo menos, ter mais escolhas em relação aos seus compromissos globais.
Contudo, esta ‘liberdade,’ pode vir acompanhada por dois riscos importantes numa ordem internacional pluripolar: por um lado, os regimes autoritários poderão porventura manter-se no poder mais facilmente, pois têm maior autonomia para impor a sua vontade a nível doméstico e internacional. Por outro lado, num estado de crescente anarquia, a guerra e os conflitos tornam-se ameaças maiores, uma vez que podem ser travados com menos restrições do que antes.
O que significa para a UE?
Uma ordem pluripolar, embora muito mais complexa e volátil, dado o número de intervenientes e a frequente mutação de interesses, pode ser uma oportunidade para a União Europeia se afirmar internacionalmente e promover novas formas de multilateralismo, especialmente num período em que as normas universais que garantem a paz e a estabilidade são cada vez mais contestadas também por aqueles que as criaram.
Neste contexto, como pode a UE prosperar e manter-se como uma organização multilateral com as suas características únicas de supranacionalidade?
A longa existência da UE implica que esta teve de se adaptar e ‘sobreviver’ sujeita a diferentes ordens internacionais. Embora tenha crescido e prosperado, beneficiando também de um longo e generoso dividendo de paz proporcionado pela NATO e pelo guarda-chuva de segurança dos EUA, os benefícios desta estabilidade estão agora a chegar ao fim na Europa.
Chamada do futuro
Para ter sucesso a longo prazo, Bruxelas e as capitais dos 27 terão de se ajustar e procurar moldar esta ordem emergente. A integração europeia ficará em risco se a UE se tornar num reflexo do estado caótico do mundo de hoje. Uma União Europeia fragmentada e desunida, incapaz de fortalecer o seu tecido económico e tecnológico, reforçar a sua segurança e defesa, alargar a sua expressão geoestratégica com novos membros como a Ucrânia e aumentar a sua resiliência social, ficará à mercê de outros numa ordem pluripolar.
Haja coragem e imaginação para responder à chamada do futuro.
No século XXI, se as democracias não conseguem ser mais rápidas a acompanhar acontecimentos e mudanças, então têm de ser mais inteligentes para antecipar e preparar-se para o que pode estar para vir.
A diferença está em saber o que é mais importante para os europeus neste período de instabilidade geopolítica: uma política externa a uma só voz ou, às vezes, sem voz? Ou uma postura internacional mais veloz, mas potencialmente a mais vozes?
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